Mostrando postagens com marcador *****. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador *****. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 28 de junho de 2013

81º - "E se vivêssemos todos juntos?"

Há poucos anos Woody Allen, ao lançar um filme, deu algumas declarações divertidas sobre envelhecer, para ele a velhice é um mau negócio: "você não fica mais esperto, não fica mais sábio, não fica mais doce ou mais amável. Nada acontece de fato. Suas costas doem mais, você tem mais indigestão, sua visão não é boa, você precisa de ajuda para escutar. Envelhecer não traz, de fato, quaisquer vantagens. Não ficamos mais inteligentes nem mais generosos. Aceitem o meu conselho: evitem envelhecer".
Falar sobre velhice é sempre arriscado, é um assunto cheio de tabus. A verdade é que, se pudéssemos escolher, evitaríamos mesmo envelhecer: a saúde fica debilitada, a beleza se vai (porque já estão fora do padrão de beleza) e os velhos são marginalizados na nossa sociedade que, primando pelo trabalho (pela mão de obra, pelo dinheiro) desvaloriza àqueles que já não alimentam mais o sistema (mas se alimentam dele). Se antigamente (e isso ainda resiste, essencialmente em cidades pequenas) ao velho cabia o papel de interlocutor da tradição e da sabedoria de vida, nem isso lhe cabe mais. Ao mesmo tempo ser velho ficou ultrapassado, e as pessoas evitam ao máximo, prolongando a vida adulta com fórmulas milagrosas. Não dá para culpá-los, ninguém quer ser velho, porque todo mundo quer ser alguém e o velho é ninguém (estou aqui parafraseando Ecléa Bosi).
Mas ficar velho é realmente inevitável - para quem quer, e pode, continuar vivo - e por ser inevitável a velhice o assunto é evitável, porque dificilmente as pessoas querem olhar para um espelho, ainda que futuro, principalmente no cinema, num momento de lazer.
Por esses assuntos delicados e por outras questões (que eu já falei um pouco aqui) o cinema - que é o reflexo da nossa sociedade - também não quer falar de velhice e é raro ter um protagonista velho. Por todos os motivos listados acima, assistir a "E se vivêssemos todos juntos?" é um deleite. Além de todos os protagonistas serem velhos, de tratar os tabus da velhice, o filme mostra de uma maneira delicada, sincera e esperançosa o processo de envelhecimento, este é o enfoque do filme.
O filme mostra com uma sinceridade bonita e brutal temas e imagens que dificilmente vemos no cinema, os velhos ali lidam com uma dignidade incomum os problemas trazidos pelo envelhecimento. As imagens também são cristalinas, a câmera e os closes não evitam esconder as rugas e a aparência real, sem – ou com pouca – maquiagem (maquiagem aqui em vários sentidos).
Neste processo a proposta do filme é realmente tentadora: e se vivêssemos juntos? E se deixássemos de ser um problema e fôssemos a solução?
A história é sobre 5 amigos, quatro deles formam dois casais e o quinto, ...., foi amante das duas mulheres do grupo, há quarenta anos. Mas bem poderia ser na atualidade, porque "E se vivêssemos" fala, sem pudor e muitas vezes, sobre o sexo, sobre o desejo, sobre masturbação.
Claude (Claude Rich), o único solteiro do grupo, tem um ataque cardíaco quando está chegando ao quarto da garota de programa que visita - e fotografa - com certa frequência. Seu filho propõe ao pai que feche o apartamento no qual mora sozinho e passe a viver numa casa de repouso. Os amigos vão visitá-lo, mas diante da situação (que não é das piores, mas uma casa com velhos debilitados) resolvem levar embora o amigo e, assim, morarem juntos.
Outros amigos também estão doentes, como Albert (Pierre Richard) que está com problemas graves de memória e sua esposa, Jeanne (Jane Fonda, está linda como sempre) que está com câncer. Mas as doenças são meros coadjuvantes na história, elas fazem parte da vida, são lidadas com uma clareza e honestidade belíssimas.
Junto com esses acontecimentos tem Dirk (Daniel Bruhl de “Adeus, Lênin”, “Edukators” e “Bastardos Inglórios”) que é um estudante de etnologia e pretende fazer sua tese sobre o processo de envelhecimento dos aborígenes australianos, mas depois muda seu objeto (sujeito) de pesquisa para os europeus, e vai morar com os amigos a fim de fazer sua etnografia.
A cena de morte, também outro tabu, é tratada com humor e generosidade e a cena final é uma linda síntese de um filme que é todo coerente. Por aqui já estou cooptando meus amigos, "E se vivêssemos todos juntos?" é um filme, afinal, sobre esperança. 
E se vivêssemos todos juntos? (Et si on vivait tous ensemble?, França, 2012) *****

sábado, 22 de junho de 2013

79º - "Tempos Modernos"

Charles Chaplin, um dos maiores cineastas da história do cinema, provavelmente estaria feliz se estivesse no Brasil por estes dias. Produtor, diretor e roteirista do filme “Tempos Modernos”, Chaplin encontraria aqui elementos capazes de lhe gerar um novo filme. As inúmeras manifestações que borbulharam – e ainda borbulham – em várias cidades em nosso país são dignas de críticas – positivas e negativas. As pessoas vão às ruas por motivos difusos e confusos, não elegeram um líder ou um protagonista para glorificar ou crucificar. Mas as diferentes pautas giram em torno de uma grande insatisfação com nossa condição política – e, principalmente, urbana – que gerou grande mobilização da sociedade (incentivada pela internet/tecnologia).
“Tempos Modernos” é o retrato de uma urbanidade cruel aliada a uma desigualdade social perversa. Chaplin relata com humor, ironia e certa melancolia a realidade de uma classe social que, vivendo na sociedade industrial, encara níveis de pobreza, desemprego, fome.
Para contar a história do pobre Carlitos e sua namorada, Chaplin lança mão de diversas metáforas enquanto linguagem cinematográfica.
A cena inicial do filme mostra um bando de ovelhas indo para o abate e segue sobreposta com uma multidão de pessoas saindo do metrô e indo ao trabalho. Entre eles a “ovelha negra” Carlitos inicia o filme como um operário, que enlouquece diante do trabalho repetitivo e exaustivo, por ser tratado como uma engrenagem da máquina social. A cena clássica do filme – e do cinema – é uma metáfora, onde Carlitos é engolido por uma máquina, assim como o trabalhador é engolido pelo sistema capitalista de produção.
As metáforas pontuam o filme, essencialmente quando Carlitos e a namorada sonham com uma vida classe média/média alta, seja sonhando em ter uma casa, seja na loja quando Carlitos trabalha como vigia noturno e a garota dorme “em berço de ouro”.
Entretanto, baseado em perspectivas pessoais, a metáfora que eu elejo é a do final do filme, depois de todo sofrimento imposto ao casal pelas instituições sociais (como a polícia, o Estado, o capital) há ainda em Chaplin, através do casal, uma visão otimista. Quando o casal, juntos e de mãos dadas caminham, a estrada voltada para o infinito é a metáfora da esperança, mesmo com toda tristeza infinitas possibilidades ainda se apresentam e nelas a felicidade ainda pode ser encontrada.

