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sábado, 22 de junho de 2013

79º - "Tempos Modernos"

Charles Chaplin, um dos maiores cineastas da história do cinema, provavelmente estaria feliz se estivesse no Brasil por estes dias. Produtor, diretor e roteirista do filme “Tempos Modernos”, Chaplin encontraria aqui elementos capazes de lhe gerar um novo filme. As inúmeras manifestações que borbulharam – e ainda borbulham – em várias cidades em nosso país são dignas de críticas – positivas e negativas. As pessoas vão às ruas por motivos difusos e confusos, não elegeram um líder ou um protagonista para glorificar ou crucificar. Mas as diferentes pautas giram em torno de uma grande insatisfação com nossa condição política – e, principalmente, urbana – que gerou grande mobilização da sociedade (incentivada pela internet/tecnologia).
“Tempos Modernos” é o retrato de uma urbanidade cruel aliada a uma desigualdade social perversa. Chaplin relata com humor, ironia e certa melancolia a realidade de uma classe social que, vivendo na sociedade industrial, encara níveis de pobreza, desemprego, fome.
Para contar a história do pobre Carlitos e sua namorada, Chaplin lança mão de diversas metáforas enquanto linguagem cinematográfica.
A cena inicial do filme mostra um bando de ovelhas indo para o abate e segue sobreposta com uma multidão de pessoas saindo do metrô e indo ao trabalho. Entre eles a “ovelha negra” Carlitos inicia o filme como um operário, que enlouquece diante do trabalho repetitivo e exaustivo, por ser tratado como uma engrenagem da máquina social. A cena clássica do filme – e do cinema – é uma metáfora, onde Carlitos é engolido por uma máquina, assim como o trabalhador é engolido pelo sistema capitalista de produção.
As metáforas pontuam o filme, essencialmente quando Carlitos e a namorada sonham com uma vida classe média/média alta, seja sonhando em ter uma casa, seja na loja quando Carlitos trabalha como vigia noturno e a garota dorme “em berço de ouro”.
Entretanto, baseado em perspectivas pessoais, a metáfora que eu elejo é a do final do filme, depois de todo sofrimento imposto ao casal pelas instituições sociais (como a polícia, o Estado, o capital) há ainda em Chaplin, através do casal, uma visão otimista. Quando o casal, juntos e de mãos dadas caminham, a estrada voltada para o infinito é a metáfora da esperança, mesmo com toda tristeza infinitas possibilidades ainda se apresentam e nelas a felicidade ainda pode ser encontrada.

Tempos Modernos (Modern Times, EUA, 1936) *****

segunda-feira, 18 de março de 2013

77° - "Um corpo que cai"


Definitivamente "Vertigo - um corpo que cai" é o melhor filme de Hitchcock. Tudo bem que eu ainda não conferi toda sua filmografia, mas é um filme com tantos elementos encantadores que fica difícil de bater. Pelo visto isso não é novidade - era pra mim - já que foi eleito ano passado o melhor filme de todos os tempos, numa eleição promovida por uma revista inglesa e que envolveu mais de 800 especialistas (o eterno "Cidadão Kane" perdeu o posto, está em segundo lugar).
É difícil falar de "Vertigo" sem oferecer spoiler. Tudo bem que, assim, eu não tenho muito cuidado mesmo na hora de escrever sobre os filmes, já que o blog é terapêutico para mim, como um diário, e também porque niguém pouca gente me lê.
E "Vertigo" apresenta tantas nuances que nem sei se vou dar conta de apresentar todas aqui, é um filme que a gente vê e quer rever em seguida (eu fiz isso) para tentar apreendê-lo melhor. O filme já começa apresentando Scottie (James Stewart, que também fez "Festim diabólico" e "A felicidade não secompra") um detetive da polícia em perseguição a um bandido em telhados, ele escorrega, quase cai, e um policial acaba caindo e morrendo quando tenta salvá-lo. Scottie desenvolve então acrofobia (medo de altura) e por isso se aposenta da polícia (a imagem da vertigem dele é muito bem feita). 
Um amigo de faculdade de Scottie o contrata para investigar sua esposa Madeleine Elster (Kim Novak), já que suspeita que ela está sofrendo uma espécie de transe por conta de um antepassado. Scottie a segue e descobre seus estranhos hábitos, na floricultura, no cemitério, no museu, tudo leva à figura de Charlotta, que depois Scottie descobre ser a bisavó de Madeleine que por infortúnios da vida se matou com 26 anos, e supostamente a mulher está sob sua influência tanto em sonhos quanto acordada, quando entra em transe e adotada esquisitos comportamentos, do qual não se lembra depois.
Com medo da esposa se matar como fez a bisavó, o amigo pede a Scottie que vigie sua mulher e ele o faz, inclusive a salvando quando se joga na Baia (numa cena linda esteticamente). Depois que a salva os dois começam a se envolver e se apaixonam.
Mas a paranoia de Madeleine não impede que ela suba na torre de uma igreja e se jogue lá de cima - Scottie não consegue salvá-la, pois por conta de sua acrofobia não consegue chegar ao topo da torre. Ele fica arrasado e vai parar numa clínica por conta de uma depressão profunda.
Depois, quando sai, procura frequentar os locais onde frequentava Madeleine, a vendo no rosto de várias mulheres, até que encontra uma, que apesar de ter hábitos diferentes, é muito parecida. Ele se aproxima dela, e só depois descobrimos que Judy é, na verdade, a própria Madeleine (ou a representação dela), que o marido contratou para fingir ser sua esposa e assim matar a verdadeira esposa (a que realmente caiu da torre da igreja) sem suspeitas, já que Scottie testemunhou o suposto suicídio (ele foi contratado por conta da sua doença e por ter certeza que ele não chegaria ao topo, muito alto).
A trama é muito bem amarrada (bem diferente de Pássaros), os personagens são complexos e o jogo psicológico de Hitchcock está lá, como sempre, com magnitude.
O filme é recheado de suspenses, de cenas psicodélicas que objetivam confundir aos espectadores: o que é realidade? o que realmente está acontecendo? e assim mostra a fragilidade da nossa mente e também nossas limitações, principalmente psicológicas.
Pra mim, já que também tenho medo de altura, o filme é de dar nervoso, principalmente nas cenas de vertigem do personagem, que são muito bem feitas (eu passei parte do filme com as mãos suando de nervoso).
Pela construção dos personagens, pela história tão bem construída e contada e pelas cenas que conseguem nos mostrar tão bem o ponto de vista do protagonista, por isto tudo, "Um corpo que cai" é imperdível.
Um corpo que cai (Vertigo, EUA, 1958) *****

sábado, 16 de março de 2013

75° - "As vinhas da ira"


