sexta-feira, 28 de junho de 2013

81º - "E se vivêssemos todos juntos?"

Há poucos anos Woody Allen, ao lançar um filme, deu algumas declarações divertidas sobre envelhecer, para ele a velhice é um mau negócio: "você não fica mais esperto, não fica mais sábio, não fica mais doce ou mais amável. Nada acontece de fato. Suas costas doem mais, você tem mais indigestão, sua visão não é boa, você precisa de ajuda para escutar. Envelhecer não traz, de fato, quaisquer vantagens. Não ficamos mais inteligentes nem mais generosos. Aceitem o meu conselho: evitem envelhecer".
Falar sobre velhice é sempre arriscado, é um assunto cheio de tabus. A verdade é que, se pudéssemos escolher, evitaríamos mesmo envelhecer: a saúde fica debilitada, a beleza se vai (porque já estão fora do padrão de beleza) e os velhos são marginalizados na nossa sociedade que, primando pelo trabalho (pela mão de obra, pelo dinheiro) desvaloriza àqueles que já não alimentam mais o sistema (mas se alimentam dele). Se antigamente (e isso ainda resiste, essencialmente em cidades pequenas) ao velho cabia o papel de interlocutor da tradição e da sabedoria de vida, nem isso lhe cabe mais. Ao mesmo tempo ser velho ficou ultrapassado, e as pessoas evitam ao máximo, prolongando a vida adulta com fórmulas milagrosas. Não dá para culpá-los, ninguém quer ser velho, porque todo mundo quer ser alguém e o velho é ninguém (estou aqui parafraseando Ecléa Bosi).
Mas ficar velho é realmente inevitável - para quem quer, e pode, continuar vivo - e por ser inevitável a velhice o assunto é evitável, porque dificilmente as pessoas querem olhar para um espelho, ainda que futuro, principalmente no cinema, num momento de lazer.
Por esses assuntos delicados e por outras questões (que eu já falei um pouco aqui) o cinema - que é o reflexo da nossa sociedade - também não quer falar de velhice e é raro ter um protagonista velho. Por todos os motivos listados acima, assistir a "E se vivêssemos todos juntos?" é um deleite. Além de todos os protagonistas serem velhos, de tratar os tabus da velhice, o filme mostra de uma maneira delicada, sincera e esperançosa o processo de envelhecimento, este é o enfoque do filme.
O filme mostra com uma sinceridade bonita e brutal temas e imagens que dificilmente vemos no cinema, os velhos ali lidam com uma dignidade incomum os problemas trazidos pelo envelhecimento. As imagens também são cristalinas, a câmera e os closes não evitam esconder as rugas e a aparência real, sem – ou com pouca – maquiagem (maquiagem aqui em vários sentidos).
Neste processo a proposta do filme é realmente tentadora: e se vivêssemos juntos? E se deixássemos de ser um problema e fôssemos a solução?
A história é sobre 5 amigos, quatro deles formam dois casais e o quinto, ...., foi amante das duas mulheres do grupo, há quarenta anos. Mas bem poderia ser na atualidade, porque "E se vivêssemos" fala, sem pudor e muitas vezes, sobre o sexo, sobre o desejo, sobre masturbação.
Claude (Claude Rich), o único solteiro do grupo, tem um ataque cardíaco quando está chegando ao quarto da garota de programa que visita - e fotografa - com certa frequência. Seu filho propõe ao pai que feche o apartamento no qual mora sozinho e passe a viver numa casa de repouso. Os amigos vão visitá-lo, mas diante da situação (que não é das piores, mas uma casa com velhos debilitados) resolvem levar embora o amigo e, assim, morarem juntos.
Outros amigos também estão doentes, como Albert (Pierre Richard) que está com problemas graves de memória e sua esposa, Jeanne (Jane Fonda, está linda como sempre) que está com câncer. Mas as doenças são meros coadjuvantes na história, elas fazem parte da vida, são lidadas com uma clareza e honestidade belíssimas.
Junto com esses acontecimentos tem Dirk (Daniel Bruhl de “Adeus, Lênin”, “Edukators” e “Bastardos Inglórios”) que é um estudante de etnologia e pretende fazer sua tese sobre o processo de envelhecimento dos aborígenes australianos, mas depois muda seu objeto (sujeito) de pesquisa para os europeus, e vai morar com os amigos a fim de fazer sua etnografia.
A cena de morte, também outro tabu, é tratada com humor e generosidade e a cena final é uma linda síntese de um filme que é todo coerente. Por aqui já estou cooptando meus amigos, "E se vivêssemos todos juntos?" é um filme, afinal, sobre esperança. 
E se vivêssemos todos juntos? (Et si on vivait tous ensemble?, França, 2012) *****

segunda-feira, 24 de junho de 2013

80° - "Millennium: Os homens que não amavam as mulheres"

O fim de semana passou e eu tive a agradável surpresa de que os canais HBO e MAX estavam liberados e combinavam perfeitamente com um domingo nublado. Então, ao final da noite eu resolvi rever "Millennium: Os homens que não amavam as mulheres" que eu tinha visto no cinema. Eu adoro a trilogia, li os livros e vi a trilogia sueca (país de origem do escritor Stieg Larsson e onde se desenrola a trama). Na maioria das situações eu levantaria a bandeira sueca, pois o filme além de ser americano, foi refilmado pouco tempo depois (cerca de 3 anos). Pra quê? Deveria ser feito? 
Entretanto eu tenho um carinho especial por essa versão americana, pois foi por ela que eu conheci a trilogia e me apaixonei. Lembro que saí do cinema encantada com a história, e lembro também que, ao longo das 2 horas e 40 min de filme, algumas pessoas foram deixando a sala, em especial na cena de estupro da Lisbeth; isto acontece porque apesar de "Millennium" ser americano, ele não nos poupa nas cenas de sexo e violência, sendo fiel ao livro. Na cena inicial já dá pra perceber que algo é diferente, numa mistura psicodélica dos personagens ao som de "Immigrant Song" do Led Zeppelin.
Mas vamos aos motivos pelos quais eu gosto tanto desta trama: Larsson é sueco e escreve a partir das suas perspectivas culturais, no filme é sutil, mas no livro é evidente: o autor montou uma trama na qual homens e mulheres têm o mesmo papel, são inteligentes, forte e têm poder. Aliás, acho que as mulheres são mais fortes do que os homens, apesar de Mikael Blomkvist (Daniel Craig) ser inteligente e sedutor (praticamente todas as mulheres da trama têm uma queda por ele), quase todos os outros homens ou são fracos ou são ruins. Às mulheres cabem os papéis protagonistas, de editora-chefe, de policial e investigadora (que resolvem as crises, mas nos outros livros) e, claro, de Lisbeth Salander. Ela é a protagonista, as histórias giram em torno dela (especialmente nos outros dois livros: "A menina que brincava com fogo" e "A rainha do castelo de ar"). Aliás, eu li uma reportagem com a mulher (companheira) de Larsson (ele morreu de ataque cardíaco em 201... com 50 anos) se colocando contra esse nome terrível que arrumaram para a obra, originalmente "A garota com a tatuagem de dragão" para "Os homens que não amavam as mulheres", percebam que neste nome aportuguesado a ênfase está nos homens e na atitude misógina. Mas isto é reduzir demais uma história que é sobre suspenses, sobre serial killers, mas está longe de ser só isto.
Lisbeth é uma heroína atípica, é franzina, esquisita, coberta por tatuagens e piercings, sem nenhum traquejo social e cheia de traumas psicológicos motivados por seu pai. Mas ela é extremamente inteligente e forte (fisicamente), é ela quem salva o mocinho no final do filme, não o contrário.