Tempos Modernos (Modern Times, EUA, 1936) *****

segunda-feira, 18 de março de 2013

77° - "Um corpo que cai"


Definitivamente "Vertigo - um corpo que cai" é o melhor filme de Hitchcock. Tudo bem que eu ainda não conferi toda sua filmografia, mas é um filme com tantos elementos encantadores que fica difícil de bater. Pelo visto isso não é novidade - era pra mim - já que foi eleito ano passado o melhor filme de todos os tempos, numa eleição promovida por uma revista inglesa e que envolveu mais de 800 especialistas (o eterno "Cidadão Kane" perdeu o posto, está em segundo lugar).
É difícil falar de "Vertigo" sem oferecer spoiler. Tudo bem que, assim, eu não tenho muito cuidado mesmo na hora de escrever sobre os filmes, já que o blog é terapêutico para mim, como um diário, e também porque niguém pouca gente me lê.
E "Vertigo" apresenta tantas nuances que nem sei se vou dar conta de apresentar todas aqui, é um filme que a gente vê e quer rever em seguida (eu fiz isso) para tentar apreendê-lo melhor. O filme já começa apresentando Scottie (James Stewart, que também fez "Festim diabólico" e "A felicidade não secompra") um detetive da polícia em perseguição a um bandido em telhados, ele escorrega, quase cai, e um policial acaba caindo e morrendo quando tenta salvá-lo. Scottie desenvolve então acrofobia (medo de altura) e por isso se aposenta da polícia (a imagem da vertigem dele é muito bem feita). 
Um amigo de faculdade de Scottie o contrata para investigar sua esposa Madeleine Elster (Kim Novak), já que suspeita que ela está sofrendo uma espécie de transe por conta de um antepassado. Scottie a segue e descobre seus estranhos hábitos, na floricultura, no cemitério, no museu, tudo leva à figura de Charlotta, que depois Scottie descobre ser a bisavó de Madeleine que por infortúnios da vida se matou com 26 anos, e supostamente a mulher está sob sua influência tanto em sonhos quanto acordada, quando entra em transe e adotada esquisitos comportamentos, do qual não se lembra depois.
Com medo da esposa se matar como fez a bisavó, o amigo pede a Scottie que vigie sua mulher e ele o faz, inclusive a salvando quando se joga na Baia (numa cena linda esteticamente). Depois que a salva os dois começam a se envolver e se apaixonam.
Mas a paranoia de Madeleine não impede que ela suba na torre de uma igreja e se jogue lá de cima - Scottie não consegue salvá-la, pois por conta de sua acrofobia não consegue chegar ao topo da torre. Ele fica arrasado e vai parar numa clínica por conta de uma depressão profunda.
Depois, quando sai, procura frequentar os locais onde frequentava Madeleine, a vendo no rosto de várias mulheres, até que encontra uma, que apesar de ter hábitos diferentes, é muito parecida. Ele se aproxima dela, e só depois descobrimos que Judy é, na verdade, a própria Madeleine (ou a representação dela), que o marido contratou para fingir ser sua esposa e assim matar a verdadeira esposa (a que realmente caiu da torre da igreja) sem suspeitas, já que Scottie testemunhou o suposto suicídio (ele foi contratado por conta da sua doença e por ter certeza que ele não chegaria ao topo, muito alto).
A trama é muito bem amarrada (bem diferente de Pássaros), os personagens são complexos e o jogo psicológico de Hitchcock está lá, como sempre, com magnitude.
O filme é recheado de suspenses, de cenas psicodélicas que objetivam confundir aos espectadores: o que é realidade? o que realmente está acontecendo? e assim mostra a fragilidade da nossa mente e também nossas limitações, principalmente psicológicas.
Pra mim, já que também tenho medo de altura, o filme é de dar nervoso, principalmente nas cenas de vertigem do personagem, que são muito bem feitas (eu passei parte do filme com as mãos suando de nervoso).
Pela construção dos personagens, pela história tão bem construída e contada e pelas cenas que conseguem nos mostrar tão bem o ponto de vista do protagonista, por isto tudo, "Um corpo que cai" é imperdível.
Um corpo que cai (Vertigo, EUA, 1958) *****

sexta-feira, 15 de março de 2013

74° - "Um estranho no ninho"