"Eu nunca mais terei medo. Eu tive, porém. Cheguei a pensar que estávamos perdidos. Parecia que só tínhamos inimigos nesse mundo. Como se ninguém fosse amistoso. Eu me senti mal e assustada. Como se estivéssemos perdidos e ninguém ligasse... Os ricos nascem, morrem, e seus filhos também não prestam e desaparecem. Mas nós continuamos. Somos nós que vivemos. Eles não podem acabar conosco. Não podem nos vencer. Nós viveremos para sempre, porque nós somos o povo".
(Mãe)
"As vinhas da ira" é todo de cortar o coração, é um filme duro, cru, que mostra de maneira sincera uma triste realidade: a situação dos pobres na época da depressão de 29 nos EUA. Não se engane, não espere um filme de esperança, apesar de não ter um final ruim, os problemas também não se resolvem. O filme foi baseado no livro de John Steinbeck, que fez um amplo trabalho de campo e pesquisa para sua escrita, acompanhou de fato uma família que foi despejada de sua casa e partiu para Califórnia em busca de melhores condições, mas diferente do filme, que tem uma trajetória ascendente (apesar de não ter um final feliz hollywoodiano), li que o livro é ainda mais desesperançoso.
O filme se inicia com Tom Joad (Henry Fonda) voltando para casa após cumprir quatro anos de prisão por ter matado um homem numa briga. Quando chega em casa, em Oklahoma, a situação de sua família é caótica: todos eles, incluindo vizinhos, foi despejados de suas terras por conta de grandes empresas agricultoras, e agora todos decidiram migrar para Califórnia, na esperança de encontrar trabalho e condições melhores. Assim eles partem em viagem, num caminhão com todas as coisas e toda a família (irmãos, avós, pais, tio, cunhado). Neste momento no qual se transforma em filme de estrada eles vão redescobrindo a realidade a partir tanto da estrada, quanto das paradas; eles encontram situações muito difíceis e percebem a realidade do país, são vários "caminhões casas", pessoas carregando sua vida, porque já não tem onde morar e se submetendo a qualquer condição de trabalho para não morrer de fome, é terrível. 
A família chega na Califórnia e percebe que o sonho de melhores condições de vida foi em vão, e eles têm que morar num acampamento com outra milhares de famílias que são humilhadas pelo poder público e passam fome. O trajeto continua até encontrarem um acampamento do governo onde encontram melhores condições para morar e viver.
A situação mostrada, de extrema desigualdade social, talvez nem seja tão chocante para nós brasileiros (apesar de minimizada nos últimos anos); a situação da família Joad poderia ser transportada para o Brasil, para as famílias pobres do nordeste brasileiro frente a grande riqueza de empresários do sul.
Mas se há esperança em “Vinhas da ira” ela está ao final, no lindo discurso de Tom Joad:
"Um homem não tem sua própria alma, apenas um pedaço de uma alma grande. Uma alma grande que pertence a todos. Então não importará. Eu estarei nos cantos escuros, Estarei em todo lugar. Onde quer que olhe. Onde houver uma luta para que os famintos possam comer, eu estarei lá. Onde houver um policial surrando um sujeito, eu estarei lá. Estarei onde os homens gritam quando estão enlouquecidos. Estarei onde as crianças riem quando estão com fome e sabem que o jantar está pronto. E, quando as pessoas estiverem comendo o que plantaram e vivendo nas casas que construíram, eu também estarei lá."
As vinhas da ira (The grapes of wrath, EUA, 1940) ****

sexta-feira, 15 de março de 2013

74° - "Um estranho no ninho"


Qual é a maior vilã da história do cinema? Para mim não há dúvidas: a enfermeira-chefe Ratched (Louise Fletcher) de "Um estranho no ninho", ela é muito má, e não é deste tipo que mata e fica fazendo planos mirabolantes para conquistar o mundo: ela vai nas sutilezas, nos detalhes, sempre com uma calma irônica, com um olhar debochado. Ela ainda se apropria de um grande poder que tem, faz jogos psicológicos com seus pacientes - que são considerados loucos e vivem numa clínica psiquiátrica controlada por ela - os mantendo lá; até que ponto ela tem interesse em curá-los ou mantê-los ali para saciar seu desejo de controle e poder; quem é mesmo o louco?
"Um estranho" trata de tantos assuntos delicados e pesados que é impossível não se maravilhar com a história, é chocante! Quantas vezes já vimos, na realidade, no cinema, pessoas tentando se passar por doidos para 'fugirem' da cadeia e cumprir sua pena num hospital? Para citar aqui, eu me lembrei do Johnny (do filme "Meu nome não é Johnny"). "Um estranho" começa justamente assim, Randle Patrick McMurphy (Jack Nicholson, fantástico, além de ser um ator incrível tem cara de doido mesmo, fala sério?! Só lembrar de "O iluminado") é um prisioneiro malandro, que foi preso por algazarra e estupro, que não quer saber de ter que trabalhar na prisão e então forja sua insanidade para ir a uma instituição para doentes mentais, onde passará por uma avaliação de especialistas que julgarão sua sanidade mental. 
Randle é bem malandro, não gosta de seguir ordens e tenta subverter a ordem rígida colocada por Ratched, a provocando. Junto com um grupo de mais oito pessoas, todos loucos, ele vai viver ali na clínica e desenvolve amizades. Isto porque Randle não é um cara ruim ou babaca, ele tem várias chances de fugir e não concluiu seu intuito por que: é malandro demais chegando a ser imbecil, por sua lealdade aos amigos e também, por que não? É também um pouco insano. Ele se revolta com as normas rígidas do hospital, e percebe que lá, apesar da aparência, a liberdade é ainda mais cerceada; ele tenta fugir arrancando uma grande pia do chão do banheiro, mas não tem força suficiente. Para Randle será tranquilo levar a situação e até divertido, eu me diverti bastante em várias passagens. E ele não é mole, tenta subverter a ordem todo o tempo, como quando fogem para pescar, e eles voltam, também provando que apesar de loucos eles conseguem conviver em sociedade, provando que não precisam se fechar na própria loucura.
A equipe médica atesta que Randle não é louco e pode voltar para a prisão, mas Ratched, num discurso pseudo, defende sua permanência, pois eles não podem desistir do ser humano. Balela, o que ela quer é controle, e logo Randle descobre que, se na prisão sua pena é determinada, ali no hospital ele só sairá quando a enfermeira-chefe atestar sua sanidade, ou seja... Ele resolve fugir junto com "chefe" um índio muito grande e muito forte que todos acreditavam ser surdo-mudo. A amizade de chefe e Randle é a mais bonita e a cena final do filme ("a la 'Amour'") é de arrasar, é maravilhosa: depois de sofrer uma lobotomia, pois Randle tenta matar Ratched (que provoca o suicídio de Billy Bibbit), o chefe diz a ele algo do tipo: "agora eu tenho força, você me deu isso, mas nós vamos juntos ser livres", então pega a pia pesada, joga na janela e foge ao horizonte, incrível, imperdível!
Um estranho no ninho (One flew over the Cuckoo's Nest, EUA, 1975) *****

quarta-feira, 13 de março de 2013

72º - "Argo"