A sinopse é sobre uma mulher (Harriet Vanger) que sumiu há 36 anos, sobrinha do rico Henrik Vanger (Christopher Plummer), mas seu sumiço não pode ser esquecido pelo tio, já que em todo aniversário de Harriet, a cada ano, o tio recebe um quadro com um desenho como era hábito de sua sobrinha. Intrigado, mesmo após tantos anos, Henrik contrata o jornalista Mikael Blomkvist que com a ajuda de Lisbeth Salander solucionarão o caso. Mas gente, não vejam o filme baseado nesta sinopse que é quase um déjà-vú, o filme é muito mais que isso e essa diferença cultural nos permite uma experiência fílmica diferente, envolve questões de gênero, discussões sobre a mídia, sobre corrupção. Só não gosto do final – que aliás é fiel ao livro – pois acho que é desnecessário e contrário à personagem (Lisbeth) tão bem construída no filme, de qualquer maneira não tira o mérito da história.
Millennium: Os homens que não amavam as mulheres (The girl with the dragon tatoo, EUA, 2012) ****

sábado, 22 de junho de 2013

79º - "Tempos Modernos"

Charles Chaplin, um dos maiores cineastas da história do cinema, provavelmente estaria feliz se estivesse no Brasil por estes dias. Produtor, diretor e roteirista do filme “Tempos Modernos”, Chaplin encontraria aqui elementos capazes de lhe gerar um novo filme. As inúmeras manifestações que borbulharam – e ainda borbulham – em várias cidades em nosso país são dignas de críticas – positivas e negativas. As pessoas vão às ruas por motivos difusos e confusos, não elegeram um líder ou um protagonista para glorificar ou crucificar. Mas as diferentes pautas giram em torno de uma grande insatisfação com nossa condição política – e, principalmente, urbana – que gerou grande mobilização da sociedade (incentivada pela internet/tecnologia).
“Tempos Modernos” é o retrato de uma urbanidade cruel aliada a uma desigualdade social perversa. Chaplin relata com humor, ironia e certa melancolia a realidade de uma classe social que, vivendo na sociedade industrial, encara níveis de pobreza, desemprego, fome.
Para contar a história do pobre Carlitos e sua namorada, Chaplin lança mão de diversas metáforas enquanto linguagem cinematográfica.
A cena inicial do filme mostra um bando de ovelhas indo para o abate e segue sobreposta com uma multidão de pessoas saindo do metrô e indo ao trabalho. Entre eles a “ovelha negra” Carlitos inicia o filme como um operário, que enlouquece diante do trabalho repetitivo e exaustivo, por ser tratado como uma engrenagem da máquina social. A cena clássica do filme – e do cinema – é uma metáfora, onde Carlitos é engolido por uma máquina, assim como o trabalhador é engolido pelo sistema capitalista de produção.
As metáforas pontuam o filme, essencialmente quando Carlitos e a namorada sonham com uma vida classe média/média alta, seja sonhando em ter uma casa, seja na loja quando Carlitos trabalha como vigia noturno e a garota dorme “em berço de ouro”.
Entretanto, baseado em perspectivas pessoais, a metáfora que eu elejo é a do final do filme, depois de todo sofrimento imposto ao casal pelas instituições sociais (como a polícia, o Estado, o capital) há ainda em Chaplin, através do casal, uma visão otimista. Quando o casal, juntos e de mãos dadas caminham, a estrada voltada para o infinito é a metáfora da esperança, mesmo com toda tristeza infinitas possibilidades ainda se apresentam e nelas a felicidade ainda pode ser encontrada.

Tempos Modernos (Modern Times, EUA, 1936) *****

quarta-feira, 19 de junho de 2013

78º - "Frankenweenie"

Filmes com bichos fofos têm grandes chances de conquistar o público. Junte a este quesito o fato do cachorro ser carente, com ar de pidão, o único amigo do dono e ainda morrer duas vezes no filme.
Mas seria injusto reduzir "Frankenweenie" a esta questão, o filme é bem mais que isto. A história contada é sobre a família Frankenstein: um pai, uma mãe, um filho introvertido, que gosta muito de ciências e de cinema! e um cachorro, o Sparky. Acontece que o cachorro é atropelado, morre, mas Victor, o garoto Frankenstein, consegue revivê-lo.
Bem, qualquer um que tenha um mínimo de curiosidade vai saber que “Frankenweenie” foi baseado num curta que o diretor Tim Burton filmou na década de 1980 e que, anos depois e com a possibilidade de angariar mais recursos como o diretor que é, resolveu produzi-lo em "stop motion" (que era sua ideia na época, mas ficaria fora do orçamento). 
Os extras do DVD são incríveis, tem o curta original (e dá pra perceber o capricho de toda a equipe de produção, que se esmerou em fazer detalhes idênticos ao do curta), tem making off mostrando os bastidores da produção de um filme em "stop motion", a imensidão do projeto, da quantidade de pessoas envolvidas é realmente fascinante. Eu queria muito - muito mesmo - um boneco do filme, são lindos, lindos.
O filme é em preto e branco então até a paleta de cores - do branco ao preto - os detalhes produzidos para uma única cena (tudo em miniatura). Vale a pena, a gente enxerga o filme com outros olhos.
"Frankenweenie" segue uma linha bem próxima de "A noiva cadáver" em termos de estética das personagens (parece que o Tim Burton quem desenhou ou então supervisionou os desenhos). Aliás, Tim Burton tem sua marca registrada, ele é admiravelmente coerente em suas obras, desde os "Os fantasmas se divertem", "Edward mãos de tesoura", até os fantasiosos (e ainda mais fantasiosos em suas mãos) "A fantástica fábrica de chocolates" e "Alice no país das maravilhas". Tim é a "voz dos desajustados", consegue colocar nas telas dos maiores e mais famosos cinemas o que provavelmente ficaria como "filme B" do mainstream. Inclusive, ele e sua esposa (Helena Bonham Carter) são extremamente outsiders, estão à margem de toda padronização do tapete vermelho e do luxo hollywoodiano. Mas eles estão lá, são praticamente extensões de seus personagens desajustados, maravilhosamente estranhos, corajosamente esquisitos.
Além, "Frankenweenie" é uma grande homenagem ao cinema (já era também no curta), a primeira cena é de Victor produzindo um filme com a ajuda de Sparky, mas as referências a outros filmes durante o filme acontecem em vários momentos: como já é óbvio ao "Frankentein", mas também aos "Gremlins", “Godzilla”, "Parque dos Dinossauros", "Pássaros" e até "Bambi" (que aparece ao fundo como filme em cartaz no cinema local).
Isso é apenas mais um motivo para gostar de "Frankenweenie", afinal, tem como não amar um filme sobre um cãozinho remendado?