Qual é a maior vilã da história do cinema? Para mim não há dúvidas: a enfermeira-chefe Ratched (Louise Fletcher) de "Um estranho no ninho", ela é muito má, e não é deste tipo que mata e fica fazendo planos mirabolantes para conquistar o mundo: ela vai nas sutilezas, nos detalhes, sempre com uma calma irônica, com um olhar debochado. Ela ainda se apropria de um grande poder que tem, faz jogos psicológicos com seus pacientes - que são considerados loucos e vivem numa clínica psiquiátrica controlada por ela - os mantendo lá; até que ponto ela tem interesse em curá-los ou mantê-los ali para saciar seu desejo de controle e poder; quem é mesmo o louco?
"Um estranho" trata de tantos assuntos delicados e pesados que é impossível não se maravilhar com a história, é chocante! Quantas vezes já vimos, na realidade, no cinema, pessoas tentando se passar por doidos para 'fugirem' da cadeia e cumprir sua pena num hospital? Para citar aqui, eu me lembrei do Johnny (do filme "Meu nome não é Johnny"). "Um estranho" começa justamente assim, Randle Patrick McMurphy (Jack Nicholson, fantástico, além de ser um ator incrível tem cara de doido mesmo, fala sério?! Só lembrar de "O iluminado") é um prisioneiro malandro, que foi preso por algazarra e estupro, que não quer saber de ter que trabalhar na prisão e então forja sua insanidade para ir a uma instituição para doentes mentais, onde passará por uma avaliação de especialistas que julgarão sua sanidade mental. 
Randle é bem malandro, não gosta de seguir ordens e tenta subverter a ordem rígida colocada por Ratched, a provocando. Junto com um grupo de mais oito pessoas, todos loucos, ele vai viver ali na clínica e desenvolve amizades. Isto porque Randle não é um cara ruim ou babaca, ele tem várias chances de fugir e não concluiu seu intuito por que: é malandro demais chegando a ser imbecil, por sua lealdade aos amigos e também, por que não? É também um pouco insano. Ele se revolta com as normas rígidas do hospital, e percebe que lá, apesar da aparência, a liberdade é ainda mais cerceada; ele tenta fugir arrancando uma grande pia do chão do banheiro, mas não tem força suficiente. Para Randle será tranquilo levar a situação e até divertido, eu me diverti bastante em várias passagens. E ele não é mole, tenta subverter a ordem todo o tempo, como quando fogem para pescar, e eles voltam, também provando que apesar de loucos eles conseguem conviver em sociedade, provando que não precisam se fechar na própria loucura.
A equipe médica atesta que Randle não é louco e pode voltar para a prisão, mas Ratched, num discurso pseudo, defende sua permanência, pois eles não podem desistir do ser humano. Balela, o que ela quer é controle, e logo Randle descobre que, se na prisão sua pena é determinada, ali no hospital ele só sairá quando a enfermeira-chefe atestar sua sanidade, ou seja... Ele resolve fugir junto com "chefe" um índio muito grande e muito forte que todos acreditavam ser surdo-mudo. A amizade de chefe e Randle é a mais bonita e a cena final do filme ("a la 'Amour'") é de arrasar, é maravilhosa: depois de sofrer uma lobotomia, pois Randle tenta matar Ratched (que provoca o suicídio de Billy Bibbit), o chefe diz a ele algo do tipo: "agora eu tenho força, você me deu isso, mas nós vamos juntos ser livres", então pega a pia pesada, joga na janela e foge ao horizonte, incrível, imperdível!
Um estranho no ninho (One flew over the Cuckoo's Nest, EUA, 1975) *****

sexta-feira, 8 de março de 2013

67° - "Thelma & Louise"


Hoje é dia internacional das mulheres, recebi muitos parabéns pela rua, mas é triste perceber que grande parte das pessoas, das mulheres, não tem consciência do que este dia representa, por que ele existe. A data tem a ver com a origem de manifestações de mulheres russas por melhores condições de trabalho, e embora seja clichê afirmar, no dia das mulheres eu não quero receber rosa na rua ou abraços de parabéns, eu quero receber respeito das pessoas, consciência das diferenças de gênero, mas da igualdade de tratamento, seja na vida social, na vida profissional. Eu tenho a sorte de viver rodeada por homens feministas como meu pai, meu marido, amigos, mas mesmo assim eu, que sou professora concursada, já me peguei olhando pra parede da sala de reuniões na instituição federal na qual leciono e vendo as fotos de todos os diretores que a instituição já teve, e não ter uma mulher sequer. Eu posso dizer que, infelizmente, por ser mulher e ser nova, muitas vezes fui menosprezada nas reuniões com maioria absoluta de homens, fui chamada de "minha filha", fui marginalizada. Para mim, na minha realidade, o machismo aparece em pequenos detalhes nos discursos do dia a dia, nas escolhas, nos silêncios. Então sim, vivemos numa sociedade machista e apesar de não ser militante, sou feminista de coração (enquanto o machismo prega a superioridade masculina o feminismo não é o contrário, não prega a superioridade feminina, mas a igualdade de tratamento entre os gêneros).
Sendo assim, minha homenagem ao dia das mulheres é apresentar o filme que considero um filme feminino e feminista. "Thelma & Louise" é um filme que já, desde a cena inicial, mostra a que veio, é a cena com uma paisagem bucólica muito bonita e uma estrada de terra, a cena que é apresentada vazia será reapresentada ao final do filme, no momento de perseguição da polícia. Logo depois já corta para a cena que apresenta Louise (Susan Sarandon), que é uma garçonete independente, organizada e amiga de Thelma (Geena Davis), que é uma mulher desorganizada, infantil e casada com um cara que é praticamente uma caricatura, se infelizmente a gente não soubesse que realmente existem maridos assim: além de tratar com descaso Thelma ele acha que ela é sua posse, um objeto (quando Thelma fala à Louise que tem que pedir permissão ao marido ela lhe pergunta: "ele é seu marido ou seu pai?").
Louise convida Thelma para passar o fim de semana no chalé de um gerente que está para se divorciar e empresta a casa para amigos antes de vendê-la, Thelma parte com Louise sem avisar ao marido. Então o filme se torna oficialmente um road-movie, e apesar de haver nele seus principais elementos: a estrada como uma metáfora para a transformação, é um road-movie centrado na fuga: num primeiro momento elas estão fugindo da vida, do marido e namorado, e depois literalmente fugindo da polícia.
Isso porque ao pararem num bar para beber um pouco e relaxar antes de seguir viagem, Thelma e Louise conhecem Harlan, um cara aparentemente com boas intenções, que se interessa por Thelma, lhe paga bebidas, a leva para dançar, mas quando ela se sente mal vai com ela pra fora do bar, no intuito de lhe ajudar, e tenta estuprá-la; quando ele está prestes a consumar o ato, Louise chega armada, ele larga Thelma e quando ambas estão indo embora ele lhe fala algumas bobagens - dessas que, infelizmente, não são novidades - do tipo "chupa meu pau"... e ela atira, é um êxtase!
Depois do acontecido Thelma tenta persuadir Louise a procurar a polícia para relatar o acontecido, mas ela já lhe garante: "ninguém acreditará em nós, você estava dançando com ele, ninguém acreditará que ele tentou te estuprar", taí uma verdade jogada na tela, muitas mulheres que são vítimas de violência sexual ainda levam a culpa, a vítima nunca é culpada, nem por sua roupa, nem por sua atitude: uma mulher pode estar nua ao lado de um homem e se disser não e o cara seguir em frente usando a força, contra a vontade da mulher, ainda assim será estupro, nada justifica um estupro além da própria maldade do estuprador!
Então as amigas precisam começar a pensar num plano de fuga que vai levar ainda em muitas confusões, é claro que a gente se simpatiza com Louise de cara, porque ela é forte, decidida, mas o melhor papel é de Thelma, ela sofre uma metamorfose radical no filme, se no começo era infantil, boba, inocente (chega a dar raiva, porque depois que ela sofre a violência sexual ainda dá mole com JD - Brad Pitt), mas depois ela se transforma depois que ela se resolve sexualmente (tem seu primeiro orgasmo com JD) ela se torna decidida, positiva, e troca de lugar com Louise, é muito bacana de ver.
No filme absolutamente feminino (o único Oscar que ganhou foi de melhor roteiro original, escrito por uma mulher) os poucos homens que aparecem são o gatilho de toda modificação (e confusão) que as amigas sofrem: seja o namorado de Louise, o marido de Thelma, Harlan, JD. O único homem que tem uma empatia com a situação delas é o policial Hal (Harvey Keitel). E ainda tem a ótima cena na qual elas explodem o caminhão, pode até ser exagerado, mas combina com o contexto e desenvolvimento do roteiro e, sinceramente, o caminhoneiro mereceu, é uma catarse para todas nós que já nos sentimos, em algum momento da vida, intimidadas por homens que passam por nós na rua falando palavras chulas, fazendo gestos obscenos (e sim isso é para intimidar, ou eles acreditam que nos convencerão a fazer sexo?). Nesse processo delicado de transformação o final não poderia ser melhor e mais bonito, porque infelizmente na vida delas e na postura que assumiram elas não tinham escolha, mas para nós, expectadoras, fica a esperança de que o conhecimento, que a consciência da nossa situação, é o principal fator de mudanças, viva as mulheres!
Thelma & Louise (EUA, 1991) *****