Argo, vencedor do Oscar de melhor filme este ano, tem tudo para ser um filme clichê: conflitos políticos entre EUA e algum país do Oriente Médio, como retaliação aos EUA o país faz reféns americanos e um herói nacional sozinho, com um plano mirabolante, entra no país hostil para salvar seus compatriotas. Vamos reconhecer que não é a primeira vez que vemos algo do tipo no cinema americano, desses filmes que são feitos para ressaltar o patriotismo, a identidade nacional. Mas peraí, Argo tem algo diferente, além de ser baseado numa história real (eu vi depois os extras e realmente o caso é fantástico), ele justifica sua importância nos primeiros 3 minutos de filme, aqueles introdutórios que vão explicar porque um país pequeno no Oriente Médio (mas muito rico em petróleo) tem tanto ódio dos EUA e aí, realmente, Ben Affleck e companhia limitada conseguiram um feito: a culpa é claramente do próprio EUA, sua ganância econômica e política, seu descaso com outra nacionalidade, com outro povo. E então quando o povo do Irã faz refém mais de 50 americanos que trabalhavam na embaixada e a gente entende, é justificável. A situação humanamente é terrível, mas a única coisa que eles querem é que os EUA extraditem o xá, responsável por anos de muita crueldade, e que agora se trata de um câncer na terra dos ianques; justo, eles querem um julgamento com a mesma justiça que lhes foi confiado, enquanto povo, durante tantos anos.
E se a gente tá cansado de ver, e de tentar entender, os fundamentalistas desses países, o filme explica: no caso do Irã todo radicalismo do povo foi construído pelo próprio EUA. "Em 1950 o povo do Irã elegeu Mohammad Mosaddegh, um democrata, como primeiro-ministro, ele nacionalizou holdings de petróleo britânicas e americanas, devolvendo o petróleo do Irã ao seu povo. Entretanto três anos depois, EUA e Grã-Bretanha maquinaram um golpe de estado que depôs Mosaddegh e instalou Reza Pahlavi como xá. O jovem xá era conhecido por opulência e excessos. Havia rumores que sua esposa de banhava em leite, enquanto seus almoços vinham de Paris num Concorde. O povo morria de fome. O xá matinha o poder através de sua cruel polícia, com tortura. Também iniciou-se uma campanha para ocidentalizar a população, o que enfureceu alguns xiitas, e em 1979 o povo do Irã depôs o xá. O aiatolá Khomeini, clérigo exilado, voltou para governar o Irã." O povo, claro, cheio de revolta com seu passado recente de opressão e violências (física, política, cultural) resolveu fazer justiça com as próprias mãos. Neste universo eles se tornaram ainda mais xiitas, procurando defender seu patrimônio, e depois de mais de 20 anos vivendo na violência, eles simplesmente a continuaram, estabelecendo um poder também autoritário, mas agora no controle do próprio povo (bem, é ruim de qualquer jeito, mas ainda acho que pelo menos está nas mãos do povo o que é do povo), tem como culpá-los? Se foi o próprio 1º mundo quem construiu essa cultura da opressão e do medo?
Mosaddegh pediu asilo nos EUA e foi aceito, claro. Mas o povo iraniano queria fazer a sua justiça, e protestava em frente à embaixada americana, até que certo dia a invadiram, fizeram reféns, cuja liberdade estava condicionada à volta de Mosaddegh, foram 444 dias de cativeiro.
Acontece que 6 desses americanos conseguiram fugir, e se refugiaram na casa do embaixador canadense. A situação deles era pior que a dos outros colegas, já que a mídia de todo o mundo estava de olho na embaixada. Então, temendo a situação desses 6 americanos, Tony Mendes (Ben Affleck) perito em "exfiltração" é incumbido de pensar num plano para capturar seus compatriotas. Como todos os outros planos parecem improváveis na atual situação extremista do Irã, Mendes pensa na mais mirabolante de todas: fingir que o grupo está no Irã para procurar um local de locação para um filme de Hollywood. Para dar veracidade ao plano, “Argo”, nome do filme escolhido cujo roteiro prevê uma ficção científica num lugar do Oriente Médio, é pré-produzido em Hollywood, com destaque da mídia. 
Argo, cuja ênfase está em Tony Mendes e em suas ações (há pouco destaque para os reféns, todos e também os 6 que serão resgatados) é também um meta-filme, já que fala dos bastidores de Hollywood, para produção de um filme e esta parte é bem interessante. O filme é também muito tenso e bastante didático, digo isso porque eu consegui compreender totalmente suas discussões e geralmente sou bem lerda para filmes da CIA ou FBI com diálogos rápidos sobre espionagem e não-sei-o-que-mais.
E Tony Mendes realmente merecia um filme e quiçá um Oscar, o cara foi valente demais, aparecer sozinho no Teerã, para capturar os 6 reféns, num país completamente hostil e correndo muitos riscos.
O filme é também muito bom esteticamente, no figurino, nas cenas, até nas cores, realmente nos remete para a época retratada. E apesar de ter adorado “Lincoln” e a atuação de Daniel Day-Lewis, “Argo” é melhor, não na história em si, mas por fazer uma crítica ácida ao próprio país do Oscar, e ter vencido apesar disso foi incrível. De um lado o mito do que é ser americano, com o presidente mártir, de outro uma crítica ferrenha ao que é preciso fazer para se manter no poder, sem justificativas. Eu também prefiro “Argo”.
Argo (EUA, 2012) ****

segunda-feira, 11 de março de 2013

70° - "Barbara"