Frankenweenie (EUA, 2012) ****

terça-feira, 18 de junho de 2013

R.I.P. "365 filmes em 2013"

Hoje fazemos aniversário, há três meses não publico uma postagenzinha sequer. Sei que algumas vezes eu mesma previ esta possibilidade e ela se concretizou. Três meses atrás minha vida estava um caos, trabalhando adoidado (ao invés de curtindo a vida), estudando muito, e escrevendo (e vendo filmes) diariamente aqui. Além disso, sim, eu tinha minha vida particular pra dar conta. Ainda assim eu estava otimista (como sou) que tudo daria certo e eu conseguiria colocar mais horas no meu dia e realizar todas as minhas tarefas. Então, a cereja do bolo: eu troquei de orientador no doutorado, e o novo começou nossa relação de orientação me desorientando: deixou claro que, se eu não me dedicasse verdadeiramente, eu não conseguiria produzir a tese. Falou sobre isso e falou muito, repetidas vezes, repetidos dias. Eu sou uma pessoa otimista - como deixei claro linhas atrás - mas também sou uma pessoa descontrolada, apavorada e neurótica. Passei dias ansiosos, sabia que deveria deixar o blog, mas estava sem coragem, porque quando o "365 filmes em 2013" estava engrenando, ganhando seguidores, amigos que me procuravam, indicavam filmes, eu teria que deixá-lo. E foi difícil, foi assim, um dia eu não postei mais, não consegui assisti a algum filme, nem no dia seguinte, nem no outro. Fiquei um mês (ou mais) sem acessar ao blog, fiquei triste em deixar meu projeto...
Mas eu sempre soube que, apesar de incompleto, o "365 filmes" havia me dado um presente valioso: foi por conta deste projeto, e dos filmes que eu via rotineiramente que eu desenvolvi o tema da minha tese. E então eu consegui aliar dois grandes prazeres na minha vida: a antropologia e o cinema. Como pouca coisa na vida acontece por acaso estava aí o objetivo do blog na minha vida: me abriu novos horizontes, novos aprendizados, novos olhares que me permitiram pensar sobre os filmes de uma outra maneira.
Neste ínterim, é claro, eu assisti a vários filmes, no cinema, em casa. Também ampliei minha coleção de DVDs (que continuo emprestando a amigos) e claro, continuo com a mania obsessiva (e chata, eu sei) de sempre exemplificar conversas com filmes. Sei que parece blasé, mas não é, não pra mim. Pra ajudar eu agora estudo cinema, tenho lido livros, tenho as minhas orientações com meu professor que é do cinema. Isto abre um horizonte incrível, estou feliz.
Aliado a isso eu consegui, além de um tema novo para a tese, uma licença do meu trabalho para estudar, concluir meu doutorado. Então, tem umas duas semanas, estou integralmente me dedicando ao doutorado. Faço minhas aulas, estudo, tenho as orientações, estudo, escrevo, estudo... Mas então me veio a vontade de continuar escrevendo aqui. Eu não poderia continuar com o "365 filmes", já não faria sentido, então mudei o nome do blog, mas os objetivos continuam os mesmos: pretendo escrever sobre os filmes que gosto por três grandes motivos: porque eu gosto de filmes, porque minha memória é péssima (e assim eu tenho um arquivo) e porque escrever é hábito e deve ser praticado com assiduidade.
Sendo assim, a partir de hoje, eu escreverei aqui, no "Lente Subjetiva", para mostrar o meu ponto de vista dos filmes, as minhas percepções, as minhas lentes. Já adianto que não pretendo inserir posts diários, mas pretendo publicar aqui ao menos três posts semanais. Que assim seja!

segunda-feira, 18 de março de 2013

77° - "Um corpo que cai"


Definitivamente "Vertigo - um corpo que cai" é o melhor filme de Hitchcock. Tudo bem que eu ainda não conferi toda sua filmografia, mas é um filme com tantos elementos encantadores que fica difícil de bater. Pelo visto isso não é novidade - era pra mim - já que foi eleito ano passado o melhor filme de todos os tempos, numa eleição promovida por uma revista inglesa e que envolveu mais de 800 especialistas (o eterno "Cidadão Kane" perdeu o posto, está em segundo lugar).
É difícil falar de "Vertigo" sem oferecer spoiler. Tudo bem que, assim, eu não tenho muito cuidado mesmo na hora de escrever sobre os filmes, já que o blog é terapêutico para mim, como um diário, e também porque niguém pouca gente me lê.
E "Vertigo" apresenta tantas nuances que nem sei se vou dar conta de apresentar todas aqui, é um filme que a gente vê e quer rever em seguida (eu fiz isso) para tentar apreendê-lo melhor. O filme já começa apresentando Scottie (James Stewart, que também fez "Festim diabólico" e "A felicidade não secompra") um detetive da polícia em perseguição a um bandido em telhados, ele escorrega, quase cai, e um policial acaba caindo e morrendo quando tenta salvá-lo. Scottie desenvolve então acrofobia (medo de altura) e por isso se aposenta da polícia (a imagem da vertigem dele é muito bem feita). 
Um amigo de faculdade de Scottie o contrata para investigar sua esposa Madeleine Elster (Kim Novak), já que suspeita que ela está sofrendo uma espécie de transe por conta de um antepassado. Scottie a segue e descobre seus estranhos hábitos, na floricultura, no cemitério, no museu, tudo leva à figura de Charlotta, que depois Scottie descobre ser a bisavó de Madeleine que por infortúnios da vida se matou com 26 anos, e supostamente a mulher está sob sua influência tanto em sonhos quanto acordada, quando entra em transe e adotada esquisitos comportamentos, do qual não se lembra depois.
Com medo da esposa se matar como fez a bisavó, o amigo pede a Scottie que vigie sua mulher e ele o faz, inclusive a salvando quando se joga na Baia (numa cena linda esteticamente). Depois que a salva os dois começam a se envolver e se apaixonam.
Mas a paranoia de Madeleine não impede que ela suba na torre de uma igreja e se jogue lá de cima - Scottie não consegue salvá-la, pois por conta de sua acrofobia não consegue chegar ao topo da torre. Ele fica arrasado e vai parar numa clínica por conta de uma depressão profunda.
Depois, quando sai, procura frequentar os locais onde frequentava Madeleine, a vendo no rosto de várias mulheres, até que encontra uma, que apesar de ter hábitos diferentes, é muito parecida. Ele se aproxima dela, e só depois descobrimos que Judy é, na verdade, a própria Madeleine (ou a representação dela), que o marido contratou para fingir ser sua esposa e assim matar a verdadeira esposa (a que realmente caiu da torre da igreja) sem suspeitas, já que Scottie testemunhou o suposto suicídio (ele foi contratado por conta da sua doença e por ter certeza que ele não chegaria ao topo, muito alto).
A trama é muito bem amarrada (bem diferente de Pássaros), os personagens são complexos e o jogo psicológico de Hitchcock está lá, como sempre, com magnitude.
O filme é recheado de suspenses, de cenas psicodélicas que objetivam confundir aos espectadores: o que é realidade? o que realmente está acontecendo? e assim mostra a fragilidade da nossa mente e também nossas limitações, principalmente psicológicas.
Pra mim, já que também tenho medo de altura, o filme é de dar nervoso, principalmente nas cenas de vertigem do personagem, que são muito bem feitas (eu passei parte do filme com as mãos suando de nervoso).
Pela construção dos personagens, pela história tão bem construída e contada e pelas cenas que conseguem nos mostrar tão bem o ponto de vista do protagonista, por isto tudo, "Um corpo que cai" é imperdível.
Um corpo que cai (Vertigo, EUA, 1958) *****