quarta-feira, 6 de março de 2013

65° - "O dorminhoco"



"Estou com dor de hostilidade e uma enxaqueca. Não vejo o meu psiquiatra há 200 anos. Ele era estritamente freudiano.... se tivesse esse tempo todo estaria curado agora."

Em "O dorminhoco" Woody Allen não só dirigiu, como interpretou o protagonista, escreveu o roteiro e compôs a trilha sonora, fala aí se ele não é incrível? E o filme é uma delícia de ver, super divertido, de um jeito que o Woody não é mais, meio pastelão, mas sempre, sempre com diálogos afinadíssimos. Aliás, os diálogos travados em "O dorminhoco" são tão bons que eu gostaria de transcrevê-los aqui, mas isso tomaria um tempo e dedicação que infelizmente não tenho no momento, são sempre em tons de humor, mas um humor ácido, sarcástico, que eu adoro!
No filme Miles Monroe é um novaiorquino, que toca clarinete e tem um restaurante natureba em 1973, ele precisa fazer uma operação simples, por conta de uma úlcera, só que ocorre um imprevisto, a equipe médica o "congela" e ele acorda 200 anos depois, em 2173. No futuro, como visto em outros filmes, a sociedade vive sob a guarda do "líder" num regime totalitário, já que as maravilhas da tecnologia serviram para controle da população - a identidade é totalmente controlada via tecnologia, digitais, fotos, mapeamento do que você pensa - e neste processo quem pensa diferente do previsto é capturado pela polícia para ter seu cérebro "simplificado eletronicamente".
Mas no futuro de Allen não há apenas coisas ruins, os hábitos alimentares, por exemplo, são nosso (meu) sonho de consumo: quando Miles Monroe acorda e pede no café da manhã germe de trigo, mel orgânico e barra de proteína a médica assusta, mas seu colega logo lhe explica,
""-Essas eram substâncias que no passado acreditava-se terem propriedades saudáveis.
- Quer dizer que não havia gordura pesada? Nem bife ou tortas ou calda de chocolate?
- Acreditava-se que isso não era saudável, precisamente o oposta da realidade."
Ahh, que delícia, nessa hora eu já estava convencida a me congelar e poder comer chocolate e torresmo à vontade... Mais tarde, quando Monroe conhece sua realidade, entra num colapso histérico e o médico lhe recomenda que fume um cigarro, pois é uma das melhores coisas para a saúde...
Além de cômico, o futuro de Allen é desses bem robotizados, com alta tecnologia, até o orgasmo é obtido numa máquina, já que todos os homens e mulheres são frígidos. Ainda há outros elementos, como uma bola que é como uma droga que passa de mão em mão, roupas flutuantes, carros como cápsula, etc.
Os médicos que "descongelaram" Monroe o fizeram por um motivo: fazer com que ele - que não tem sua identidade controlada - se junte aos rebeldes e ajude a fazer cair "o líder". Neste processo ele conhece Luna (Diane Keaton, lindíssima) que é uma pseudo intelectual, pseudo artista (como existem tantos por aí), poetisa, mas na verdade é fútil, só vive de festas, não questiona sua realidade e julga quem o faz (é graduada em poesia e técnicas sexuais e doutora em sexo oral, mas só faz sexo na máquina!!), mas seu encontro com Miles a faz perceber sua verdade e se unir ao grupo de rebeldes até o final que ela se junta à Miles, sorri e diz algo do tipo, 'eu vejo que você me ama de verdade, mas os relacionamentos não duram, existe um hormônio, já comprovado, que impede que o romance dure'. Mas para Miles não há problemas, pois não confia na ciência, nem na política, tampouco em Deus, acredita apena no sexo e na morte. Viva Woody, meu coração é seu!
O dorminhoco (Sleeper, EUA, 1973) *****

segunda-feira, 4 de março de 2013

63° - "Tomates verdes fritos"


