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segunda-feira, 24 de junho de 2013

80° - "Millennium: Os homens que não amavam as mulheres"

O fim de semana passou e eu tive a agradável surpresa de que os canais HBO e MAX estavam liberados e combinavam perfeitamente com um domingo nublado. Então, ao final da noite eu resolvi rever "Millennium: Os homens que não amavam as mulheres" que eu tinha visto no cinema. Eu adoro a trilogia, li os livros e vi a trilogia sueca (país de origem do escritor Stieg Larsson e onde se desenrola a trama). Na maioria das situações eu levantaria a bandeira sueca, pois o filme além de ser americano, foi refilmado pouco tempo depois (cerca de 3 anos). Pra quê? Deveria ser feito? 
Entretanto eu tenho um carinho especial por essa versão americana, pois foi por ela que eu conheci a trilogia e me apaixonei. Lembro que saí do cinema encantada com a história, e lembro também que, ao longo das 2 horas e 40 min de filme, algumas pessoas foram deixando a sala, em especial na cena de estupro da Lisbeth; isto acontece porque apesar de "Millennium" ser americano, ele não nos poupa nas cenas de sexo e violência, sendo fiel ao livro. Na cena inicial já dá pra perceber que algo é diferente, numa mistura psicodélica dos personagens ao som de "Immigrant Song" do Led Zeppelin.
Mas vamos aos motivos pelos quais eu gosto tanto desta trama: Larsson é sueco e escreve a partir das suas perspectivas culturais, no filme é sutil, mas no livro é evidente: o autor montou uma trama na qual homens e mulheres têm o mesmo papel, são inteligentes, forte e têm poder. Aliás, acho que as mulheres são mais fortes do que os homens, apesar de Mikael Blomkvist (Daniel Craig) ser inteligente e sedutor (praticamente todas as mulheres da trama têm uma queda por ele), quase todos os outros homens ou são fracos ou são ruins. Às mulheres cabem os papéis protagonistas, de editora-chefe, de policial e investigadora (que resolvem as crises, mas nos outros livros) e, claro, de Lisbeth Salander. Ela é a protagonista, as histórias giram em torno dela (especialmente nos outros dois livros: "A menina que brincava com fogo" e "A rainha do castelo de ar"). Aliás, eu li uma reportagem com a mulher (companheira) de Larsson (ele morreu de ataque cardíaco em 201... com 50 anos) se colocando contra esse nome terrível que arrumaram para a obra, originalmente "A garota com a tatuagem de dragão" para "Os homens que não amavam as mulheres", percebam que neste nome aportuguesado a ênfase está nos homens e na atitude misógina. Mas isto é reduzir demais uma história que é sobre suspenses, sobre serial killers, mas está longe de ser só isto.
Lisbeth é uma heroína atípica, é franzina, esquisita, coberta por tatuagens e piercings, sem nenhum traquejo social e cheia de traumas psicológicos motivados por seu pai. Mas ela é extremamente inteligente e forte (fisicamente), é ela quem salva o mocinho no final do filme, não o contrário.

A sinopse é sobre uma mulher (Harriet Vanger) que sumiu há 36 anos, sobrinha do rico Henrik Vanger (Christopher Plummer), mas seu sumiço não pode ser esquecido pelo tio, já que em todo aniversário de Harriet, a cada ano, o tio recebe um quadro com um desenho como era hábito de sua sobrinha. Intrigado, mesmo após tantos anos, Henrik contrata o jornalista Mikael Blomkvist que com a ajuda de Lisbeth Salander solucionarão o caso. Mas gente, não vejam o filme baseado nesta sinopse que é quase um déjà-vú, o filme é muito mais que isso e essa diferença cultural nos permite uma experiência fílmica diferente, envolve questões de gênero, discussões sobre a mídia, sobre corrupção. Só não gosto do final – que aliás é fiel ao livro – pois acho que é desnecessário e contrário à personagem (Lisbeth) tão bem construída no filme, de qualquer maneira não tira o mérito da história.
Millennium: Os homens que não amavam as mulheres (The girl with the dragon tatoo, EUA, 2012) ****

segunda-feira, 18 de março de 2013

77° - "Um corpo que cai"