sábado, 16 de março de 2013

75° - "As vinhas da ira"


"Eu nunca mais terei medo. Eu tive, porém. Cheguei a pensar que estávamos perdidos. Parecia que só tínhamos inimigos nesse mundo. Como se ninguém fosse amistoso. Eu me senti mal e assustada. Como se estivéssemos perdidos e ninguém ligasse... Os ricos nascem, morrem, e seus filhos também não prestam e desaparecem. Mas nós continuamos. Somos nós que vivemos. Eles não podem acabar conosco. Não podem nos vencer. Nós viveremos para sempre, porque nós somos o povo".
(Mãe)
"As vinhas da ira" é todo de cortar o coração, é um filme duro, cru, que mostra de maneira sincera uma triste realidade: a situação dos pobres na época da depressão de 29 nos EUA. Não se engane, não espere um filme de esperança, apesar de não ter um final ruim, os problemas também não se resolvem. O filme foi baseado no livro de John Steinbeck, que fez um amplo trabalho de campo e pesquisa para sua escrita, acompanhou de fato uma família que foi despejada de sua casa e partiu para Califórnia em busca de melhores condições, mas diferente do filme, que tem uma trajetória ascendente (apesar de não ter um final feliz hollywoodiano), li que o livro é ainda mais desesperançoso.
O filme se inicia com Tom Joad (Henry Fonda) voltando para casa após cumprir quatro anos de prisão por ter matado um homem numa briga. Quando chega em casa, em Oklahoma, a situação de sua família é caótica: todos eles, incluindo vizinhos, foi despejados de suas terras por conta de grandes empresas agricultoras, e agora todos decidiram migrar para Califórnia, na esperança de encontrar trabalho e condições melhores. Assim eles partem em viagem, num caminhão com todas as coisas e toda a família (irmãos, avós, pais, tio, cunhado). Neste momento no qual se transforma em filme de estrada eles vão redescobrindo a realidade a partir tanto da estrada, quanto das paradas; eles encontram situações muito difíceis e percebem a realidade do país, são vários "caminhões casas", pessoas carregando sua vida, porque já não tem onde morar e se submetendo a qualquer condição de trabalho para não morrer de fome, é terrível. 
A família chega na Califórnia e percebe que o sonho de melhores condições de vida foi em vão, e eles têm que morar num acampamento com outra milhares de famílias que são humilhadas pelo poder público e passam fome. O trajeto continua até encontrarem um acampamento do governo onde encontram melhores condições para morar e viver.
A situação mostrada, de extrema desigualdade social, talvez nem seja tão chocante para nós brasileiros (apesar de minimizada nos últimos anos); a situação da família Joad poderia ser transportada para o Brasil, para as famílias pobres do nordeste brasileiro frente a grande riqueza de empresários do sul.
Mas se há esperança em “Vinhas da ira” ela está ao final, no lindo discurso de Tom Joad:
"Um homem não tem sua própria alma, apenas um pedaço de uma alma grande. Uma alma grande que pertence a todos. Então não importará. Eu estarei nos cantos escuros, Estarei em todo lugar. Onde quer que olhe. Onde houver uma luta para que os famintos possam comer, eu estarei lá. Onde houver um policial surrando um sujeito, eu estarei lá. Estarei onde os homens gritam quando estão enlouquecidos. Estarei onde as crianças riem quando estão com fome e sabem que o jantar está pronto. E, quando as pessoas estiverem comendo o que plantaram e vivendo nas casas que construíram, eu também estarei lá."
As vinhas da ira (The grapes of wrath, EUA, 1940) ****

sexta-feira, 15 de março de 2013

74° - "Um estranho no ninho"