"Tomates verdes fritos" foi um filme badalado na década de 1990. Eu me lembro de ouvir falar muito dele; não é por menos, é difícil não amar um filme que trata tão delicadamente de situações tão complicadas. Um filme cujas protagonistas são mulheres, mas que não é para “mulherzinhas”, com romances e amores. É um filme feminista, sobre a amizade entre mulheres e seu papel transformador.
"Tomates" se passa em duas épocas: a mais recente é concentrada em Evelyn Couch (Kathy Bates) uma mulher já na meia idade, gorda (falo gorda como um adjetivo, tenho que explicar porque, infelizmente - numa sociedade na qual ser gord@ é errado - é  uma palavra que chega a ser pejorativa)  e casada com um marido que não lhe dá nem um pouco de atenção, mas Evelyn é uma boa mulher e vai toda semana, junto com o marido, visitar sua tia que não gosta de visitas e nem de Evelyn. Então, colocada pra fora do quarto da tia do marido, Evelyn começa a andar pelo lar de idosos e conhece Ninny Threadgoode (Jessica Tandy, super gracinha neste filme, muito mais agradável e carismática que Miss Daisy). Ninny é muito educada e boa de prosa e logo começa a contar uma história que aconteceu há muito tempo para Evelyn. A história contada, então, nos remete para a outra época relatada no filme: a história de Idgie (Mary Stuart-Masterson) e Ruth Jamison (Mary-Louise Parker, a protagonista da série Weeds); a história das duas não foi fácil, envolve morte, violência doméstica, preconceito, racismo e por aí vai, mas as duas - isto na época 1920/1930 - conseguiram ter sua independência apesar de tudo e lutaram por seus ideais, Ruth se separou do marido violento, foi mãe solteira, Idgie que sempre foi fora dos padrões femininos (nunca se vestiu como se esperava de uma mulher), bebia, fumava e ambas conviviam abertamente com negros em seu estabelecimento.
Toda essa história contada por Ninny faz Evelyn se transformar. Ela que até então era uma dona de casa submissa que fazia cursos de mulher para mulheres apimentarem seus casamentos (piada!) começa a perceber a força que Idgie e Ruth tiveram numa época que as mulheres tinham um papel restritivo na sociedade; e assim Evelyn se liberta, encontra também sua força.
Além de tudo o filme, que é extremamente delicado e tem como protagonistas minorias sociais: mulheres, negras, uma senhora, uma mulher de meia idade e gorda, negros, gay (porque Idgie amava Ruth, vamos lá!), e dos pouquíssimos homens brancos heteros que aparecem, um é o marido canalha e violento de Ruth e outro é um bobão policial atrás de Frank Bennet (o marido de Ruth) e doido para incriminar Idgie e Big Joe (seu grande amigo, negro). E tem ainda Sipsey uma personagem linda, negra e velha e com uma ação central no filme, interpretada por Cicely Tyson, que também fez o ótimo "Histórias Cruzadas".
Tão bonito é ver que é Ninny (uma senhorinha super simpática, sempre com roupas e meias coloridas e All Star) é quem muda - através de histórias, assim como "Peixe Grande" - a vida de Evelyn, a faz ter mais consciência de si, a ser independente e a se amar. Evelyn deixe de se sentir inútil e fraca (palavras dela) até se perceber de outra forma, revelando um discurso meio histérico que é ótimo, quando ela acaba de bater no carro de duas bobocas e chega até Ninny dizendo que se sente ótima por ter perdido a razão, que se sente capaz de tudo, de eliminar do mundo os picaretas, de banir as modelos magras, de dar metade do orçamento militar para pessoas com mais de 65 anos e de declará-las sexualmente atraentes... Eu adorei. E no final das contas tudo que Evelyn quer é retribuir, é dar à Ninny todo o amor que ela o tem dado. Enfim, imperdível.
Tomates verdes fritos (Fried green tomatoes at the Whistle Stop Café, EUA, 1991) *****

sábado, 2 de março de 2013

61º - "Peixe grande e suas histórias maravilhosas"


Como hoje é dia do meu aniversário, estou ficando balzaquiana e isso talvez seja um dos motivos de ser deste blog, eu resolvi falar de um filme preferido. Acontece que ele não existe, eu tenho um conjunto de filmes preferidos, mas é difícil escolher apenas um. Acho que aproveitando a onda dos últimos filmes que comentei e por ser este um filme que trata de assuntos que eu muito me identifico, resolvi indicar hoje, no meu aniversário, a lindeza que é "Peixe grande e suas histórias maravilhosas".
Como boa pisciana que sou me sinto particularmente tocada porque "Peixe grande" fala da importância do sonho, da fantasia na nossa vida, sobre o que é realidade, sobre amor, afeto, amizade, perdão. E é, claro, meu filme predileto do Tim Burton, mas também seu filme menos polêmico (aliás sem polêmica), tem os elementos do diretor, a fantasia, os devaneios em histórias e imagens, mas é um filme que acho difícil alguém desgostar.
Basicamente "Peixe grande" está centrado na relação de pai e filho, se esta relação geralmente não é fácil, imagine quando os dois vivem em mundos completamente distintos. Enquanto o pai, Edward Bloom (vivido pelo gracinha do Ewan McGregor quando novo e por Albert Finney quando mais velho) vive num mundo inventado (e não é a toa que o filme começa com ele tentando pescar um grande peixe, porque a vida dele é uma história de pescador) enquanto o filho, jornalista, vive num mundo literal e é frustrado porque o pai não conta à ele suas histórias a partir da realidade (mas o que é realidade?). Pai e filho estão brigados, mas o pai está com câncer avançado e o filho, que mora na França, volta para poder conviver com pai. Neste processo o pai vai conversando com a nora, o filho e vai contando sua vida a partir da sua ótica. É lindo.
Tenho que confessar que gosto muito mais do Edward Bloom jovem do que o velho, porque Ewan McGregor é muito carismático, ele confere uma alma pro personagem que não vejo em Albert Finney, acho ele chato mesmo, todo carisma e empatia que senti com McGregor se perdeu com Finney que fez Bloom parecer um homem egocêntrico.
Quando vi o filme pela primeira vez chorei como criança, em vários momentos; lembrei muito de uma tia querida (tia Odete) que sempre me contava histórias antes de eu dormir e fiquei pensando no importante papel que essas pessoas têm na vida da gente, porque elas nos ensinam a sonhar, a imaginar, a colocar humor e amor nas coisas, a colorir. Neste sentido o filme é poesia pura.
E há sempre saídas interessantes para Bloom, seja na infância, em sua cidade natal, quando se perde em ... (que mais parece o céu), quando vai ao circo e conhece seu amor (Sandra Bloom, interpretada por Alison Lohman e por Jessica Lange) e diz: "é verdade que quando conhecemos o amor da nossa vida o tempo para" e a imagem que segue é linda. Aliás, o relacionamento de Bloom e sua esposa é lindíssimo, delicado, um amor bonito de ver, toda dificuldade que o filho tem de lidar com o pai é oposta na tolerância e no amor que Sandra tem no olhar à Bloom.
A cena final é belíssima, para ficar com olho inchado, é muito bonito ver o pai, enfim peixe grande, e depois o filho conhecendo as figuras descritas pelo pai e percebendo que elas existiram, de algum modo.
Porque no filme vemos a importância de sonhar na vida e porque isso é o que eu quero neste meu novo ano de vida:
Peixe grande e suas histórias maravilhosas (Big Fish, EUA, 2003) *****