Eu estava super entusiasmada para assistir "Barbara" porque li, há algum tempo atrás, antes de estrear, que era muito parecido com "A vida dos outros" e sim, o tema é bem próximo, existe algumas angústias parecidas, mas "Barbara" não chega perto da grandeza de "A vida".
Barbara é uma médica que em 1980 vive no lado oriental da Alemanha, mas seu namorado vive na parte ocidental. O governo suspeita então que Barbara tente fugir para o lado ocidental e então a pune, transferindo-a para uma cidade do interior, onde trabalhará no hospital local e viverá num apartamento totalmente supervisionado. É claro que Barbara está revoltada com a situação e com a maneira na qual é tratada, como uma prisioneira, como uma bandida e não tem nenhuma boa vontade com o novo trabalho, com o novo local, com as novas pessoas, já que suspeita de todos.
Seu chefe, André (Ronald Zehrfeld) é um cara cheio de gentilezas, oferece carona, a ajuda com um piano desafinado (e provavelmente sua única fonte de lazer), tenta se aproximar. Mas Barbara está desconfiada, não sabe se André é apenas um cara gentil, ou uma pessoa a serviço do governo que está se aproximando para colher informações. Não só Barbara tem esse sentimento, nós também, espectadores, ficamos sem saber de suas reais intenções (é claro que eu, "Pollyanna" como sou, já estava super acreditando na boa vontade e gentileza de André).
Aliás, Barbara é um filme cheio de sugestões, as coisas dadas são muito mais sugeridas do que ditas e nós temos que formar nossas opiniões com o pouco que temos, assim como os personagens, o que imprime um pouco de suspense ao filme, como nas cenas nas quais ela anda de bicicleta pela floresta, pela estrada de terra.
O namorado de Barbara, Jorg, vem visitá-la com certa regularidade e planeja sua fuga para o outro lado. Ao mesmo tempo em que ele é um homem bonito, gentil e apaixonado, deixa claro para ela que lá, do outro lado, não precisará trabalhar, porque ele tem dinheiro suficiente para os dois (ãh?!).
Nesse ínterim Barbara começa a se encantar por André (quem não?) e eu creio que enxergar a diferença entre seu namorado, aparentemente um empresário bem sucedido, contra um médico bem intencionado, que não é rico, mas que acredita em seu povo. Ao contrário de Barbara, André não fala mal do regime em nenhum momento, Barbara é parcial, detesta o lugar onde mora, local onde todos são suspeitos e à mercê de vários tipos de violência (o filme tem duas cenas nas quais um responsável pela supervisão vai à casa de Barbara, revira todas as suas coisas à procura de provas e uma mulher vai fazer um exame em seu corpo, terrível).
Neste sentido acho Barbara mais parcial que "A vida dos outros", que mostra a Alemanha Oriental de um jeito mais sutil, mas não menos visceral.
Em "Barbara" nós vemos a brutalidade com a qual certas pessoas são cuidadas, como é o caso da menina que Barbara cuida no hospital, grávida (provavelmente vítima de abuso) e que trabalha no campo em situações lastimáveis.
No final, que é também sugerido (eu gostei) o que vence é o amor, tanto o conjugal, quanto o do afeto pela menina que Barbara 'salva' em seu lugar, e é muito bonito, mas também bem mais previsível.
Barbara (Alemanha, 2012) ***

domingo, 10 de março de 2013

69° - "Invasões bárbaras"

Em "Declínio" os intelectuais preocupados com outras questões, dão pouco - ou nenhum - valor à família convencional, e principalmente aos filhos. Rémy quase não fala dos filhos e Pierre deixa claro sua atitude egoísta e sua opção por não ser pai. Daí que "Invasões bárbaras" começa com Rémy muito doente, hospitalizado, e sua ex-esposa (Louise) tendo que ligar para o filho Sébastien, que mora em Londres, para que venha cuidar do pai. Parece um "tapa de luvas" e realmente é, Rémy tem que lidar com um filho que não respeita e admira, que nunca leu um livro na vida e é um capitalista selvagem; o filho, por outro lado, nega tudo que venha do pai, como seu espírito socialista, seu estilo de vida. O que resultará disso é meio óbvio e bem parecido com "Peixe grande e suas histórias maravilhosas", ambos centrados na relação desastrada de pai e filho, o pai está doente, em estado terminal, e o filho volta para resgatar, para dar a última chance. Claro que grande parte deste resgate se deve às mães, de ambos os filmes, e em "Invasões" Louise dá um show quando o filho, nem um pouco disposto a cuidar do pai (quem pode culpá-lo?!) lhe descreve toda a atenção que o pai lhe deu, as fraldas que trocou, quando o embalou na infância, cuidou dele nas doenças, enfim, acho que só comprova a teimosia masculina, que muitas vezes nem a paternidade pode dar conta.
Mas durante o filme ocorrem algumas transformações, e o filho de Rémy, apesar de nem um pouco voltado para a vida acadêmica, se mostra um filho dedicado e faz de tudo para que seu pai tenha conforto e alegrias, é bonito de ver; claro que com a quantidade de dinheiro que tem fica mais fácil ser generoso, mas não diminui seu gesto. A cena final dos dois é lindíssima, quando Rémy diz ao filho: "sabe o que lhe desejo? Um filho como o meu!".
Contudo "Invasões" é muito além disso, é um filme belíssimo, muito sensível e, outrossim, extremamente pessimista, em todos os sentidos. Se em "Declínio" vemos um grupo de amigos "intelectualmente tediosos", com seus valores e certezas, em "Invasões" percebemos o quanto a velhice pode ser cretina e jogar na cara um monte de certezas; o melhor exemplo é Pierre, que era um solteiro inveterado, que amava amar as mulheres, não queria ter filhos, centrado na sua inteligência, e agora é casado com uma jovem, burra e fútil, tem duas filhas pequenas e se submete aos desejos da mulher, é outro homem, mais desencantado. O mesmo com Diane, que continua fervorosa sexualmente, mas se afastou das filhas, e até com Dominique, que desistiu dos homens. O único que parece melhor é o querido do Claude, que já em "Declínio" era o mais boa praça e agora mora em Roma, é bem sucedido profissionalmente e no amor.
Mas as desesperanças não estão apenas ali, nos que ditavam certezas e arrogâncias no primeiro filme, os jovens também não oferecem nenhuma esperança no futuro (como diz Rémy "não entendemos o passado, como podemos prever o futuro?”). Finalmente a própria morte, na qual gira todo o filme, é uma desilusão, Rémy lida com sinceridade sobre a perspectiva de sua morte, e nas conversas com Nathalie (filha de Diane que lhe injeta heroína) estão as melhores reflexões:
"- É paradoxal, quando envelhecemos é que nos apegamos à vida... Me restam 20 anos, 15 anos, 10... Quando sabemos que é a última vez que fazemos alguma coisa, é a última vez que compro um carro, a última vez que vejo Gênova, Barcelona [...] Não quero deixar a vida. Não pode imaginar como a amei.
- E o que tanto amou?
- Tudo. O vinho, os livros, a música, as mulheres, principalmente as mulheres.
- Mas não é a sua vida atual que não quer deixar. É a sua vida passada. E essa já está morta."
Se em "Declínio" a origem do nome está atrelada à questão da felicidade, em "Invasões" quem explica é Alain (em sua única aparição no filme), quando está na TV dando uma entrevista sobre 11 de setembro: "Historicamente o número de mortos no ataque é insignificante, para citar um exemplo americano morreram 50 mil pessoas na batalha de Gettysburg. Mas o que é significativo, como diriam meus antigos professores, é que, dessa vez, o coração do império foi atingido. Nos conflitos anteriores, Coréia, Vietnã, a Guerra do Golfo, o império havia conseguido manter os bárbaros além de seus limites, de suas fronteiras. Nesse sentido talvez nos lembremos, e insisto no talvez, de setembro de 2001 como o começo das grandes invasões bárbaras."
E é irônico que o império cujo declínio é anunciado em 1986 (17 anos antes de "Invasões") é aquele que tem a melhor infraestrutura de saúde para cuidar de Rémy - apesar de cara, o que não é problema para o filho - e ambos têm que cruzar a fronteira para o tratamento (bem diferente de Sicko, do Michael Moore, onde as pessoas fazem o caminho inverso, atravessam dos EUA para o Canadá).
E apesar de ser um filme belo é também um filme triste, um filme de saudade. As cenas finais, gravadas na mesma casa de campo onde foi gravado "Declínio" mostra como foi valioso reunir os mesmos atores para fazer esse filme, tanto tempo depois. Apesar de todo pessimismo, se existe alguma esperança ela está na família, ou mais que isso, na amizade.
Invasões bárbaras (Les invasions barbares, Canadá, 2003) ****

