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segunda-feira, 24 de junho de 2013

80° - "Millennium: Os homens que não amavam as mulheres"

O fim de semana passou e eu tive a agradável surpresa de que os canais HBO e MAX estavam liberados e combinavam perfeitamente com um domingo nublado. Então, ao final da noite eu resolvi rever "Millennium: Os homens que não amavam as mulheres" que eu tinha visto no cinema. Eu adoro a trilogia, li os livros e vi a trilogia sueca (país de origem do escritor Stieg Larsson e onde se desenrola a trama). Na maioria das situações eu levantaria a bandeira sueca, pois o filme além de ser americano, foi refilmado pouco tempo depois (cerca de 3 anos). Pra quê? Deveria ser feito? 
Entretanto eu tenho um carinho especial por essa versão americana, pois foi por ela que eu conheci a trilogia e me apaixonei. Lembro que saí do cinema encantada com a história, e lembro também que, ao longo das 2 horas e 40 min de filme, algumas pessoas foram deixando a sala, em especial na cena de estupro da Lisbeth; isto acontece porque apesar de "Millennium" ser americano, ele não nos poupa nas cenas de sexo e violência, sendo fiel ao livro. Na cena inicial já dá pra perceber que algo é diferente, numa mistura psicodélica dos personagens ao som de "Immigrant Song" do Led Zeppelin.
Mas vamos aos motivos pelos quais eu gosto tanto desta trama: Larsson é sueco e escreve a partir das suas perspectivas culturais, no filme é sutil, mas no livro é evidente: o autor montou uma trama na qual homens e mulheres têm o mesmo papel, são inteligentes, forte e têm poder. Aliás, acho que as mulheres são mais fortes do que os homens, apesar de Mikael Blomkvist (Daniel Craig) ser inteligente e sedutor (praticamente todas as mulheres da trama têm uma queda por ele), quase todos os outros homens ou são fracos ou são ruins. Às mulheres cabem os papéis protagonistas, de editora-chefe, de policial e investigadora (que resolvem as crises, mas nos outros livros) e, claro, de Lisbeth Salander. Ela é a protagonista, as histórias giram em torno dela (especialmente nos outros dois livros: "A menina que brincava com fogo" e "A rainha do castelo de ar"). Aliás, eu li uma reportagem com a mulher (companheira) de Larsson (ele morreu de ataque cardíaco em 201... com 50 anos) se colocando contra esse nome terrível que arrumaram para a obra, originalmente "A garota com a tatuagem de dragão" para "Os homens que não amavam as mulheres", percebam que neste nome aportuguesado a ênfase está nos homens e na atitude misógina. Mas isto é reduzir demais uma história que é sobre suspenses, sobre serial killers, mas está longe de ser só isto.
Lisbeth é uma heroína atípica, é franzina, esquisita, coberta por tatuagens e piercings, sem nenhum traquejo social e cheia de traumas psicológicos motivados por seu pai. Mas ela é extremamente inteligente e forte (fisicamente), é ela quem salva o mocinho no final do filme, não o contrário.

A sinopse é sobre uma mulher (Harriet Vanger) que sumiu há 36 anos, sobrinha do rico Henrik Vanger (Christopher Plummer), mas seu sumiço não pode ser esquecido pelo tio, já que em todo aniversário de Harriet, a cada ano, o tio recebe um quadro com um desenho como era hábito de sua sobrinha. Intrigado, mesmo após tantos anos, Henrik contrata o jornalista Mikael Blomkvist que com a ajuda de Lisbeth Salander solucionarão o caso. Mas gente, não vejam o filme baseado nesta sinopse que é quase um déjà-vú, o filme é muito mais que isso e essa diferença cultural nos permite uma experiência fílmica diferente, envolve questões de gênero, discussões sobre a mídia, sobre corrupção. Só não gosto do final – que aliás é fiel ao livro – pois acho que é desnecessário e contrário à personagem (Lisbeth) tão bem construída no filme, de qualquer maneira não tira o mérito da história.
Millennium: Os homens que não amavam as mulheres (The girl with the dragon tatoo, EUA, 2012) ****

terça-feira, 12 de março de 2013

71º - "Habemus Papam"