sexta-feira, 1 de março de 2013

60° - "A vida dos outros"


"A vida dos outros" é bem parecido com "Fahrenheit 451" e tão bom quanto. Isso não é algo simples de dizer, porque são dois filmes bons demais, desses imperdíveis na vida! O que os dois têm de mais próximo é o mais bonito neles, que regimes autoritários constroem cidadãos que realmente acreditam na ideologia pregada, que são manipulados (via educação) para acreditar que o governo está completamente correto em suas ideologias, e que os subversivos são uma pedra no sapato, atrapalhando a paz e a concretude dos ideais ditatoriais (e o ótimo "A Onda" mostra direitinho como isso é - facilmente - construído), e que por isso, por serem considerados vilões do próprio povo, podem ser submetidos à tortura e a condições de violação total de direitos e de liberdades. 
Não sei se é fácil compreender, porque é preciso relativizar, entender que tanto Montag  ("Fahrenheit 451") quanto Wiesler ("A vida dos outros") foram, também, vítimas do próprio sistema, foram manipulados para acreditar que o que faziam é certo, é em busca de um ideal (e de forma matizada ainda hoje, quantas instituições políticas se revestem com capas idealistas?). Se em "Fahrenheit 451" a sociedade vivia sob um regime totalitário, mas que não conhecemos muito bem, em "A vida" é retratado uma época real e recente, que foi a ditadura socialista da Alemanha Oriental (que contradição, pra quem nunca estudou Marx e se baseia apenas em filmes ou na TV não tem acesso aos ideias socialistas, que nada tinham a ver com autoritarismo e violência do Estado, ao contrário, previa a própria extinção deste).
Mas "A vida" ainda tem outras histórias tão interessantes quanto a de Wieler. No início do filme somos apresentados à Gerd Wiesler (Ulrich Muhe) que é um profissional do Estado dedicado, professor e perito em interrogatórios e em vigiar aqueles indivíduos suspeitos de propagar contra o Estado. Georg Dreyman (Sebastian Koch) é o maior dramaturgo da Alemanha Oriental, e realmente acredita nas políticas do governo e não o contesta em suas obras; acontece que Hempf, um ministro poderoso se interessa pela namorada de Dreyman, Christa-Maria Sieland (Martina Gedeck) e então pede que Dreyman seja monitorado, pois acredita que achará algo que o porá na cadeia e facilitará sua aproximação com Christa-Maria. Wiesler, que desconhece os propósitos pessoais do ministro, coloca escutas por toda a casa de Dreyman e começa a monitorá-lo 24 horas por dia. Neste processo, Wiesler percebe que Dreyman não é um traidor do Estado, e, além disso, vai percebendo suas tristezas e injustiças (há uma cena linda, quando Dreyman acabou de saber que seu amigo está morto vai ao piano, toca a "sonata Appassionata" de Beethoven e conta que Lenin certa vez disse "se eu continuar escutando essa peça não levarei a cabo a revolução" e quando Wiesler escuta a música também começa a hesitar).
O ministro Hempf (ai dá um ódio dele) começa a seguir Christa- Maria e a estupra regularmente, chantageando-a, é horrível e ao mesmo tempo é uma delicadeza perceber em Wiesler a compreensão de quem é realmente vilão na história, ele percebe os propósitos puramente políticos e pessoais - e nada ideológicos - da empreitada que lhe foi conferida. Paralelamente Dreyman, que realmente acreditava no regime começa a se revoltar contra, a partir da situação de sua namorada (ele percebe o que está acontecendo) e do suicídio de um amigo, que era diretor de suas peças, mas foi afastado do cargo pelo governo. 
O final do filme é de uma delicadeza, de uma beleza que é difícil colocar em palavras, só vendo mesmo... Mas a beleza do filme (que é de chorar, eu chorei em várias partes, todas as vezes que vi) é mostrar as complexidades do ser humano, nossa falibilidade, onde estão concentradas as nossas crenças e o contraste delas com a realidade, lindo!
A vida dos outros (Das Leben der Anderen, Alemanha, 2006) *****

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

58° - "Fahrenheit 451"