Qual é a maior vilã da história do cinema? Para mim não há dúvidas: a enfermeira-chefe Ratched (Louise Fletcher) de "Um estranho no ninho", ela é muito má, e não é deste tipo que mata e fica fazendo planos mirabolantes para conquistar o mundo: ela vai nas sutilezas, nos detalhes, sempre com uma calma irônica, com um olhar debochado. Ela ainda se apropria de um grande poder que tem, faz jogos psicológicos com seus pacientes - que são considerados loucos e vivem numa clínica psiquiátrica controlada por ela - os mantendo lá; até que ponto ela tem interesse em curá-los ou mantê-los ali para saciar seu desejo de controle e poder; quem é mesmo o louco?
"Um estranho" trata de tantos assuntos delicados e pesados que é impossível não se maravilhar com a história, é chocante! Quantas vezes já vimos, na realidade, no cinema, pessoas tentando se passar por doidos para 'fugirem' da cadeia e cumprir sua pena num hospital? Para citar aqui, eu me lembrei do Johnny (do filme "Meu nome não é Johnny"). "Um estranho" começa justamente assim, Randle Patrick McMurphy (Jack Nicholson, fantástico, além de ser um ator incrível tem cara de doido mesmo, fala sério?! Só lembrar de "O iluminado") é um prisioneiro malandro, que foi preso por algazarra e estupro, que não quer saber de ter que trabalhar na prisão e então forja sua insanidade para ir a uma instituição para doentes mentais, onde passará por uma avaliação de especialistas que julgarão sua sanidade mental. 
Randle é bem malandro, não gosta de seguir ordens e tenta subverter a ordem rígida colocada por Ratched, a provocando. Junto com um grupo de mais oito pessoas, todos loucos, ele vai viver ali na clínica e desenvolve amizades. Isto porque Randle não é um cara ruim ou babaca, ele tem várias chances de fugir e não concluiu seu intuito por que: é malandro demais chegando a ser imbecil, por sua lealdade aos amigos e também, por que não? É também um pouco insano. Ele se revolta com as normas rígidas do hospital, e percebe que lá, apesar da aparência, a liberdade é ainda mais cerceada; ele tenta fugir arrancando uma grande pia do chão do banheiro, mas não tem força suficiente. Para Randle será tranquilo levar a situação e até divertido, eu me diverti bastante em várias passagens. E ele não é mole, tenta subverter a ordem todo o tempo, como quando fogem para pescar, e eles voltam, também provando que apesar de loucos eles conseguem conviver em sociedade, provando que não precisam se fechar na própria loucura.
A equipe médica atesta que Randle não é louco e pode voltar para a prisão, mas Ratched, num discurso pseudo, defende sua permanência, pois eles não podem desistir do ser humano. Balela, o que ela quer é controle, e logo Randle descobre que, se na prisão sua pena é determinada, ali no hospital ele só sairá quando a enfermeira-chefe atestar sua sanidade, ou seja... Ele resolve fugir junto com "chefe" um índio muito grande e muito forte que todos acreditavam ser surdo-mudo. A amizade de chefe e Randle é a mais bonita e a cena final do filme ("a la 'Amour'") é de arrasar, é maravilhosa: depois de sofrer uma lobotomia, pois Randle tenta matar Ratched (que provoca o suicídio de Billy Bibbit), o chefe diz a ele algo do tipo: "agora eu tenho força, você me deu isso, mas nós vamos juntos ser livres", então pega a pia pesada, joga na janela e foge ao horizonte, incrível, imperdível!
Um estranho no ninho (One flew over the Cuckoo's Nest, EUA, 1975) *****

quinta-feira, 14 de março de 2013

73° - "O banheiro do Papa"


Bem, o Papa foi escolhido, não se fala em outra coisa, há várias confabulações sobre o que o Papa já fez, o que fará. Particularmente já tive a oportunidade de opinar sobre a Igreja, mas é claro que hoje (ainda que bem menos do que já foi) o líder da Igreja Católica tem um grande poder político no nosso mundo, então é claro que me interessa saber dele, de suas predileções, de seus posicionamentos. Acho que a escolha de um Papa Argentino (primeiro da América Latina na história) é uma escolha também política, afinal nossos hermanos foram os primeiros vizinhos que, sabiamente, aprovam legitimamente um casamento entre pessoas do mesmo sexo. Sei que na época o então arcebispo, Jorge Mario Bergoglio, travou debate com Cristina Kirchner sobre o casamento entre homossexuais, e não sei até que ponto um Papa Argentino não é uma maneira de frear posições de vanguarda entre nós, porque se na América Latina a religião católica historicamente já era forte, agora então nem se fala, os católicos vão pipocar, criarão uma maior identidade com seu líder maior.
À parte dessas minhas considerações, o Papa, que usará o nome Francisco tem algumas posições que eu aprovei, ele tem recusado o excesso de ostentação da Igreja, andou de ônibus com os outros cardeais, foi pessoalmente pagar a pensão na qual estava hospedado, evitou usar vestes suntuosas, enfim, parece estar tentando se aproximar mais do povo (hum...).
Então eu bem me lembrei de "O banheiro do Papa", um filme que eu já vi não sei quantas vezes, já que eu costumo passá-lo em sala de aula para meus alunos do curso de Eventos. "O banheiro" é um filme muito bom, que mostra uma triste realidade de uma pequena comunidade de Melo, no Uruguai. A comunidade vive na pobreza e parte de seus habitantes tentam sobreviver do contrabando de mercadorias (já que a cidade faz fronteira com o Brasil, eles vão até o outro país, fazem compras e voltam).
Beto (César Trancoso) o protagonista do filme vive deste contrabando como tantos outros, e para evitar a polícia da fronteira eles têm que ir de bicicleta para fazer um desvio na estrada; os que têm condições compram motocicletas, mas são raras. Um dia Beto sofre um problema no joelho e não consegue subir os morros que são importantes para o desvio, decide arriscar e passa em frente à polícia que o revista e toma sua mercadoria. Agora Beto está sem a mercadoria e tem que devolver o dinheiro dos comerciantes locais que o contrataram.
Nesse meio tempo surge a bela noticia: o Papa João Paulo II virá à Melo e essa novidade deixa toda a comunidade agitada, a mídia insiste na notícia, e divulga que milhares de pessoas irão ao evento, o que movimentará a economia local e então várias pessoas da pequena cidade se enchem de esperança.
Largam o emprego, juntam suas economias para montar barracas de comida, bebida, souvenires e tudo o mais para o grande evento. Beto também embarca na situação, e empreendedor que é, resolve montar um banheiro, do lado de fora de sua casa, para alugar às milhares de pessoas que passarão pela cidade.
O final dá até para imaginar, a mídia fantasiou demais a situação e construiu uma falsa esperança na comunidade. No dia da visita do Papa não compareceu em Melo nem um terço dos visitantes esperados. Várias comidas desperdiçadas, várias pessoas desiludidas. E Beto também não conseguiu que seu banheiro fizesse o sucesso pretendido.
O filme é bem bacana para pensarmos em termos de divulgação dos eventos, em véspera de grandes eventos que acontecerão em nosso país, a mídia não se cansa de falar o quanto os megaeventos serão importantes para a economia, o quanto o povo brasileiro ganhará com a divulgação do país. Mexem com nosso brio, com nosso orgulho nacional. Mas quem será que sairá realmente vitorioso nesses eventos? O povo? 
No meio deste ano acontecerá no Rio de Janeiro a "Jornada Mundial da Juventude", primeiro evento internacional do Papa Francisco. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.
O banheiro do Papa (El baño del Papa, Uruguai, 2007) ***

quarta-feira, 13 de março de 2013

72º - "Argo"