Se você tiver tempo e ligar a TV hoje, por um minuto sequer, ou espiar sites de notícias, ou passar por bancas de jornal vai saber: o assunto mais comentado do dia é o conclave que elegerá o novo Papa, após a renúncia de Bento XVI. E, desde sua renúncia no início de fevereiro, "Habemus Papam" se tornou um filme comentado, não é à toa visto as grandes semelhanças entre a ficção e nossa atual realidade. Eu vi "Habemus" já há algum tempo e já tinha gostado muito dele. Tenho que confessar aqui que não simpatizo com a Igreja - apesar de respeitar quem a segue - sua ostentação, sua história, o que defende... Nem acho que Bento XVI tenha ajudado, tornou a Igreja ainda mais conservadora, reafirmou valores pregados que são absurdos hoje em dia, como o não uso da camisinha, a contrariedade da homosexualidade, enfim, quando conversava com o Digo e dizia: "mas que absurdo essa conclave, não tem nenhuma madre? Só homens!" e ele me respondeu: "você vai perder tempo refletindo sobre os valores católicos?", realmente, não faz sentido... Apesar de ter a minha fé em Deus e até em alguns santos, vejam só, eu parei de frequentar missas - eu tenho uma alma católica que a minha família tratou de moldar e que está em mim, como um "Anjo do Lar" de Virgínia Woolf - quando era criança, quase adolescente, e o padre nervoso, jogou um vaso de plantas ao chão, e disse que quem não dava dízimo não ia pro céu. Pronto, foi definitivo pra mim, o meu Deus não é punitivo, é um Deus tolerante, um Deus de amor. 
Só estou dando esta volta toda porque, diante de toda essa minha falta de entusiasmo pela Igreja eu posso dizer que - apesar de saber que não foi sua intenção - o roteirista/ator/diretor Nanni Moretti conseguiu produzir um filme que me deu até certa simpatia com relação à religião; isso porque ele focou em algo difícil de não gostar: que apesar de toda ostentação, riqueza, protocolo, valores e regras, as pessoas que ali estão são extremamente humanas, com suas delicadezas, seus erros e acertos, suas certezas e dúvidas. E isto não está apenas na figura central do filme, o cardeal votado Melville, mas em todos ao redor. A cena inicial é apaixonante: estão todos seguindo o rigor protocolar do conclave, os mais de 100 cardeais indo à sala de votação, devidamente trajados, cantando, envoltos pela mídia, até aí tudo esperado; então eles se sentam para votar, estão todos lá, os mais cotados, os com mais visibilidade, todos em momento de silêncio votando até que, por algum instante, nós espectadores viramos Deus e ouvimos todas as preces daquela sala, todos os cardeais orando e pedindo ao senhor: "Eu não, meu Deus, eu não", "Eu, não, meu Senhor. Não me escolha", "Eu não, eu não Senhor, eu Lhe rogo"... E alguém vai dizer o contrário? Tudo bem que ser Papa é ter um dos cargos mais poderosos do mundo, mas com extrema responsabilidade, deveres, que vão além de questões políticas, envolvem a expectativa e fé de milhares, o Papa é como um santo, glorificado, seguido pelos fiéis com devoção. Sei lá, é difícil encarar. 
O conclave não nomeia seu Papa na primeira eleição, mas logo chega ao escolhido, o fofo Melville (Michel Piccoli). A cena na qual ele é o escolhido é linda, todos emocionados, ele também, feliz... Mas daí vem a pergunta fatídica: "Aceita sua indicação canônica para Sumo Pontífice?", a partir daí a ficha cai para Melville, que tem uma crise de pânico na hora de se apresentar oficialmente aos fiéis da praça. Melville é um senhor simples, não lida bem com o poder que lhe deram, assim que se veste de Papa e todos se curvam, ele tem dificuldades em aceitar, e todos os outros rituais esperados de um Pontífice.
A partir daí a Igreja tem que lidar com um comportamento não previsto em seu protocolo rígido: um escolhido que não quer assumir. Melville entra então numa crise existencial que todos os cardeais e envolvidos tentarão contornar. Para isso convidam Brezzi (Nanni Moretti) um psicanalista famoso, para ir ao Vaticano tentar solucionar os problemas do Papa, a cena é divertidíssima, Brezzi tenta realizar uma consulta com Meliville, mas todos cardeais estão em volta, apesar de psicanalista não pode falar em sexo, da mãe, da infância, o que limita a praticamente nada sua ajuda... Mas Brezzi tem que ficar confinado, juntos com todos os cardeais, já que o segredo do novo Papa tem que ser mantido.
A segunda metade do filme é menos interessante, mais arrastada, Melville vai à cidade consultar a ex-esposa de Brezzi, também psicanalista, e depois da consulta dá um jeito de fugir dos seguranças, está sozinho na cidade, frequenta lugares que nunca mais conseguirá frequentar enquanto Papa, como um bar, um hotel modesto, um teatro... Passar incólume entre as pessoas, caminhar sozinho, só com seus pensamentos, ahh a liberdade!!! Melville fala, em alguns momentos, sobre a vontade de ser ator, que carrega desde menino, uma profissão tão próxima à que está prestes a assumir, que envolve atuação, discursos, falar em público, aparecer na mídia; e é o que faz ao final do filme, num discurso comovente no qual diz, com sinceridade, sobre suas limitações, e renuncia em sua primeira aparição como Papa.
Mas as humanidades de "Habemus" não param por aqui, no próprio convívio do Vaticano os cardeais se despem de toda solenidade, fumam, fazem exercício, jogam cartas, são viciados em remédios para dormir, participam de um torneio de vôlei. Sei que essa deveria ser uma visão pessimista, uma crítica ácida do diretor italiano, mas para mim, se toda essa humanidade fosse revelada, a Igreja teria mais dias de glória.
Habemus Papam (Itália, França, 2011) ***