Eu tô pra dizer que "Fahrenheit 451" é o melhor filme que eu já vi! Estou impactada com tanta beleza!! A história do filme é incrível! O roteiro e a direção são de Truffaut, e ele se baseou num livro de Ray Bradbury com o mesmo nome, lançado próximo ao “1984” de Geroge Orwell. 
Eu não li o livro, mas o filme é ótimo, quase duas horas de uma história que emociona demais... “Fahrenheit 451” (que é a temperatura na qual os livros começam a entrar em combustão) é ambientado num futuro dominado por um regime totalitarista (e achei um futuro, pense que o filme é de 1966, com elementos bem próximos ao que vivemos hoje, sem exageros) onde Montag (interpretado por Oskar Werner, o loirinho do "Jules and Jim") é um bombeiro, bom profissional, cuja função é queimar livros. Isto porque os livros são proibidos (escrever ou ler também, como na cena na qual Montag está vendo um jornal, com uma história em quadrinhos apenas com desenhos), quem os lê ou os têm é considerado um infrator. Sendo assim, num futuro onde as casas já não pegam mais fogo, o trabalho dos bombeiros é incendiar, não apagar; olha e é bem duro ter que ver a quantidade de livros que são queimados no filme, para causar desconforto mesmo, tem closes e mais closes nos livros queimando, página por página de Flaubert, Dostoiévski, Lewis Carrol, Dalí, ... (dá um aperto no coração).
Se por um lado os livros são proibidos, as TVs são muito mais que estimuladas, são o lazer obrigatório para a população, e a crítica da manipulação da mídia é evidente, na figura da mulher de Montag (vivida por Julie Christie, que parece a Gina dos palitos) que é totalmente alienada. A cena na qual ela acha que está interagindo com um programa de TV me lembrou demais programas que estão tão em evidência hoje, como Big Brother, The Voice, e por aí vai que dão uma ilusão de que os telespectador dialoga diretamente com a programação, que faz parte efetiva dela (volto a lembrar que o filme é de 1966, o livro de 1953, já prevendo esta realidade que é mais recente). 
Neste regime totalitarista (não vemos quem é o ditador, os que estão no poder) a liberdade de decisão e de pensamento das pessoas é totalmente cerceada, seja pela TV, na educação, na coação, na medicação (as pessoas são induzidas a tomar remédios que controlem suas sensações e emoções) e até numa cena estranha, quando a esposa de Montag sofre um envenenamento de tanto remédio e os enfermeiros trocam seu sangue, cuja consequência é quase uma lavagem cerebral. Na verdade as pessoas se esquecem, não têm memória, não têm grandes sofrimentos ou grandes alegrias, são robôs, totalmente controlados.
É claro que neste cenário os livros serão proibidos, pois a leitura tira da inércia e faz pensar, pois conhecimento é poder. O mais interessante aqui são os argumentos utilizados pelos bombeiros para que os livros sejam proibidos, porque são subversivos, porque te levam a ver um mundo que você nunca poderá viver e por isso te tornará infeliz (isto porque num mundo de controle sonhar é uma contravenção).
É claro que os bombeiros proferem o discurso porque foram treinados para isso, como mostra bem na academia de bombeiros, eles são induzidos a acreditar que aquela é a melhor maneira de viver (poxa, como parece com "A vida dos outros", ou melhor, "A vida" parece com "Fahrenheit"). Montag também fazia parte deste grupo, até que um dia conhece no metrô, voltando para casa, Clarisse (também interpretada por Julie Christie, que é a Lara de "Doutor Jivago") sua vizinha conversadeira e lá pelas tantas lhe pergunta: "você nunca teve curiosidade de ler um livro antes de queimá-lo?", pronto o processo é irreversível, Montag começa a ler, a questionar sua realidade, a mudar seu comportamento em casa e no trabalho...
A maior beleza no filme são os homens-livro, quando Montag se atrapalha e acaba matando seu chefe para não ter que queimar seu livro preferido (Histórias de Mistério e Imaginação de Edgar Allan Poe) ele tem que fugir e acaba chegando num dos acampamentos onde vivem os homens-livros, são pessoas apaixonadas por livros, sendo que cada uma delas decorou seu livro favorito - em seguida o queimou - para que um dia, no fim da repressão, eles pudessem recitar os livros e publicá-los novamente. Neste acampamento, o nome próprio vira o nome do próprio livro, e eles são vistos como relíquias, porque carregam com si o maior tesouro que possa existir (ahh!). Tem uma cena lindíssima, de um senhor acamado, quase morrendo, mas antes precisa ditar e fazer seu sobrinho - um garoto - decorar o seu livro. E assim, de todas as riquezas que eu vi nessas quase duas horas de filme, a mensagem do final é realmente cativante: que há esperança no ser humano, na sua fé nas palavras e na beleza do conhecimento.
Fahrenheit 451 (Reino Unido, França, 1966) *****

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

51º - "Cisne Negro"


"What did you do?
I felt it."