Definitivamente "Vertigo - um corpo que cai" é o melhor filme de Hitchcock. Tudo bem que eu ainda não conferi toda sua filmografia, mas é um filme com tantos elementos encantadores que fica difícil de bater. Pelo visto isso não é novidade - era pra mim - já que foi eleito ano passado o melhor filme de todos os tempos, numa eleição promovida por uma revista inglesa e que envolveu mais de 800 especialistas (o eterno "Cidadão Kane" perdeu o posto, está em segundo lugar).
É difícil falar de "Vertigo" sem oferecer spoiler. Tudo bem que, assim, eu não tenho muito cuidado mesmo na hora de escrever sobre os filmes, já que o blog é terapêutico para mim, como um diário, e também porque niguém pouca gente me lê.
E "Vertigo" apresenta tantas nuances que nem sei se vou dar conta de apresentar todas aqui, é um filme que a gente vê e quer rever em seguida (eu fiz isso) para tentar apreendê-lo melhor. O filme já começa apresentando Scottie (James Stewart, que também fez "Festim diabólico" e "A felicidade não secompra") um detetive da polícia em perseguição a um bandido em telhados, ele escorrega, quase cai, e um policial acaba caindo e morrendo quando tenta salvá-lo. Scottie desenvolve então acrofobia (medo de altura) e por isso se aposenta da polícia (a imagem da vertigem dele é muito bem feita). 
Um amigo de faculdade de Scottie o contrata para investigar sua esposa Madeleine Elster (Kim Novak), já que suspeita que ela está sofrendo uma espécie de transe por conta de um antepassado. Scottie a segue e descobre seus estranhos hábitos, na floricultura, no cemitério, no museu, tudo leva à figura de Charlotta, que depois Scottie descobre ser a bisavó de Madeleine que por infortúnios da vida se matou com 26 anos, e supostamente a mulher está sob sua influência tanto em sonhos quanto acordada, quando entra em transe e adotada esquisitos comportamentos, do qual não se lembra depois.
Com medo da esposa se matar como fez a bisavó, o amigo pede a Scottie que vigie sua mulher e ele o faz, inclusive a salvando quando se joga na Baia (numa cena linda esteticamente). Depois que a salva os dois começam a se envolver e se apaixonam.
Mas a paranoia de Madeleine não impede que ela suba na torre de uma igreja e se jogue lá de cima - Scottie não consegue salvá-la, pois por conta de sua acrofobia não consegue chegar ao topo da torre. Ele fica arrasado e vai parar numa clínica por conta de uma depressão profunda.
Depois, quando sai, procura frequentar os locais onde frequentava Madeleine, a vendo no rosto de várias mulheres, até que encontra uma, que apesar de ter hábitos diferentes, é muito parecida. Ele se aproxima dela, e só depois descobrimos que Judy é, na verdade, a própria Madeleine (ou a representação dela), que o marido contratou para fingir ser sua esposa e assim matar a verdadeira esposa (a que realmente caiu da torre da igreja) sem suspeitas, já que Scottie testemunhou o suposto suicídio (ele foi contratado por conta da sua doença e por ter certeza que ele não chegaria ao topo, muito alto).
A trama é muito bem amarrada (bem diferente de Pássaros), os personagens são complexos e o jogo psicológico de Hitchcock está lá, como sempre, com magnitude.
O filme é recheado de suspenses, de cenas psicodélicas que objetivam confundir aos espectadores: o que é realidade? o que realmente está acontecendo? e assim mostra a fragilidade da nossa mente e também nossas limitações, principalmente psicológicas.
Pra mim, já que também tenho medo de altura, o filme é de dar nervoso, principalmente nas cenas de vertigem do personagem, que são muito bem feitas (eu passei parte do filme com as mãos suando de nervoso).
Pela construção dos personagens, pela história tão bem construída e contada e pelas cenas que conseguem nos mostrar tão bem o ponto de vista do protagonista, por isto tudo, "Um corpo que cai" é imperdível.
Um corpo que cai (Vertigo, EUA, 1958) *****

domingo, 3 de março de 2013

62º - "Coisas belas e sujas"