quinta-feira, 7 de março de 2013

66º - "Uma história real"


Quando li as poucas críticas sobre "Uma história real" estavam todas, sem exceção, centradas na direção de David Lynch, um diretor surrealista que, neste filme, opta por uma narrativa linear, um filme calmo e sem grandes surpresas, com exceção da própria história em si: Alvin Straight (Richard Farnsworth, que concorreu ao Oscar pela atuação no filme) é um senhor com 73 anos e saúde debilitada, tem problemas no quadril (e por isso anda com duas bengalas), na vista e nos pulmões, mora com a filha (Rose, interpretada por Sissy Spacek) numa cidadezinha  em Iowa. Acontece que ele fica sabendo que seu irmão Lyle (Harry Dean Stanton) sofreu um derrame e Alvin, que não fala com o irmão há mais de 10 anos decide que precisa vê-lo. Só que essa jornada ele tem que viver só, como deixa bem claro com sua filha, só que Alvin não tem carteira de motorista, não quer ir de ônibus nem carona e então, surpreendentemente, resolve viajar os 500 km com seu carrinho de cortar grama.
É claro que as pessoas ao seu redor tentam dissuadi-lo dessa decisão, que parece - e é - absurda, mas Alvin não desiste, já que é muito teimoso, como deixa claro em alguns momentos do filme. Ele passa por algumas provações, já no início da viagem seu carrinho pifa, ele tem de voltar à sua cidade, mas compra outro e segue viagem. 
Nesta viagem que dura 6 semanas, Alvin encontra várias figuras durante seu trajeto e é nesses momentos que o filme se concentra. Se em outros road-movies as pessoas que optam em viajar sós estão em processo de aprendizado e de rever seus valores e ressignificá-los, com Alvin se dá o contrário: não é a estrada que ensina Alvin, é Alvin quem ensina à estrada. Ele tem consciência de sua maturidade, carrega o fardo dos erros cometidos (como a própria briga com o irmão, sua consciência pesada por ter matado um amigo na guerra, seu alcoolismo) e está na estrada para ensinar, para ajudar o outro a compreender a partir de suas próprias vivências. Esse processo, que é apresentado de maneira muito delicada, é belíssimo em seus detalhes, seja quando encontra uma moça que está grávida e pedindo carona para fugir, e ele lhe ensina o valor da família; seja quando vê os gêmeos brigando e desabafa sobre a importância de ter, ao seu lado, a pessoa que melhor lhe (re)conhece. Então o filme conta a história de Alvin a partir da história das outras pessoas que ele encontra no caminho.
O tempo do filme também é fabuloso, diferente de outros road-movies, como "Easy rider" por exemplo, que a estrada é um momento de libertação, de velocidade, aqui em "Uma história" a estrada tem a velocidade de Alvin, seja refletida em seu próprio estado de saúde, seja na velocidade que o carrinho pode alcançar, tudo está em equilíbrio. Se o filme tem a velocidade de Alvin, isso proporciona ao expectador cenas lindas centradas numa ótima fotografia dos visuais do campo dos EUA.
"Uma história real", como a própria obviedade do nome revela, é baseado na história real de Alvin Straight, que atravessou de trator, de Iowa à Minnesota para ver seu irmão enfermo. O nome do filme em inglês "The Straight Story" é bem mais interessante e sugere algumas interpretações, todas coerentes com o filme: é o nome do protagonista; significa reto, direto, franco e também, de algum modo, convencional, careta.
O final do filme é sinérgico com todo o resto, Alvin finalmente encontra seu irmão (existe uma tensão durante o filme, se ele vai conseguir terminar sua trajetória, se o irmão estará vivo) e a cena do encontro dos dois é lindíssima.
Uma história real (The Straight Story, EUA, 1999) ****