Argo, vencedor do Oscar de melhor filme este ano, tem tudo para ser um filme clichê: conflitos políticos entre EUA e algum país do Oriente Médio, como retaliação aos EUA o país faz reféns americanos e um herói nacional sozinho, com um plano mirabolante, entra no país hostil para salvar seus compatriotas. Vamos reconhecer que não é a primeira vez que vemos algo do tipo no cinema americano, desses filmes que são feitos para ressaltar o patriotismo, a identidade nacional. Mas peraí, Argo tem algo diferente, além de ser baseado numa história real (eu vi depois os extras e realmente o caso é fantástico), ele justifica sua importância nos primeiros 3 minutos de filme, aqueles introdutórios que vão explicar porque um país pequeno no Oriente Médio (mas muito rico em petróleo) tem tanto ódio dos EUA e aí, realmente, Ben Affleck e companhia limitada conseguiram um feito: a culpa é claramente do próprio EUA, sua ganância econômica e política, seu descaso com outra nacionalidade, com outro povo. E então quando o povo do Irã faz refém mais de 50 americanos que trabalhavam na embaixada e a gente entende, é justificável. A situação humanamente é terrível, mas a única coisa que eles querem é que os EUA extraditem o xá, responsável por anos de muita crueldade, e que agora se trata de um câncer na terra dos ianques; justo, eles querem um julgamento com a mesma justiça que lhes foi confiado, enquanto povo, durante tantos anos.
E se a gente tá cansado de ver, e de tentar entender, os fundamentalistas desses países, o filme explica: no caso do Irã todo radicalismo do povo foi construído pelo próprio EUA. "Em 1950 o povo do Irã elegeu Mohammad Mosaddegh, um democrata, como primeiro-ministro, ele nacionalizou holdings de petróleo britânicas e americanas, devolvendo o petróleo do Irã ao seu povo. Entretanto três anos depois, EUA e Grã-Bretanha maquinaram um golpe de estado que depôs Mosaddegh e instalou Reza Pahlavi como xá. O jovem xá era conhecido por opulência e excessos. Havia rumores que sua esposa de banhava em leite, enquanto seus almoços vinham de Paris num Concorde. O povo morria de fome. O xá matinha o poder através de sua cruel polícia, com tortura. Também iniciou-se uma campanha para ocidentalizar a população, o que enfureceu alguns xiitas, e em 1979 o povo do Irã depôs o xá. O aiatolá Khomeini, clérigo exilado, voltou para governar o Irã." O povo, claro, cheio de revolta com seu passado recente de opressão e violências (física, política, cultural) resolveu fazer justiça com as próprias mãos. Neste universo eles se tornaram ainda mais xiitas, procurando defender seu patrimônio, e depois de mais de 20 anos vivendo na violência, eles simplesmente a continuaram, estabelecendo um poder também autoritário, mas agora no controle do próprio povo (bem, é ruim de qualquer jeito, mas ainda acho que pelo menos está nas mãos do povo o que é do povo), tem como culpá-los? Se foi o próprio 1º mundo quem construiu essa cultura da opressão e do medo?
Mosaddegh pediu asilo nos EUA e foi aceito, claro. Mas o povo iraniano queria fazer a sua justiça, e protestava em frente à embaixada americana, até que certo dia a invadiram, fizeram reféns, cuja liberdade estava condicionada à volta de Mosaddegh, foram 444 dias de cativeiro.
Acontece que 6 desses americanos conseguiram fugir, e se refugiaram na casa do embaixador canadense. A situação deles era pior que a dos outros colegas, já que a mídia de todo o mundo estava de olho na embaixada. Então, temendo a situação desses 6 americanos, Tony Mendes (Ben Affleck) perito em "exfiltração" é incumbido de pensar num plano para capturar seus compatriotas. Como todos os outros planos parecem improváveis na atual situação extremista do Irã, Mendes pensa na mais mirabolante de todas: fingir que o grupo está no Irã para procurar um local de locação para um filme de Hollywood. Para dar veracidade ao plano, “Argo”, nome do filme escolhido cujo roteiro prevê uma ficção científica num lugar do Oriente Médio, é pré-produzido em Hollywood, com destaque da mídia. 
Argo, cuja ênfase está em Tony Mendes e em suas ações (há pouco destaque para os reféns, todos e também os 6 que serão resgatados) é também um meta-filme, já que fala dos bastidores de Hollywood, para produção de um filme e esta parte é bem interessante. O filme é também muito tenso e bastante didático, digo isso porque eu consegui compreender totalmente suas discussões e geralmente sou bem lerda para filmes da CIA ou FBI com diálogos rápidos sobre espionagem e não-sei-o-que-mais.
E Tony Mendes realmente merecia um filme e quiçá um Oscar, o cara foi valente demais, aparecer sozinho no Teerã, para capturar os 6 reféns, num país completamente hostil e correndo muitos riscos.
O filme é também muito bom esteticamente, no figurino, nas cenas, até nas cores, realmente nos remete para a época retratada. E apesar de ter adorado “Lincoln” e a atuação de Daniel Day-Lewis, “Argo” é melhor, não na história em si, mas por fazer uma crítica ácida ao próprio país do Oscar, e ter vencido apesar disso foi incrível. De um lado o mito do que é ser americano, com o presidente mártir, de outro uma crítica ferrenha ao que é preciso fazer para se manter no poder, sem justificativas. Eu também prefiro “Argo”.
Argo (EUA, 2012) ****

terça-feira, 12 de março de 2013

71º - "Habemus Papam"