"Nada é tão perigoso quanto um homem virtuoso"

Ahh Londres, cidade do 1º mundo, Hyde Park, Big Ben, London Eye, com seu povo pontual e correto, com sua monarquia sofisticada, certo? Não para "Coisas belas e sujas". Aqui no filme de Stephen Frears, o que aparece é a Londres marginal, composta por quem sequer tem direito a ser encarado como pessoa, os imigrantes ilegais. São vários durante o filme: turcos, espanhol, russo, chinês, nigeriano... E para os que (sobre)vivem fora da lei, a Londres apresentada é também uma cidade sem lei, sem escrúpulos. E se é difícil para um homem sobreviver como ilegal, imagine para uma mulher que tem que ser submetidas a outros tipos de violência. Audrey Tautou (que aparece neste longa logo depois de ter o sucesso todo com a delicinha e marcante Amélie Poulain, interpreta neste filme Senay uma imigrante turca) que era virgem por convicções religiosas e estuprada duas vezes em dois momentos diferentes por dois homens; triste.
Mas apesar da dureza de temas, o filme não é tão pesado, porque ele está centrado em ações e também no amor. "Coisas belas e sujas" é sobre as histórias desses imigrantes, centrada principalmente em Okwe (Chiwetel Ejifor) que é um médico nigeriano e por questões políticas de seu país tem que fugir. Okwe trabalha como motorista de táxi e como recepcionista num hotel, e não dorme (vive sob efeito de uma erva para não dormir). Acontece que um dia Okwe descobre um coração humano que entupia um vaso sanitário, e a partir daí descobre um esquema de tráfico de órgãos. Num país onde a mão de obra imigrante (ou não) já é tão abundante e barata, o que sobra é vender - literalmente - o próprio corpo; assim alguns imigrantes vendem seus rins (sendo operados em situações degradantes no próprio hotel) em troca de um passaporte que lhe permitem viver livremente.
Senay trabalha como camareira no hotel e cede seu sofá para Okwe descansar (porque ele não dorme), e durante o filme desenvolvem um amor, bonito, fruto das enormes dificuldades que vivem; aliás é possível ver que os próprios imigrantes se aproximam, se solidarizam uns com outros.
A capa do filme é terrível, não tem nada
a ver com o filme, nem com a personagem
de Audrey
Como filme de suspense que é, o final é um deleite, mas não é clichê. O vilão - o gerente do hotel - leva o troco da melhor maneira possível, perdendo seu próprio rim. E é quando Okwe vai entregar o rim que aparece um genuíno inglês, quando estão juntos Okwe, Senay e Juliette (uma prostituta boa gente que Okwe também ajuda), o inglês lhe pergunta: "como é que nunca vi você antes?", e ele lhe devolve: "porque somos gente que vocês não vêem. Nós dirigimos seus táxis, limpamos seus quartos, chupamos seus paus."
Coisas belas e sujas (Dirty Pretty Thing, Reino Unido, 2002) ****

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

59° - "O nome da rosa"