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

49º - "O homem do futuro"


Eu acho "O homem do futuro" um filme injustiçado, pouco falado e comentado; parece que foi lançado na mesma época que "O palhaço", que foi amplamente divulgado, comentado e - estou tentando entender até hoje - indicado como filme estrangeiro a concorrer ao Oscar (não ganhou, claro). E justamente o que eu gosto de "O homem" é que ele não é pretensioso, é um filme bacana pra divertir... e aí que mal tem? Um filme não precisa, necessariamente, ser cabeça, cult ou te botar pra pensar, ele pode servir apenas como entretenimento, tudo bem, não precisa se apavorar nem fingir que isso não é bacana, aliás não tem coisa mais chata que gente do tipo "me beija que eu sou cineasta", as pessoas mais interessantes que eu já vi ou ouvi falando sobre cinema não perdiam tempo apenas tentando mostrar o lado B, mas enxergam beleza nos diferentes gêneros, assim como suas limitações. "O homem" é uma comédia romântica, e quando você começa a assistir tem uma nítida impressão de algo repetido, e tudo bem que usa uma fórmula bem americanizada, com elementos típicos da cultura norte-americana, como rainha do baile e o próprio baile, mas o filme não é só isso, ele parte disso. 
Algumas pessoas podem lembrar de "De volta para o futuro", mas eu lembrei de outros, como o primeiro "Efeito borboleta" e o ótimo "Corra Lola corra", porque o filme vai além do fato de poder voltar ao passado, mas aborda o fato de que algumas decisões na nossa vida refletem diretamente no nosso - e também de outros - futuro. Se você pudesse voltar ao passado o que mudaria na sua vida? Valeria a pena?
"O homem" conta a história de João (Zero) e Helena, e um acontecimento fatal num festa que aconteceu 20 anos atrás, enquanto ambos estavam na faculdade. João, que é físico e pretende desenvolver uma nova forma de energia na verdade acaba criando uma máquina do tempo, que volta exatamente no dia da festa. Ele, que foi humilhado e seguiu com sua amargura durante a vida vai fazer de tudo para poder reverter o passado, mudando suas atitudes e escolhas. Só que, claro, não dá certo, João tem que voltar novamente e descobre que na vida todos têm sua dose de sofrimento, que infeliz é aquele que acha que seu sofrimento é o maior do mundo. Nessa João dá a lição de moral do filme, chegando à conclusão que se a máquina existisse estaria concentrada nas mãos de ricos e poderosos que a usariam indevidamente; que se a vida fosse uma busca pelo passado para mudar o presente não haveria, então, o futuro.
Por mais que pareça, eu devo admitir, o filme não é todo clichê. Eu tenho que destacar algo vital nele, que é o Vagner Moura, ele é demais, sou fã mesmo, super ator, desses que a gente muitas vezes não reconhece de um papel para outro de tão diferente nos personagens e também está incrível em "O homem" além de estar divertidíssimo. Assim como Meryl, que eu também sou fã, Vagner Moura mostra, neste filme, que um bom ator não precisa se dedicar apenas a papéis conceituais, que muitas vezes o desafio pode estar em fazer uma comédia romântica, em fazer um papel cuja performance é muito conhecida e até esperada pelo público. 
Além disso, como é de se esperar no gênero, "O homem do futuro" tem um final ótimo e até mesmo surpreendente. Cuidadoso, o filme merece ser visto num dia relax, que você só queria se divertir sem culpa.
O homem do futuro (Brasil, 2011) ****

sábado, 16 de fevereiro de 2013

47º - "Hannah e suas irmãs"