Ontem eu revi, meio sem querer querendo, "Cisne Negro" que eu só tinha visto pelo cinema; é que, apesar do filme ser realmente incrível ele é tão impactante que não dá pra assistir a qualquer hora. Além disso, "Cisne" é feito pra incomodar, a gente sente a mesma dor de Nina e é envolvido em suas alucinações. O filme é puro delírio, é fantástico e, incrivelmente, eu gostei dele ainda mais quando o assisti pela segunda vez, certamente um dos meus preferidos. 
Em "Cisne" Aronofsky (diretor também de “Pi”, “Réquiem para um sonho” e “O lutador”)  escolheu falar sobre a dedicação, literalmente "se matando de tanto trabalhar" e escolheu certinho ao falar do universo do balé. Para ser bailarino é preciso uma dedicação militar, muito treino, muito esforço, muita entrega. Nina (Natalie Portman que merecidamente ganhou o Oscar por sua atuação) é escolhida logo no início do filme a primeira bailarina de uma companhia de balé novaiorquina após a aposentadoria de Beth MasIntyre (Winona Ryder), para interpretar os cisnes na peça "O Lago dos Cisnes".
Tudo bem pra Nina porque ela é uma profissional muito dedicada, versada nas técnicas, mas o que o diretor (Thomas Leroy, interpretado por Vincent Cassel) quer dela é paixão, é visceral, e ele tenta despertar nela sentimentos controversos, através do desprezo, da aceitação, da tensão sexual... A bailarina que deve interpretar “O Lago dos Cisnes” deve ser perfeita tanto na inocência e pureza do cisne branco, quanto na malícia e sensualidade do cisne negro; Nina é perfeita para o cisne branco, mas uma aparente rival, Lily, perfeita para o papel de cisne negro, e essa competição vai alucinar ainda mais Nina.
Afora isso Nina tem uma mãe super controladora e totalmente alucinada (Barbara Hershey, pasmem é a Lee do filme 'Hanna e suas irmãs' não dá pra acreditar!) que culpa a filha por suas frustrações, já que teve de largar o balé porque engravidou. Nina mora com a mãe e tem que enfrentar uma pressão enorme no trabalho (com o diretor e com o medo de ser substituída por não atender às suas expectativas) e outra também em casa e, claro, ela enlouquece nesse processo. Além disso, "Cisne" é feito pra incomodar, seja nas cenas nas quais Nina se fere, nos dedos, nas costas (fala a verdade aquela cena que ela vai puxando uma pele no dedo até chegar na mão, argh!!!) ou na sua casa, com a mãe sufocante, naquele quarto cheio de bichos de pelúcia, infantilizado, nas próprias atitudes de Nina, sua voz. 
Li que Aronofsky durante as filmagens procurou criar um clima ruim entre Natalie Portman e Mila Kunis (que vive Lily sua aparentemente rival) que são amigas na vida real, para que a rivalidade entre elas na tela fosse mais real, e acho que funciona, porque existe uma tensão grande entre as duas.
Aliás, "Cisne" me parece que tem muitos elementos de um terror (digo que parece porque é um gênero que eu não assisto, não consigo), nos desvarios e alucinações de Nina, nos espelhos que estão presentes em quase todo o filme, na figura do Cisne Negro. O filme é também repleto de duplos, seja o próprio Cisne Branco/Negro, além de Beth e Nina e Nina e Lily. 
O final é um êxtase, se tudo o que desejavam de Nina, em sua fragilidade emocional, era que ela se doasse, realmente sentisse, ela o fez da maneira mais visceral, sentiu tanto que se tornou o próprio Cisne Branco.
        Cisne Negro (Black Swan, EUA, 2011) ***** 

sábado, 16 de fevereiro de 2013

47º - "Hannah e suas irmãs"


João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém... "Hannah e suas irmãs" é assim, uma quadrilha como a de Drummond. Woody Allen quer mesmo mostrar como o nosso "coração é um músculo muito elástico", como Mickey, seu personagem, fala no final do filme. Centrado nas complexidades do ser humano e nas suas relações, é provável que "Hannah" concentre uma grande síntese do trabalho de Allen.

Passado, claro, em Manhattan e com vários takes em pontos centrais como o Central Park, o filme conta a história de Hannah (Mia Farrow) e sua família, em especial suas irmãs, Lee (Barbara Hershey) e Holly (Dianne Wiest). O marido de Hannah (Elliot) está apaixonado por Lee e o ex-marido de Hannah (Mickey) se casa com Holly. Nessa miscelânea de sentimentos e relacionamentos o que está em jogo é a beleza da imperfeição humana, tanto é que a personagem mais criticada é a própria Hannah, porque se anula para fazer feliz os que estão à sua volta, criando uma imagem de pessoa perfeita, e aparentemente é: Hannah é boa filha, boa irmã, boa mãe, boa ex-mulher, boa atriz, bem sucedida, mas por isso mesmo, desinteressante; as irmãs, ao contrário: Lee é a irmã mais nova, ex-alcoólatra, perdida em sua vida profissional e que tem um namorado que a controla; Holly também é perdida na vida, tentou ser atriz, dona de buffet, usava cocaína. Na revoltante perfeição de Hannah, está a grande sacada do filme, precisamos conviver com pessoas imperfeitas como nós, precisamos de certo conforto de sermos necessários, o marido de Hannah diz a ela "é difícil estar com alguém que dá tanto e não quer nada".

Apresentado em várias narrações - em diferentes momentos é um personagem que narra um pedaço de sua história e seus sentimentos - o filme apresenta as situações que as irmãs estão vivendo, lidando com suas frustrações e seus desejos. Mickey (Woody) que casa mais ao final do filme com Holly é um personagem cuja história é contata em paralelo com as outras, é um personagem cômico, muito divertido, no melhor jeito Woody Allen de ser (que eu amo, mas convenhamos, não é bom ator, está sempre fazendo ele mesmo), trabalha na TV com algo que não gosta e é hipocondríaco e histérico. Quando descobre a possibilidade de estar realmente doente começa a questionar a existência de Deus, o que rende cenas divertidíssimas, como ele falando aos pais que irá se converter ao catolicismo (já que ele acha uma religião forte e estruturada e tem afinidade, mas com "a ala anticatecismo, pró-aborto e antinuclear"), a mãe judia sai correndo se tranca no quarto chorando... Depois ainda procura os hare krishna, mas ao final, depois de quase se matar porque não conseguia entender o real motivo da vida, se há continuação ou se Deus existe, ele encontra sua resposta no cinema (ah!) quando se pergunta: e se Deus realmente não existir? E se nós só vivemos uma vez? E se convence de que o importante mesmo é ter a experiência de viver.
É divertido perceber, um filme de 1986, as diferenças nos figurinos (que já não são o forte dos filmes de Woody) e nos penteados. Creio que foi o segundo filme (atrás de “Noivo neurótico, noiva nervosa”) com mais indicações e prêmios Oscar de Allen, que nunca compareceu à cerimônia quando foi indicado, indo apenas em 2002, para fazer uma homenagem à NY após o atentado de 11 de setembro.
Como só mesmo Woody sabe fazer, “Hannah” mostra a delicadeza que são as relações humanas e como a vida é surpreendente e encantadora.
Hannah e suas irmãs (Hannah and her sisters, EUA, 1986) *****
“Seu olhar mais fugaz
Facilmente me revela
Embora eu já tenha
Me fechado, com o dedos
Você sempre me abre
Pétala por pétala
Como a primavera abre
Tocando habilmente
Misteriosamente
Sua primeira rosa
Não sei o que você tem
Que me abre e me fecha
Somente algo
Em mim entende
Que a voz de seus olhos
É mais profunda
Do que todas as rosas
Ninguém
Nem mesmo a chuva
Tem mãos tão pequenas”
(Somewhere I have never travelled, gladly beyond, E.E. Cummings)