quinta-feira, 7 de março de 2013

66º - "Uma história real"


Quando li as poucas críticas sobre "Uma história real" estavam todas, sem exceção, centradas na direção de David Lynch, um diretor surrealista que, neste filme, opta por uma narrativa linear, um filme calmo e sem grandes surpresas, com exceção da própria história em si: Alvin Straight (Richard Farnsworth, que concorreu ao Oscar pela atuação no filme) é um senhor com 73 anos e saúde debilitada, tem problemas no quadril (e por isso anda com duas bengalas), na vista e nos pulmões, mora com a filha (Rose, interpretada por Sissy Spacek) numa cidadezinha  em Iowa. Acontece que ele fica sabendo que seu irmão Lyle (Harry Dean Stanton) sofreu um derrame e Alvin, que não fala com o irmão há mais de 10 anos decide que precisa vê-lo. Só que essa jornada ele tem que viver só, como deixa bem claro com sua filha, só que Alvin não tem carteira de motorista, não quer ir de ônibus nem carona e então, surpreendentemente, resolve viajar os 500 km com seu carrinho de cortar grama.
É claro que as pessoas ao seu redor tentam dissuadi-lo dessa decisão, que parece - e é - absurda, mas Alvin não desiste, já que é muito teimoso, como deixa claro em alguns momentos do filme. Ele passa por algumas provações, já no início da viagem seu carrinho pifa, ele tem de voltar à sua cidade, mas compra outro e segue viagem. 
Nesta viagem que dura 6 semanas, Alvin encontra várias figuras durante seu trajeto e é nesses momentos que o filme se concentra. Se em outros road-movies as pessoas que optam em viajar sós estão em processo de aprendizado e de rever seus valores e ressignificá-los, com Alvin se dá o contrário: não é a estrada que ensina Alvin, é Alvin quem ensina à estrada. Ele tem consciência de sua maturidade, carrega o fardo dos erros cometidos (como a própria briga com o irmão, sua consciência pesada por ter matado um amigo na guerra, seu alcoolismo) e está na estrada para ensinar, para ajudar o outro a compreender a partir de suas próprias vivências. Esse processo, que é apresentado de maneira muito delicada, é belíssimo em seus detalhes, seja quando encontra uma moça que está grávida e pedindo carona para fugir, e ele lhe ensina o valor da família; seja quando vê os gêmeos brigando e desabafa sobre a importância de ter, ao seu lado, a pessoa que melhor lhe (re)conhece. Então o filme conta a história de Alvin a partir da história das outras pessoas que ele encontra no caminho.
O tempo do filme também é fabuloso, diferente de outros road-movies, como "Easy rider" por exemplo, que a estrada é um momento de libertação, de velocidade, aqui em "Uma história" a estrada tem a velocidade de Alvin, seja refletida em seu próprio estado de saúde, seja na velocidade que o carrinho pode alcançar, tudo está em equilíbrio. Se o filme tem a velocidade de Alvin, isso proporciona ao expectador cenas lindas centradas numa ótima fotografia dos visuais do campo dos EUA.
"Uma história real", como a própria obviedade do nome revela, é baseado na história real de Alvin Straight, que atravessou de trator, de Iowa à Minnesota para ver seu irmão enfermo. O nome do filme em inglês "The Straight Story" é bem mais interessante e sugere algumas interpretações, todas coerentes com o filme: é o nome do protagonista; significa reto, direto, franco e também, de algum modo, convencional, careta.
O final do filme é sinérgico com todo o resto, Alvin finalmente encontra seu irmão (existe uma tensão durante o filme, se ele vai conseguir terminar sua trajetória, se o irmão estará vivo) e a cena do encontro dos dois é lindíssima.
Uma história real (The Straight Story, EUA, 1999) ****

sexta-feira, 1 de março de 2013

60° - "A vida dos outros"