João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém... "Hannah e suas irmãs" é assim, uma quadrilha como a de Drummond. Woody Allen quer mesmo mostrar como o nosso "coração é um músculo muito elástico", como Mickey, seu personagem, fala no final do filme. Centrado nas complexidades do ser humano e nas suas relações, é provável que "Hannah" concentre uma grande síntese do trabalho de Allen.

Passado, claro, em Manhattan e com vários takes em pontos centrais como o Central Park, o filme conta a história de Hannah (Mia Farrow) e sua família, em especial suas irmãs, Lee (Barbara Hershey) e Holly (Dianne Wiest). O marido de Hannah (Elliot) está apaixonado por Lee e o ex-marido de Hannah (Mickey) se casa com Holly. Nessa miscelânea de sentimentos e relacionamentos o que está em jogo é a beleza da imperfeição humana, tanto é que a personagem mais criticada é a própria Hannah, porque se anula para fazer feliz os que estão à sua volta, criando uma imagem de pessoa perfeita, e aparentemente é: Hannah é boa filha, boa irmã, boa mãe, boa ex-mulher, boa atriz, bem sucedida, mas por isso mesmo, desinteressante; as irmãs, ao contrário: Lee é a irmã mais nova, ex-alcoólatra, perdida em sua vida profissional e que tem um namorado que a controla; Holly também é perdida na vida, tentou ser atriz, dona de buffet, usava cocaína. Na revoltante perfeição de Hannah, está a grande sacada do filme, precisamos conviver com pessoas imperfeitas como nós, precisamos de certo conforto de sermos necessários, o marido de Hannah diz a ela "é difícil estar com alguém que dá tanto e não quer nada".

Apresentado em várias narrações - em diferentes momentos é um personagem que narra um pedaço de sua história e seus sentimentos - o filme apresenta as situações que as irmãs estão vivendo, lidando com suas frustrações e seus desejos. Mickey (Woody) que casa mais ao final do filme com Holly é um personagem cuja história é contata em paralelo com as outras, é um personagem cômico, muito divertido, no melhor jeito Woody Allen de ser (que eu amo, mas convenhamos, não é bom ator, está sempre fazendo ele mesmo), trabalha na TV com algo que não gosta e é hipocondríaco e histérico. Quando descobre a possibilidade de estar realmente doente começa a questionar a existência de Deus, o que rende cenas divertidíssimas, como ele falando aos pais que irá se converter ao catolicismo (já que ele acha uma religião forte e estruturada e tem afinidade, mas com "a ala anticatecismo, pró-aborto e antinuclear"), a mãe judia sai correndo se tranca no quarto chorando... Depois ainda procura os hare krishna, mas ao final, depois de quase se matar porque não conseguia entender o real motivo da vida, se há continuação ou se Deus existe, ele encontra sua resposta no cinema (ah!) quando se pergunta: e se Deus realmente não existir? E se nós só vivemos uma vez? E se convence de que o importante mesmo é ter a experiência de viver.
É divertido perceber, um filme de 1986, as diferenças nos figurinos (que já não são o forte dos filmes de Woody) e nos penteados. Creio que foi o segundo filme (atrás de “Noivo neurótico, noiva nervosa”) com mais indicações e prêmios Oscar de Allen, que nunca compareceu à cerimônia quando foi indicado, indo apenas em 2002, para fazer uma homenagem à NY após o atentado de 11 de setembro.
Como só mesmo Woody sabe fazer, “Hannah” mostra a delicadeza que são as relações humanas e como a vida é surpreendente e encantadora.
Hannah e suas irmãs (Hannah and her sisters, EUA, 1986) *****
“Seu olhar mais fugaz
Facilmente me revela
Embora eu já tenha
Me fechado, com o dedos
Você sempre me abre
Pétala por pétala
Como a primavera abre
Tocando habilmente
Misteriosamente
Sua primeira rosa
Não sei o que você tem
Que me abre e me fecha
Somente algo
Em mim entende
Que a voz de seus olhos
É mais profunda
Do que todas as rosas
Ninguém
Nem mesmo a chuva
Tem mãos tão pequenas”
(Somewhere I have never travelled, gladly beyond, E.E. Cummings)