Dando sequências aos filmes que tratam da influência dos livros na sociedade, resolvi falar de "O nome da rosa" que é um filme muito conhecido do público (seja por preferência, seja por indicação de professores de história/filosofia). Isso porque o filme é muito bom, e narra uma história de mistério e suspense ambientada na Idade Média; então é um filme que tem uma história interessante e que revela o cenário que a Europa vivia no ano 1300. 
William de Baskerville (Sean Connery) é um franciscano que é chamado a um mosteiro beneditino italiano (que continha o maior acervo cristão do mundo) para desvendar uma série de crimes que vêm ocorrendo no mosteiro, os corpos são encontrados sempre com a ponta de um dedo e a língua pretos; e os monges atribuem o fato ao demônio, enquanto que Baskerville com recursos de investigação a la Sherlock Holmes irá procurar as evidências que levam ao assassino e ao motivo dos crimes.
Como pano de fundo da história percebemos as crueldades praticadas pela Igreja Católica, se no filme de ontem o regime totalitário cerceava a liberdade dos indivíduos, aqui, em "O nome" esse papel é da Igreja, o que nos deixa um pouco desesperançosos porque percebemos que, sempre na história que um homem ou Instituição teve muito poder ele se valeu disso para criar ambientes de terror e grandes injustiças, e o que vemos a Igreja fazer no filme é de uma crueldade sem fim, com bichos, com os pobres, com os próprios clérigos. E veja bem, se não é muito fácil ser mulher hoje em dia, vou te dizer que em 1327 era praticamente impossível, a figura da mulher é completamente associada ao errado, ao demônio, à bruxaria, ao pecado, quando a menina - a única mulher do filme - é pega com um monge (em troca de comida) a culpa é dela porque ela é provocadora do pecado.
Mas os absurdos não param aí, as violências que os monges praticavam com o povo, vivendo na farturas, enquanto o povo na total miséria e descaso; a inquisição com o falso julgamento, já que um único homem decidia o que era heresia, manipulando, torturando, fazendo maldades. A melhor cena é quando os franciscanos estão discutindo com outro tipo de doutrina católica (não sei qual, mas estão todos muito bem vestidos, cheios de pomba, coloridos e com ouro) e os franciscanos argumentam que Cristo não viveu na riqueza enquanto o povo vivia na miséria...
Mas o interessante aqui é que o filme mostra porque a Igreja se entendia desta forma e, claro, não tem nada a ver com Jesus ou com a bíblia, mas com os homens, que até hoje interpretam a bíblia a partir de seus interesses.
E é incrível quando Baskerville e seu pupilo Adso de Melk (Chritian Slater) encontram a biblioteca que fica escondida no porão e é enorme, um labirinto. Baskerville fica fascinado com a quantidade de livros e com seus conteúdos e fala para Adso:
“- Ninguém deveria ser proibido de consultar esses livros
- Talvez eles sejam considerados preciosos e frágeis demais
- Não, não é isso, é porque eles têm uma sabedoria diferente da nossa e odeias que nos fariam por em dúvida a infalibilidade da palavra de Deus”
E é esta reflexão que o leva à origem dos crimes, há um livro considerado proibido, e todos que o encontram e leram foram mortos (porque havia veneno nas páginas), o livro proibido é "o riso" de Aristóteles (título inventado por Humberto Eco, escritor do livro que originou o filme) e sua leitura proibida porque rir afasta o temor, e sem temor não pode haver fé! 
Outra vez, mais um filme que mostra como o conhecimento é perigoso para o autoritarismo, e como a leitura liberta e dá poder.
O nome da rosa (Le nom de la rose, França, Itália, Alemanha, 1986) ****

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

51º - "Cisne Negro"


"What did you do?
I felt it."