Se você tiver tempo e ligar a TV hoje, por um minuto sequer, ou espiar sites de notícias, ou passar por bancas de jornal vai saber: o assunto mais comentado do dia é o conclave que elegerá o novo Papa, após a renúncia de Bento XVI. E, desde sua renúncia no início de fevereiro, "Habemus Papam" se tornou um filme comentado, não é à toa visto as grandes semelhanças entre a ficção e nossa atual realidade. Eu vi "Habemus" já há algum tempo e já tinha gostado muito dele. Tenho que confessar aqui que não simpatizo com a Igreja - apesar de respeitar quem a segue - sua ostentação, sua história, o que defende... Nem acho que Bento XVI tenha ajudado, tornou a Igreja ainda mais conservadora, reafirmou valores pregados que são absurdos hoje em dia, como o não uso da camisinha, a contrariedade da homosexualidade, enfim, quando conversava com o Digo e dizia: "mas que absurdo essa conclave, não tem nenhuma madre? Só homens!" e ele me respondeu: "você vai perder tempo refletindo sobre os valores católicos?", realmente, não faz sentido... Apesar de ter a minha fé em Deus e até em alguns santos, vejam só, eu parei de frequentar missas - eu tenho uma alma católica que a minha família tratou de moldar e que está em mim, como um "Anjo do Lar" de Virgínia Woolf - quando era criança, quase adolescente, e o padre nervoso, jogou um vaso de plantas ao chão, e disse que quem não dava dízimo não ia pro céu. Pronto, foi definitivo pra mim, o meu Deus não é punitivo, é um Deus tolerante, um Deus de amor. 
Só estou dando esta volta toda porque, diante de toda essa minha falta de entusiasmo pela Igreja eu posso dizer que - apesar de saber que não foi sua intenção - o roteirista/ator/diretor Nanni Moretti conseguiu produzir um filme que me deu até certa simpatia com relação à religião; isso porque ele focou em algo difícil de não gostar: que apesar de toda ostentação, riqueza, protocolo, valores e regras, as pessoas que ali estão são extremamente humanas, com suas delicadezas, seus erros e acertos, suas certezas e dúvidas. E isto não está apenas na figura central do filme, o cardeal votado Melville, mas em todos ao redor. A cena inicial é apaixonante: estão todos seguindo o rigor protocolar do conclave, os mais de 100 cardeais indo à sala de votação, devidamente trajados, cantando, envoltos pela mídia, até aí tudo esperado; então eles se sentam para votar, estão todos lá, os mais cotados, os com mais visibilidade, todos em momento de silêncio votando até que, por algum instante, nós espectadores viramos Deus e ouvimos todas as preces daquela sala, todos os cardeais orando e pedindo ao senhor: "Eu não, meu Deus, eu não", "Eu, não, meu Senhor. Não me escolha", "Eu não, eu não Senhor, eu Lhe rogo"... E alguém vai dizer o contrário? Tudo bem que ser Papa é ter um dos cargos mais poderosos do mundo, mas com extrema responsabilidade, deveres, que vão além de questões políticas, envolvem a expectativa e fé de milhares, o Papa é como um santo, glorificado, seguido pelos fiéis com devoção. Sei lá, é difícil encarar. 
O conclave não nomeia seu Papa na primeira eleição, mas logo chega ao escolhido, o fofo Melville (Michel Piccoli). A cena na qual ele é o escolhido é linda, todos emocionados, ele também, feliz... Mas daí vem a pergunta fatídica: "Aceita sua indicação canônica para Sumo Pontífice?", a partir daí a ficha cai para Melville, que tem uma crise de pânico na hora de se apresentar oficialmente aos fiéis da praça. Melville é um senhor simples, não lida bem com o poder que lhe deram, assim que se veste de Papa e todos se curvam, ele tem dificuldades em aceitar, e todos os outros rituais esperados de um Pontífice.
A partir daí a Igreja tem que lidar com um comportamento não previsto em seu protocolo rígido: um escolhido que não quer assumir. Melville entra então numa crise existencial que todos os cardeais e envolvidos tentarão contornar. Para isso convidam Brezzi (Nanni Moretti) um psicanalista famoso, para ir ao Vaticano tentar solucionar os problemas do Papa, a cena é divertidíssima, Brezzi tenta realizar uma consulta com Meliville, mas todos cardeais estão em volta, apesar de psicanalista não pode falar em sexo, da mãe, da infância, o que limita a praticamente nada sua ajuda... Mas Brezzi tem que ficar confinado, juntos com todos os cardeais, já que o segredo do novo Papa tem que ser mantido.
A segunda metade do filme é menos interessante, mais arrastada, Melville vai à cidade consultar a ex-esposa de Brezzi, também psicanalista, e depois da consulta dá um jeito de fugir dos seguranças, está sozinho na cidade, frequenta lugares que nunca mais conseguirá frequentar enquanto Papa, como um bar, um hotel modesto, um teatro... Passar incólume entre as pessoas, caminhar sozinho, só com seus pensamentos, ahh a liberdade!!! Melville fala, em alguns momentos, sobre a vontade de ser ator, que carrega desde menino, uma profissão tão próxima à que está prestes a assumir, que envolve atuação, discursos, falar em público, aparecer na mídia; e é o que faz ao final do filme, num discurso comovente no qual diz, com sinceridade, sobre suas limitações, e renuncia em sua primeira aparição como Papa.
Mas as humanidades de "Habemus" não param por aqui, no próprio convívio do Vaticano os cardeais se despem de toda solenidade, fumam, fazem exercício, jogam cartas, são viciados em remédios para dormir, participam de um torneio de vôlei. Sei que essa deveria ser uma visão pessimista, uma crítica ácida do diretor italiano, mas para mim, se toda essa humanidade fosse revelada, a Igreja teria mais dias de glória.
Habemus Papam (Itália, França, 2011) ***

segunda-feira, 11 de março de 2013

70° - "Barbara"


Eu estava super entusiasmada para assistir "Barbara" porque li, há algum tempo atrás, antes de estrear, que era muito parecido com "A vida dos outros" e sim, o tema é bem próximo, existe algumas angústias parecidas, mas "Barbara" não chega perto da grandeza de "A vida".
Barbara é uma médica que em 1980 vive no lado oriental da Alemanha, mas seu namorado vive na parte ocidental. O governo suspeita então que Barbara tente fugir para o lado ocidental e então a pune, transferindo-a para uma cidade do interior, onde trabalhará no hospital local e viverá num apartamento totalmente supervisionado. É claro que Barbara está revoltada com a situação e com a maneira na qual é tratada, como uma prisioneira, como uma bandida e não tem nenhuma boa vontade com o novo trabalho, com o novo local, com as novas pessoas, já que suspeita de todos.
Seu chefe, André (Ronald Zehrfeld) é um cara cheio de gentilezas, oferece carona, a ajuda com um piano desafinado (e provavelmente sua única fonte de lazer), tenta se aproximar. Mas Barbara está desconfiada, não sabe se André é apenas um cara gentil, ou uma pessoa a serviço do governo que está se aproximando para colher informações. Não só Barbara tem esse sentimento, nós também, espectadores, ficamos sem saber de suas reais intenções (é claro que eu, "Pollyanna" como sou, já estava super acreditando na boa vontade e gentileza de André).
Aliás, Barbara é um filme cheio de sugestões, as coisas dadas são muito mais sugeridas do que ditas e nós temos que formar nossas opiniões com o pouco que temos, assim como os personagens, o que imprime um pouco de suspense ao filme, como nas cenas nas quais ela anda de bicicleta pela floresta, pela estrada de terra.
O namorado de Barbara, Jorg, vem visitá-la com certa regularidade e planeja sua fuga para o outro lado. Ao mesmo tempo em que ele é um homem bonito, gentil e apaixonado, deixa claro para ela que lá, do outro lado, não precisará trabalhar, porque ele tem dinheiro suficiente para os dois (ãh?!).
Nesse ínterim Barbara começa a se encantar por André (quem não?) e eu creio que enxergar a diferença entre seu namorado, aparentemente um empresário bem sucedido, contra um médico bem intencionado, que não é rico, mas que acredita em seu povo. Ao contrário de Barbara, André não fala mal do regime em nenhum momento, Barbara é parcial, detesta o lugar onde mora, local onde todos são suspeitos e à mercê de vários tipos de violência (o filme tem duas cenas nas quais um responsável pela supervisão vai à casa de Barbara, revira todas as suas coisas à procura de provas e uma mulher vai fazer um exame em seu corpo, terrível).
Neste sentido acho Barbara mais parcial que "A vida dos outros", que mostra a Alemanha Oriental de um jeito mais sutil, mas não menos visceral.
Em "Barbara" nós vemos a brutalidade com a qual certas pessoas são cuidadas, como é o caso da menina que Barbara cuida no hospital, grávida (provavelmente vítima de abuso) e que trabalha no campo em situações lastimáveis.
No final, que é também sugerido (eu gostei) o que vence é o amor, tanto o conjugal, quanto o do afeto pela menina que Barbara 'salva' em seu lugar, e é muito bonito, mas também bem mais previsível.
Barbara (Alemanha, 2012) ***