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

37° - "As horas"


Acho difícil construir um texto sobre "As horas", um filme que eu nem consegui compreendê-lo em sua plenitude, e nas cenas são tantos detalhes, tantas sutilezas, eu pensei e senti tantas coisas, que é bem possível que não consiga traduzir em palavras, mas tentarei. 
Posso começar dizendo que "As horas" é um filme maravilhoso sobre mulheres e também sobre tristeza (me lembrou - levemente - "Melancolia"). Ele tem uma abordagem diferente e três histórias são apresentadas de três momentos históricos diferentes. O primeiro deles é Virgínia Wolf (Nicole Kidman) escrevendo seu livro, em 1923, "Mrs. Daloway” no processo de uma doença depressiva muito sofrida para ela e seu marido; outro momento, em 1951, é sobre a história de Laura Brown (Juliane Moore) que é uma dona de casa com uma vida que tem tudo para ser feliz (a felicidade é praticamente uma obrigação ali), um marido amoroso e trabalhador, uma casa, um filho bonito, esperto e saudável e ainda está grávida - numa época na qual a realização da mulher estava na maternidade – está lendo o livro citado de Woolf e deseja se matar; e por fim, em 2001, Clarissa Vaughan (Meryl [diva] Streep) é um editora novaiorquina, que tem um relacionamento com Sally, tem uma filha e um amigo poeta (que também foi amante há tempos) que ela cuida, pois está muito doente (AIDS).
Essas três histórias aparentemente tão distantes são bem próximas e o que as une é, além do livro, o fato de que o filme narra um dia na vida de cada uma delas, mas o dia no qual elas tomam consciência da sua própria vida.
E o que é a vida? O que é felicidade? Clarissa a define como o dia no qual, ao acordar, sentiu que havia possibilidades... Mas chega o momento que a vida se torna compreensível e até trivial. O filme não narra apenas grandes acontecimentos na vida dessas mulheres, mas que assim como a felicidade, também a tristeza, a infelicidade e a melancolia estão próximas, e às vezes aparecem sem sentido, nas pequenas coisas, em se sentir desajustado (gosto da cena na qual Virgínia está na rua, sentada, pensando nas possibilidades de sua heroína e define que ela se matará por algum motivo pequeno, que não a afetava antes)...
E o filme é uma grande homenagem à Virgínia Woolf, mostra como seu livro “Mrs. Dalloway” é atemporal, e isso é apresentado de maneira muito inteligente na narrativa, enquanto Virgínia escreve o livro, muitos de seus detalhes, idealizados lá em 1927, são executados no futuro; também existe uma identificação grande entre o livro e as três protagonistas: a primeira o escreve, a segunda o lê e a terceira é a própria personificação de Mrs. Dalloway, inclusive esse é seu apelido dado por seu amigo Richard (Ed Harris). É Richard também o elo entre Laura e Clarissa e mostra como uma doença triste como a depressão pode influenciar tantas pessoas em volta.
O título do filme não poderia ser melhor, além de ser uma referência ao nome provisório de Mrs. Dalaway, tem uma ligação com as horas do dia que é descrito no filme e acima de tudo, é uma referência à própria depressão. Quando Richard diz à Clarissa algo do tipo, nós vamos à festa, nos divertiremos e depois? E as horas depois da festa? E as hora de amanhã? É difícil pensar no depois se não há esperança.
E o filme ainda tem as atuações primorosas das três protagonistas, Nicole (que ganhou o Oscar por sua atuação), Juliane e Meryl. Gosto muito da cena que começa e também termina o filme, baseada no suicídio de Virgínia, é uma cena belíssima, com ela lendo, ao fundo, a carta de despedida que escreveu ao marido.
Mas “As horas” não é um dramalhão, filme de chorar, ao contrário, é um filme de reflexão, que te faz pensar nas nuances do ser humano e nosso objetivo no mundo.
As horas (The hours, EUA, 2001) *****