Ontem eu revi, meio sem querer querendo, "Cisne Negro" que eu só tinha visto pelo cinema; é que, apesar do filme ser realmente incrível ele é tão impactante que não dá pra assistir a qualquer hora. Além disso, "Cisne" é feito pra incomodar, a gente sente a mesma dor de Nina e é envolvido em suas alucinações. O filme é puro delírio, é fantástico e, incrivelmente, eu gostei dele ainda mais quando o assisti pela segunda vez, certamente um dos meus preferidos. 
Em "Cisne" Aronofsky (diretor também de “Pi”, “Réquiem para um sonho” e “O lutador”)  escolheu falar sobre a dedicação, literalmente "se matando de tanto trabalhar" e escolheu certinho ao falar do universo do balé. Para ser bailarino é preciso uma dedicação militar, muito treino, muito esforço, muita entrega. Nina (Natalie Portman que merecidamente ganhou o Oscar por sua atuação) é escolhida logo no início do filme a primeira bailarina de uma companhia de balé novaiorquina após a aposentadoria de Beth MasIntyre (Winona Ryder), para interpretar os cisnes na peça "O Lago dos Cisnes".
Tudo bem pra Nina porque ela é uma profissional muito dedicada, versada nas técnicas, mas o que o diretor (Thomas Leroy, interpretado por Vincent Cassel) quer dela é paixão, é visceral, e ele tenta despertar nela sentimentos controversos, através do desprezo, da aceitação, da tensão sexual... A bailarina que deve interpretar “O Lago dos Cisnes” deve ser perfeita tanto na inocência e pureza do cisne branco, quanto na malícia e sensualidade do cisne negro; Nina é perfeita para o cisne branco, mas uma aparente rival, Lily, perfeita para o papel de cisne negro, e essa competição vai alucinar ainda mais Nina.
Afora isso Nina tem uma mãe super controladora e totalmente alucinada (Barbara Hershey, pasmem é a Lee do filme 'Hanna e suas irmãs' não dá pra acreditar!) que culpa a filha por suas frustrações, já que teve de largar o balé porque engravidou. Nina mora com a mãe e tem que enfrentar uma pressão enorme no trabalho (com o diretor e com o medo de ser substituída por não atender às suas expectativas) e outra também em casa e, claro, ela enlouquece nesse processo. Além disso, "Cisne" é feito pra incomodar, seja nas cenas nas quais Nina se fere, nos dedos, nas costas (fala a verdade aquela cena que ela vai puxando uma pele no dedo até chegar na mão, argh!!!) ou na sua casa, com a mãe sufocante, naquele quarto cheio de bichos de pelúcia, infantilizado, nas próprias atitudes de Nina, sua voz. 
Li que Aronofsky durante as filmagens procurou criar um clima ruim entre Natalie Portman e Mila Kunis (que vive Lily sua aparentemente rival) que são amigas na vida real, para que a rivalidade entre elas na tela fosse mais real, e acho que funciona, porque existe uma tensão grande entre as duas.
Aliás, "Cisne" me parece que tem muitos elementos de um terror (digo que parece porque é um gênero que eu não assisto, não consigo), nos desvarios e alucinações de Nina, nos espelhos que estão presentes em quase todo o filme, na figura do Cisne Negro. O filme é também repleto de duplos, seja o próprio Cisne Branco/Negro, além de Beth e Nina e Nina e Lily. 
O final é um êxtase, se tudo o que desejavam de Nina, em sua fragilidade emocional, era que ela se doasse, realmente sentisse, ela o fez da maneira mais visceral, sentiu tanto que se tornou o próprio Cisne Branco.
        Cisne Negro (Black Swan, EUA, 2011) ***** 

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

28° - "Veludo Azul"