domingo, 10 de março de 2013

69° - "Invasões bárbaras"

Em "Declínio" os intelectuais preocupados com outras questões, dão pouco - ou nenhum - valor à família convencional, e principalmente aos filhos. Rémy quase não fala dos filhos e Pierre deixa claro sua atitude egoísta e sua opção por não ser pai. Daí que "Invasões bárbaras" começa com Rémy muito doente, hospitalizado, e sua ex-esposa (Louise) tendo que ligar para o filho Sébastien, que mora em Londres, para que venha cuidar do pai. Parece um "tapa de luvas" e realmente é, Rémy tem que lidar com um filho que não respeita e admira, que nunca leu um livro na vida e é um capitalista selvagem; o filho, por outro lado, nega tudo que venha do pai, como seu espírito socialista, seu estilo de vida. O que resultará disso é meio óbvio e bem parecido com "Peixe grande e suas histórias maravilhosas", ambos centrados na relação desastrada de pai e filho, o pai está doente, em estado terminal, e o filho volta para resgatar, para dar a última chance. Claro que grande parte deste resgate se deve às mães, de ambos os filmes, e em "Invasões" Louise dá um show quando o filho, nem um pouco disposto a cuidar do pai (quem pode culpá-lo?!) lhe descreve toda a atenção que o pai lhe deu, as fraldas que trocou, quando o embalou na infância, cuidou dele nas doenças, enfim, acho que só comprova a teimosia masculina, que muitas vezes nem a paternidade pode dar conta.
Mas durante o filme ocorrem algumas transformações, e o filho de Rémy, apesar de nem um pouco voltado para a vida acadêmica, se mostra um filho dedicado e faz de tudo para que seu pai tenha conforto e alegrias, é bonito de ver; claro que com a quantidade de dinheiro que tem fica mais fácil ser generoso, mas não diminui seu gesto. A cena final dos dois é lindíssima, quando Rémy diz ao filho: "sabe o que lhe desejo? Um filho como o meu!".
Contudo "Invasões" é muito além disso, é um filme belíssimo, muito sensível e, outrossim, extremamente pessimista, em todos os sentidos. Se em "Declínio" vemos um grupo de amigos "intelectualmente tediosos", com seus valores e certezas, em "Invasões" percebemos o quanto a velhice pode ser cretina e jogar na cara um monte de certezas; o melhor exemplo é Pierre, que era um solteiro inveterado, que amava amar as mulheres, não queria ter filhos, centrado na sua inteligência, e agora é casado com uma jovem, burra e fútil, tem duas filhas pequenas e se submete aos desejos da mulher, é outro homem, mais desencantado. O mesmo com Diane, que continua fervorosa sexualmente, mas se afastou das filhas, e até com Dominique, que desistiu dos homens. O único que parece melhor é o querido do Claude, que já em "Declínio" era o mais boa praça e agora mora em Roma, é bem sucedido profissionalmente e no amor.
Mas as desesperanças não estão apenas ali, nos que ditavam certezas e arrogâncias no primeiro filme, os jovens também não oferecem nenhuma esperança no futuro (como diz Rémy "não entendemos o passado, como podemos prever o futuro?”). Finalmente a própria morte, na qual gira todo o filme, é uma desilusão, Rémy lida com sinceridade sobre a perspectiva de sua morte, e nas conversas com Nathalie (filha de Diane que lhe injeta heroína) estão as melhores reflexões:
"- É paradoxal, quando envelhecemos é que nos apegamos à vida... Me restam 20 anos, 15 anos, 10... Quando sabemos que é a última vez que fazemos alguma coisa, é a última vez que compro um carro, a última vez que vejo Gênova, Barcelona [...] Não quero deixar a vida. Não pode imaginar como a amei.
- E o que tanto amou?
- Tudo. O vinho, os livros, a música, as mulheres, principalmente as mulheres.
- Mas não é a sua vida atual que não quer deixar. É a sua vida passada. E essa já está morta."
Se em "Declínio" a origem do nome está atrelada à questão da felicidade, em "Invasões" quem explica é Alain (em sua única aparição no filme), quando está na TV dando uma entrevista sobre 11 de setembro: "Historicamente o número de mortos no ataque é insignificante, para citar um exemplo americano morreram 50 mil pessoas na batalha de Gettysburg. Mas o que é significativo, como diriam meus antigos professores, é que, dessa vez, o coração do império foi atingido. Nos conflitos anteriores, Coréia, Vietnã, a Guerra do Golfo, o império havia conseguido manter os bárbaros além de seus limites, de suas fronteiras. Nesse sentido talvez nos lembremos, e insisto no talvez, de setembro de 2001 como o começo das grandes invasões bárbaras."
E é irônico que o império cujo declínio é anunciado em 1986 (17 anos antes de "Invasões") é aquele que tem a melhor infraestrutura de saúde para cuidar de Rémy - apesar de cara, o que não é problema para o filho - e ambos têm que cruzar a fronteira para o tratamento (bem diferente de Sicko, do Michael Moore, onde as pessoas fazem o caminho inverso, atravessam dos EUA para o Canadá).
E apesar de ser um filme belo é também um filme triste, um filme de saudade. As cenas finais, gravadas na mesma casa de campo onde foi gravado "Declínio" mostra como foi valioso reunir os mesmos atores para fazer esse filme, tanto tempo depois. Apesar de todo pessimismo, se existe alguma esperança ela está na família, ou mais que isso, na amizade.
Invasões bárbaras (Les invasions barbares, Canadá, 2003) ****