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

9º - "O Homem Elefante"

Eu não sou uma chorona clássica vendo filmes. Choro às vezes, me emociono muito, mas tudo muito tranquilo. Mas quando eu terminei de ver "O Homem Elefante" foi um alívio perceber que estava em casa, e sozinha. Eu chorei do início ao fim, simplesmente não parava. O filme é lindo. O filme é triste. O filme é imperdível.
"O Homem Elefante" narra a história - real! - de John Merrick (John Hurt), portador de uma anomalia que deformou 90% do seu corpo. Isso em 1880, ou seja, John vira atração principal num circo, tratado como bicho (não que bichos mereçam ser maltratados, pelo contrário!). Nesta época ele se alimentava só com batatas e apanhava muito, é de cortar o coração.
“A vida é cheia de surpresas. Pense no destino da mãe dessa pobre criatura. Atacada no quarto mês de gravidez… por um elefante selvagem. Atacada numa ilha perdida… na África. O resultado está aqui. Senhoras e senhores… o terrível… Homem Elefante”!

Então quando o doutor Frederick Treeves (Anthony Hopkins) assiste ao 'espetáculo' resolve ajudar John, o leva para o hospital, o trata como humano, não como freak show. No hospital Frederick descobre que John, apesar da aparência grotesca, é um ser humano sensível, inteligente e gentil (e gente, percebam como é bonito isso, um homem tão execrado na vida ainda ser gentil e amoroso com os outros, é de cortar o coração [2]).
Primeiro filme de sucesso do diretor David Linch, o filme que é rodado em preto e branco foi indicado ao Oscar em 8 categorias. Conta a história de Joseph Merrick e seus infortúnios por conta de seu problema de saúde e de sua aparência. Depois que Joseph foi admitido como residente no Royal London Hospital recebeu inúmeras visitas, como Madge Kendal, a rainha Vitória e a princesa Alexandra.


"O Homem Elefante", não é só um filme sobre uma história incrivelmente triste, mas também emocionante, sensível e linda e é por isso que é um dos meus filmes preferidos - na lista dos 10 melhores.
O Homem Elefante (The Elefant Man, EUA, 1980) *****

domingo, 6 de janeiro de 2013

6° - "HeadHunters"

Filmes de ação/policiais/suspense dificilmente constam na minha lista de prediletos. São filmes que acabo vendo muito (pois são os favoritos da minha família), mas não curto. Gosto de séries de ação/suspense, como Criminal Minds e Dexter, mas não filmes, porque geralmente eles seguem um caminho óbvio e cheio de clichês.
Assisti a alguns muito bons e pretendo ter a oportunidade de comentá-los aqui. O primeiro deles é "HedHunters", um filme norueguês que vi ano passado. Não me lembro ao certo, mas parece que o moço da locadora nos indicou, enfim, o filme é muito bom, é bem animado do início ao fim, e narra a história de um cara que aparentemente sustenta a vida luxuosa como headhunter, mas é inseguro e precisa viver de roubos a obras de arte porque caso contrário sua esposa o deixará (na cabeça dele, mas é engraçado - ou no mínimo raro neste gênero - ver homens inseguros no amor). Ele conhece uma figura e resolve roubá-lo, mas daí uma série de imbróglios vão acontecendo. Tem uma cena bizarra - parecida com "Quem quer ser um milionário" - na qual Roger (o protagonista) se enfia num mar de cocô para despistar um perseguidor!

O protagonista sofre tanto que a gente fica apreensivo mesmo, já que diferente dos filmes americanos, os filmes europeus não são tão comprometidos com finais felizes. Mas vale a torcida!
Li que o filme terá uma versão hollywoddiana em breve, assim como teve o tão bom quanto "Os homens que não amavam as mulheres" (que devo falar em breve).
 Para aqueles dias que você está a fim de um pouco de agito, sem choro e sem ter que pensar na vida e em sua existência, HedHunters (Hodejegerne, Noruega, 2011), ***