David Lynch não é pra qualquer um (e sinceramente nem sempre é pra mim), não quero dizer com isso que quem gosta dele é cult e quem não gosta inferior porque não gosta de cinema e aquele blábláblá alternativo clichê. É só que ele é polêmico, não faz aquele filme redondinho e por isso nem sempre agrada a todos. Dificilmente quem está acostumada a um único tipo de filme, reto, com início meio e fim, vai ter dificuldade para se acostumar com seu cinema. 
Mas ainda assim eu o recomendo, acho que todos devem assistir, odiar ou amar, mas perceber a diversidade que o cinema nos apresenta, as maravilhas de ver que cada diretor pode nos mostrar sua maneira de enxergar o mundo, ou simplesmente uma história. Diga aí, você vai ficar a vida toda vendo tudo da mesma maneira? Falo não só pelo cinema, mas pela vida e eu sempre vou optar por ser uma metamorfose ambulante.
Sendo assim "Veludo Azul" é um filme psicodélico, no qual Lynch opta por mostrar um viés do ser humano difícil de encarar, mas tirando isso o filme até que é caretinha, com início, meio e fim (o que pra mim já é lucro, estou cansada de ver filme sem final...) e é muito mais tranquilo de ver que "Cidade dos Sonhos", este sim alucinação purinha.
E o que Lynch nos propõe a perceber em "Veludo" é que nem sempre o que parece é, a cena inicial, linda, mostrando flores belas, um cachorro bonito, as pessoas indo trabalhar e estudar funcionando em total harmonia e, de repente, quando a câmera resolve ir mais fundo, ela nos mostra uma cena meio nojenta de vários insetos embaixo da grama, numa ideia de que de perto ninguém é normal, de que as aparências enganam e que sempre há sujeira embaixo do tapete. Saber disso é libertador, que não há controle e perfeição, entretanto o filme vai bruscamente para o outro lado da força, rs, mostrando a podridão enlouquecedora de pessoas e lugares.
Vamos à sinopse: após visitar no hospital seu pai que sofreu um derrame, Jeffrey Beaumont (Kyle MacLachlan, o primeiro marido da Charlotte em Sex and the City), no caminho, encontra uma orelha humana e a entrega a um policial que é também seu vizinho. Mais tarde ele encontra a filha deste policial (Sandy, interpretada por Laura Dern) que lhe dá detalhes do caso, cita o nome de Dorothy (Isabella Rossellini) e diz ser ela o elo do caso. Jeffrey decide então investigar o caso sozinho se envolvendo com Sandy e Dorothy e conhecendo Frank (Dennis Hopper) um traficante muito mal e muito doido. Porém Jeffrey com toda sua juventude, inocência e paixão tenta solucionar o caso e ajuda Dorothy (cujos marido e filho estão sequestrado por Frank).
A sinopse descreve o filme com o suspense que ele tem, mas há cenas insanas, violência e comportamentos doentios. A cena que Frank estupra Dorothy (ela não resiste, pois ele sequestrou sua família) é surreal, acho que a cena mais alucinante que eu já vi.
Além de mostrar a falácia de uma cidade que aparenta ser perfeita (li que o objetivo de Lynch é uma crítica à sociedade americana), ainda há as tonalidades de azul que aparecem, no início o azul claro do céu, para os azuis mais escuros em cenas obscuras. E também tem Isabella Rossellini, numa tristeza misturada com doidera de dar dó, e neste blue que mistura cores e tristeza que o filme cumpre seu papel.
Veludo Azul (Blue Velvet, EUA, 1986) ***

sábado, 26 de janeiro de 2013

26° - "Festim Diabólico"