"A vida dos outros" é bem parecido com "Fahrenheit 451" e tão bom quanto. Isso não é algo simples de dizer, porque são dois filmes bons demais, desses imperdíveis na vida! O que os dois têm de mais próximo é o mais bonito neles, que regimes autoritários constroem cidadãos que realmente acreditam na ideologia pregada, que são manipulados (via educação) para acreditar que o governo está completamente correto em suas ideologias, e que os subversivos são uma pedra no sapato, atrapalhando a paz e a concretude dos ideais ditatoriais (e o ótimo "A Onda" mostra direitinho como isso é - facilmente - construído), e que por isso, por serem considerados vilões do próprio povo, podem ser submetidos à tortura e a condições de violação total de direitos e de liberdades. 
Não sei se é fácil compreender, porque é preciso relativizar, entender que tanto Montag  ("Fahrenheit 451") quanto Wiesler ("A vida dos outros") foram, também, vítimas do próprio sistema, foram manipulados para acreditar que o que faziam é certo, é em busca de um ideal (e de forma matizada ainda hoje, quantas instituições políticas se revestem com capas idealistas?). Se em "Fahrenheit 451" a sociedade vivia sob um regime totalitário, mas que não conhecemos muito bem, em "A vida" é retratado uma época real e recente, que foi a ditadura socialista da Alemanha Oriental (que contradição, pra quem nunca estudou Marx e se baseia apenas em filmes ou na TV não tem acesso aos ideias socialistas, que nada tinham a ver com autoritarismo e violência do Estado, ao contrário, previa a própria extinção deste).
Mas "A vida" ainda tem outras histórias tão interessantes quanto a de Wieler. No início do filme somos apresentados à Gerd Wiesler (Ulrich Muhe) que é um profissional do Estado dedicado, professor e perito em interrogatórios e em vigiar aqueles indivíduos suspeitos de propagar contra o Estado. Georg Dreyman (Sebastian Koch) é o maior dramaturgo da Alemanha Oriental, e realmente acredita nas políticas do governo e não o contesta em suas obras; acontece que Hempf, um ministro poderoso se interessa pela namorada de Dreyman, Christa-Maria Sieland (Martina Gedeck) e então pede que Dreyman seja monitorado, pois acredita que achará algo que o porá na cadeia e facilitará sua aproximação com Christa-Maria. Wiesler, que desconhece os propósitos pessoais do ministro, coloca escutas por toda a casa de Dreyman e começa a monitorá-lo 24 horas por dia. Neste processo, Wiesler percebe que Dreyman não é um traidor do Estado, e, além disso, vai percebendo suas tristezas e injustiças (há uma cena linda, quando Dreyman acabou de saber que seu amigo está morto vai ao piano, toca a "sonata Appassionata" de Beethoven e conta que Lenin certa vez disse "se eu continuar escutando essa peça não levarei a cabo a revolução" e quando Wiesler escuta a música também começa a hesitar).
O ministro Hempf (ai dá um ódio dele) começa a seguir Christa- Maria e a estupra regularmente, chantageando-a, é horrível e ao mesmo tempo é uma delicadeza perceber em Wiesler a compreensão de quem é realmente vilão na história, ele percebe os propósitos puramente políticos e pessoais - e nada ideológicos - da empreitada que lhe foi conferida. Paralelamente Dreyman, que realmente acreditava no regime começa a se revoltar contra, a partir da situação de sua namorada (ele percebe o que está acontecendo) e do suicídio de um amigo, que era diretor de suas peças, mas foi afastado do cargo pelo governo. 
O final do filme é de uma delicadeza, de uma beleza que é difícil colocar em palavras, só vendo mesmo... Mas a beleza do filme (que é de chorar, eu chorei em várias partes, todas as vezes que vi) é mostrar as complexidades do ser humano, nossa falibilidade, onde estão concentradas as nossas crenças e o contraste delas com a realidade, lindo!
A vida dos outros (Das Leben der Anderen, Alemanha, 2006) *****

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

56° - "Balzac e a Costureirinha chinesa"


Para inaugurar a semana do meu aniversário, que culminará no sábado, quando eu finalmente me tornarei uma "Balzaca", escolhi falar deste filme que tem tudo a ver com Balzac, mas nada a ver com sua obra mais famosa (mas que também o limita) "a mulher de 30 anos".
"Balzac e a costureirinha chinesa" é um filme incrível, delicado, feminista. Ele vai falar em como um livro tem a capacidade de mudar uma vida inteira e escolhe o cenário mais inóspito para tal tema, a revolução cultural promovida por Mao Tse-Tung no fim da década de 1960 que entre outras medidas, eliminou das bibliotecas obras ocidentais consideradas burguesas, tornando suas leituras proibidas.
O filme inicia-se com dois jovens (Luo e Ma) chegando à uma pequena comunidade isolada no Tibet, eles foram para lá levados pois são considerados burgueses reacionários (e seus pais também) e então são encaminhados para este centro de reeducação. A comunidade é muito simples e ignorante (acho que ninguém ou quase ninguém sabe ler) e o chefe considera tudo que seja diferente uma afronta ao líder chinês e assim queima livros e alguns pertences dos garotos, menos o violino de Ma, pois Luo o convence que Mozart compunha para o presidente Mao. 
Então o filme mostra a dificuldade dos dois amigos em viver e trabalhar no campo, com toda pressão física e também psicológica. Eles conhecem a Costureirinha (neta do alfaiate local) e se apaixonam por ela (cada um a seu modo). Luo que mantém um romance com ela promete que vai educá-la e conta suas histórias, até um dia que ela revela aos dois que Quatro Olhos (um jovem que também está sendo reeducado, mas aparentemente está prestes a voltar para a cidade) tem uma mala com vários livros proibidos. Os dois roubam a mala e lá descobrem vários livros de autores diversos, como Dumas, Flaubert, Baudelaire, Rousseau, Dostoievski, Dickens e Balzac. Eles escondem os livros numa gruta e a leitura faz com que o tempo e a vida dos três mudem. É linda a cena na qual Ma se levanta, após passar a noite toda lendo Ursule Mirouet e murmura que o mundo mudou, "o céu, as estrelas, os sons, a luz, até o cheiro dos porcos"...
Mas a maior e melhor mudança vem da Costureirinha, que se apaixona por Balzac, em meio à literatura a garota aprende a ler e a se libertar e esse processo é muito bonito de ver. Quando ela decide ir embora, para a cidade, Lou, apaixonado, lhe pergunta: “quem a transformou?” e ela “Balzac”. Logo depois Lou diz à Ma, “ela foi embora por causa de Balzac, disse que lhe ensinou uma coisa: a beleza de uma mulher é um tesouro sem preço.”
“Meu pobre Cristóvão você não imagina as delícias da liberdade. Sentir que todas as mentes à sua volta são livres, mesmo a dos ignorantes, é um prazer indescritível como se a alma estivesse nadando em céus infinitos. Ela jamais poderia viver em outra parte”.
Balzac e a Costureirinha chinesa (Balzac et la petite tailleuse chinoise, China e França, 2001) ****

domingo, 24 de fevereiro de 2013

55º - "Indomável sonhadora"


"Esta pode ser a grande diferença, que separa, o homem selvagem do civilizado. O selvagem tem só sentimento. O civilizado tem sentimentos e ideias" 
Acho que "A indomável sonhadora" tem tudo a ver com essa frase de Balzac, que os homens selvagens são puro sentimento! O filme é tão duro, inocente, cru, que a gente fica meio confuso, embasbacado de ver... Narra a história de uma pequena comunidade que mora no que eles chamam de "Banheira", no subúrbio de uma grande cidade nos EUA (a gente vê a cidade de longe, percebe-se que é de porte grande, com indústrias) centrado na história da fofíssima Hushpuppy, uma garota de 6 anos que é criada pelo pai e que fantasia sobre sua vida (em suas fantasias eu me lembrei de "Onde vivem os monstros"). A protagonista (uma menina negra) Hushpuppy é uma sonhadora, mas não se iluda porque ela não almeja bonecas, brinquedos caros, ir ao shopping ou ver papai noel, ela sonha a partir dos elementos que ela reconhece, e é de partir o coração ver, que em meio a toda pobreza e sujeira que eles vivem, tem uma camisa vermelha com um rosto desenhado em cima que é a sua mãe, com a qual a menina conversa e ouve de volta palavras de afeto. Outra que eu achei apaixonante foi a mania de Hushpuppy ouvir o coração dos seres vivos, seja no peito do pai (inclusive na cena final, chuif...), seja com todos os bichos que moram ao seu redor, pintinho, galinha, cachorro,... E isso é importante no filme porque a garota é criada por seu pai para se encarar como bicho (a cena que um colega do pai tenta ensina-la a comer com talher e ele fica irritado porque eles são bichos é ótima), então ali, entre os bichinhos, todos são iguais, sendo que os mais fortes sobrevivem.
Os moradores da "Banheira" tem consciência do local precário que moram, mas querem viver ali, porque ali eles estabeleceram suas próprias regras, seu próprio lazer, sua maneira de viver, bem diferente da cidade; ali eles não se sentem marginalizados, são parte de um grupo. Acontece que uma tempestade está para chegar e é provável que vá haver um alagamento na área, alguns vão embora, outros ficam e a cena da tempestade é excelente, eu fiquei com medo de tão verídica que foi. O alagamento acontece e a comunidade (os que ficaram) vão tentar sobreviver na água e encontrar uma solução. Acontece que o pai de Hushpuppy (Wink, interpretado por Dwight Henry) está morrendo, recusa se tratar num hospital (pois não quer ficar "preso na parede") e tem que ensinar sua filha a ser forte, a sobreviver; é duro, mas é muito comovente, apesar de eu ter achado muito estranho a mania do pai de chamar a filha por apelidos masculinos, do tipo “você é o cara”, “você vai ser o rei da ‘Banheira’” e outros que não me lembro agora (para ser forte você precisa ser – ou se ver como – homem?)...
O mais interessante é que apesar de toda precariedade do local onde eles vivem, eles buscam dignidade, algo que eles provavelmente não terão na cidade. Quvenzhané Wallis (que interpreta Hushpuppy) faz muito bem seu papel, foi indicada ao Oscar e recebeu muitas críticas, por ser criança (ela mentiu a idade para poder participar do teste, disse que tinha 6, mas tinha 5 anos), por ser seu primeiro papel. Mas é muito bacana ver um filme independente, sem atores conhecidos, que fala da miséria nos EUA (quantos filmes falam disso?) ser reconhecido pela academia e pelo público, porque é um filme incrível.
Indomável sonhadora (Beasts of the southern wild, EUA, 2012) ****

P.S.: Ontem foi noite de Oscar e devo dizer que meus palpites não estavam tão certos. Tudo bem que eu poderia ter me interessado mais e conhecido os outros prêmios que vieram antes e que são um termômetro. Fiquei feliz com “Valente” (que é uma animação bem feminista, muito boa) por ter ganhado melhor animação e até por Ang Lee ter ganhado melhor diretor (achei o discurso dele muito bom, apesar de não gostar de “As aventuras de Pi”). Não vi “Argo” (não chegou nos cinemas de Juiz de Fora, aff), portanto imaginava que “Lincoln” fosse ganhar como melhor filme e fiquei feliz por Anne Hataway (ganhou como melhor atriz coadjuvante por “Osmiseráveis"), agora “Amor” só ganhou como filme estrangeiro? E Jennifer Lawrence ganhou como melhor atriz (por “O lado bom da vida”) deixando pra trás Emmanuelle Riva (de “Amor”)? Piada.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

53º - "Lincoln"


Domingo é dia de Oscar, existe uma expectativa, bolões, retrospectivas de outros ganhadores (tem uma ótima aqui, mostrando que dos últimos 50 ganhadores de melhor filme somente 7 eram sobre mulheres) e, claro, um congestionamento nos cinemas. Para mim - porque na minha cidade - é a melhor época de ir ao cinema, quando muitos indicados estão em cartaz (tem época do ano que é de dar dó).
Então, aproveitando essa euforia pré-Oscar fui ontem ao cinema ver "Lincoln"; e gostei muito do filme e da atuação do Daniel Day-Lewis, na minha opinião o filme leva nessas duas categorias, que concorre junto com outras 10. Os EUA gostam de filmes patrióticos e têm adoração por Lincoln. Eu não sei realmente como foi sua atuação como presidente e seus valores como pessoa, mas o que ele representa, o que ficou, é algo muito positivo para um povo. Tudo bem que grande parte disso se deve ao fato de que ele foi assassinado num teatro, durante uma peça, por um ator que era contra seus ideais e isso é forte demais, constrói um mártir. Durante o filme eu fiquei pensando se nós teríamos uma figura assim no nosso país, ou se algum dia teremos (porque essas figuras quase míticas são construídas com tempo, quando fatos verídicos e lendas vão se misturando).
Embora "Lincoln" seja um bom filme, com boas histórias, bonito de ver, é desses filmes que a gente assiste desconfiado (e não é porque sou mineira), porque envolve dois elementos duvidosos: política e EUA. Por mais bonito que possa parecer, é difícil aceitar assim, do nada, sem nenhum - ou quase nenhum - interesse que o presidente dos EUA é um cara bonzinho que quer acabar com a escravidão, e eu não sei se estou exagerando, mas a minha sensação é que vários outros propósitos foram escondidos para Lincoln ficar mais carismático, será?! Vou tentar me explicar melhor, o filme até ajuda neste quesito, acontece que, para uma pessoa se tornar pública, ter votos e ser eleita para um cargo político há tantos elementos envolvidos, tanto jogo de interesse que dificilmente a pessoa passa incólume até chegar a presidência, sei lá, sou meio descrente, acho que a pessoa pode ter seus valores, mas sua moral fica, digamos, mais volátil. 
Entretanto, o filme não nos trata como tolos, e mostra, no que eu acho o mais interessante, que para Lincoln conseguir aprovar a emenda constitucional que acabaria com a escravidão no país, ele tem que prorrogar o fim da guerra civil entre norte e sul dos EUA, que já durava 4 anos e estava na iminência de acabar. Contudo, se ele resolvesse acabar com a guerra não conseguiria aprovar a emenda (já que ela passou, para a maioria dos representantes, como um motivo para o fim da guerra, não como o fim da escravidão) e então, o presidente vive um dilema: quem sacrificar? E é também uma aposta, pois para aprovar a emenda tem que convencer não só a maioria do seu partido, como também parte dos democratas.
Infelizmente tenho que admitir minha ignorância com relação à história dos EUA, mas eu não sabia, e achei interessante neste processo, que Lincoln fosse republicano e que dentro do partido havia tantos pró-abolição (como Thaddeus Stevens, interpretado por Tommy Lee Jones, gracioso com aquela ‘peruquete’) enquanto que os democratas fossem tão retrógrados (pelo menos neste aspecto), sendo que é hoje o partido de Obama, presidente e negro.
E por mais que o filme seja antigo, 1865, nem faz tanto tempo assim se considerarmos a história do mundo, para que pensar em abolição seja difícil, pensar em voto dos negros impossível e em votos para mulher praticamente uma brincadeira de mau gosto (gostei dessa cena, não no sentido bom). E Lincoln é um filme totalmente masculino, quase não existe mulher em cena, eu contei 3, uma que trabalha na casa de Lincoln e tem uma conversa franca com o presidente, outra que também é negra e tem que fingir ser criada, apesar de ser esposa de Thaddeus (foi uma cena bem bonita, viu?! Não sei se baseada em fatos reais...) e outra a esposa de Lincoln que é retrata como uma mulher instável e enjoada (não gostei dela nem da atuação de Sally Field). Enfim, eu descrevi rapidamente as 3 que, sei lá, durante os 150 minutos de filme devem representar uns 0,01% do elenco.
Eu não sei se faz parte do mito Lincoln, mas além de Daniel Day-Lewis está incrível no papel, Lincoln foi um cara espetacular em seu modo de agir e de pensar, com a expressão sempre tranquila, quieto, quando falava era sempre com uma voz calma (até na hora em que ficou irritado, bateu na mesa e a fala foi mansa...) e pausada, sei não viu, eu queria ser assim quando crescer... Vi em alguma crítica falando que o filme é bem parado, e até concordo um pouco, eu estava morrendo de sono, a sessão no cinema muito tarde, mas eu acho que o filme tem o ritmo do próprio Lincoln que Spielberg quis apresentar.
Tanto o início quanto o final do filme foram rápidos, deixando mesmo a ênfase no período final de vida do presidente e creio, sua principal contribuição ao país, que a abolição da escravatura fosse votada democraticamente, não sendo apenas a decisão de uma assinatura, e as dificuldades de convencer 2/3 dos homens que representam um país tão grande e diverso. O fim, que imagino todos esperavam ser mais relevante, tratou muito rápido a morte do presidente, que apesar de americano, saiu do mundo para entrar para a história.
Lincoln (EUA, 2012) ****

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

51º - "Cisne Negro"


"What did you do?
I felt it."

Ontem eu revi, meio sem querer querendo, "Cisne Negro" que eu só tinha visto pelo cinema; é que, apesar do filme ser realmente incrível ele é tão impactante que não dá pra assistir a qualquer hora. Além disso, "Cisne" é feito pra incomodar, a gente sente a mesma dor de Nina e é envolvido em suas alucinações. O filme é puro delírio, é fantástico e, incrivelmente, eu gostei dele ainda mais quando o assisti pela segunda vez, certamente um dos meus preferidos. 
Em "Cisne" Aronofsky (diretor também de “Pi”, “Réquiem para um sonho” e “O lutador”)  escolheu falar sobre a dedicação, literalmente "se matando de tanto trabalhar" e escolheu certinho ao falar do universo do balé. Para ser bailarino é preciso uma dedicação militar, muito treino, muito esforço, muita entrega. Nina (Natalie Portman que merecidamente ganhou o Oscar por sua atuação) é escolhida logo no início do filme a primeira bailarina de uma companhia de balé novaiorquina após a aposentadoria de Beth MasIntyre (Winona Ryder), para interpretar os cisnes na peça "O Lago dos Cisnes".
Tudo bem pra Nina porque ela é uma profissional muito dedicada, versada nas técnicas, mas o que o diretor (Thomas Leroy, interpretado por Vincent Cassel) quer dela é paixão, é visceral, e ele tenta despertar nela sentimentos controversos, através do desprezo, da aceitação, da tensão sexual... A bailarina que deve interpretar “O Lago dos Cisnes” deve ser perfeita tanto na inocência e pureza do cisne branco, quanto na malícia e sensualidade do cisne negro; Nina é perfeita para o cisne branco, mas uma aparente rival, Lily, perfeita para o papel de cisne negro, e essa competição vai alucinar ainda mais Nina.
Afora isso Nina tem uma mãe super controladora e totalmente alucinada (Barbara Hershey, pasmem é a Lee do filme 'Hanna e suas irmãs' não dá pra acreditar!) que culpa a filha por suas frustrações, já que teve de largar o balé porque engravidou. Nina mora com a mãe e tem que enfrentar uma pressão enorme no trabalho (com o diretor e com o medo de ser substituída por não atender às suas expectativas) e outra também em casa e, claro, ela enlouquece nesse processo. Além disso, "Cisne" é feito pra incomodar, seja nas cenas nas quais Nina se fere, nos dedos, nas costas (fala a verdade aquela cena que ela vai puxando uma pele no dedo até chegar na mão, argh!!!) ou na sua casa, com a mãe sufocante, naquele quarto cheio de bichos de pelúcia, infantilizado, nas próprias atitudes de Nina, sua voz. 
Li que Aronofsky durante as filmagens procurou criar um clima ruim entre Natalie Portman e Mila Kunis (que vive Lily sua aparentemente rival) que são amigas na vida real, para que a rivalidade entre elas na tela fosse mais real, e acho que funciona, porque existe uma tensão grande entre as duas.
Aliás, "Cisne" me parece que tem muitos elementos de um terror (digo que parece porque é um gênero que eu não assisto, não consigo), nos desvarios e alucinações de Nina, nos espelhos que estão presentes em quase todo o filme, na figura do Cisne Negro. O filme é também repleto de duplos, seja o próprio Cisne Branco/Negro, além de Beth e Nina e Nina e Lily. 
O final é um êxtase, se tudo o que desejavam de Nina, em sua fragilidade emocional, era que ela se doasse, realmente sentisse, ela o fez da maneira mais visceral, sentiu tanto que se tornou o próprio Cisne Branco.
        Cisne Negro (Black Swan, EUA, 2011) *****