Estava hoje num dia meio deprê e resolvi ver "Festim Diabólico" do Hitchcock, o que melhorou totalmente meu astral, o filme é incrível e tem várias referências. Enquanto eu via lembrei de "Deus da Carnificina" (2011) porque é também um filme cujo cenário todo se desenvolve dentro de um apartamento; "O Sonho de Cassandra" (Woody Allen, 2007), até "A Onda" (2008) e sabe-se lá quantos filmes mais podem ter se inspirado nesta película de 1948 e que fogem ao meu humilde conhecimento.
A história que se desenrola toda no apartamento de Brandon é sobre dois amigos (Brandon e Philip) que resolvem cometer o que consideram um crime perfeito; então matam o amigo David e escondem seu corpo num baú da sala de estar do apartamento. Acontece que o plano é um pouco mais elaborado, Brandon e sua psicopatia e complexo de Deus, resolve fazer uma festa, convidando os pais, namorada e amigos de David e usando o baú como aparador para a festa (apoio para os pratos e comida). Pronto, cenário perfeito para bastante suspense, isso porque apesar de Brandon ser um psicopata - ele não tem nenhum sentimento de culpa e nenhuma empatia por ninguém a não ser por ele - Philip, que aparentemente é um cara fraco e foi induzido por Brandon, sente um remorso arrebatador após o assassinato e por isso dá pistas de que algo não vai bem durante a festa. 
Neste jogo de comportamentos, Hitchcock traça um filme tenso, tanto na movimentação da câmera (o que ela quer mostrar ou não, aumentando o suspense) quanto nos diálogos; e com isso constrói personagens densos. A ideia de que Brandon utiliza dos discursos de Rupert para justificar seu ato lembra (inclusive no filme) Hitler e Nietzsche. E nas possibilidades de interpretação que cada um tem, vale a pena pensar antes de dizer e panfletar (“A Onda”). Eu não acredito muito no que as pessoas adoram dizer: “eu sou responsável pelo que eu falo, não pelo que você entende”, essa frase me parece meio condescendente. É claro que somos responsáveis pelo que e como falamos. Obviamente que uma mente leviana – como a de Brandon – pode enxergar o que quiser e da forma que quiser. Para Brandon existe algumas pessoas com superioridade intelectual e cultural que estão acima dos conceitos morais, sendo que os conceitos de bem e mal, certo e errado foram inventados para o homem comum, o homem inferior. Ora essa, quantas vezes vemos esse discurso reproduzido em nossa volta, seja nas ditaduras, nos preconceitos, nos discursos de superioridade...
O filme, cujo nome em português é muito melhor do que o original (coisa rara), ainda tem um final arrebatador, mais ou menos assim:
“Brandon, até este exato momento, este mundo e as pessoas que nele vivem sempre foram obscuras e incompreensíveis para mim. Tentei iluminar meu caminho com a lógica e o intelecto superior. E jogou minhas palavras na minha cara. Era seu direito. Um homem deve cumprir o que diz. Mas deu às minhas palavras um significado que jamais imaginei e tentou distorcê-las numa desculpa cruel e lógica para seu assassinato horroroso. Nunca foram assim, Brandon. E não pode torná-las assim. Deve haver algo no seu íntimo, desde o início, que permitiu que fizesse isso. Mas há algo dentro de mim que jamais me permitiria fazê-lo e nunca me deixaria fazer parte disto. Esta noite fez-me envergonhar dos conceitos que sempre tive dos seres superiores ou inferiores. E lhe agradeço por essa vergonha” Rupert.
Festim Diabólico (Rope, EUA, 1948) ****

domingo, 6 de janeiro de 2013

6° - "HeadHunters"

Filmes de ação/policiais/suspense dificilmente constam na minha lista de prediletos. São filmes que acabo vendo muito (pois são os favoritos da minha família), mas não curto. Gosto de séries de ação/suspense, como Criminal Minds e Dexter, mas não filmes, porque geralmente eles seguem um caminho óbvio e cheio de clichês.
Assisti a alguns muito bons e pretendo ter a oportunidade de comentá-los aqui. O primeiro deles é "HedHunters", um filme norueguês que vi ano passado. Não me lembro ao certo, mas parece que o moço da locadora nos indicou, enfim, o filme é muito bom, é bem animado do início ao fim, e narra a história de um cara que aparentemente sustenta a vida luxuosa como headhunter, mas é inseguro e precisa viver de roubos a obras de arte porque caso contrário sua esposa o deixará (na cabeça dele, mas é engraçado - ou no mínimo raro neste gênero - ver homens inseguros no amor). Ele conhece uma figura e resolve roubá-lo, mas daí uma série de imbróglios vão acontecendo. Tem uma cena bizarra - parecida com "Quem quer ser um milionário" - na qual Roger (o protagonista) se enfia num mar de cocô para despistar um perseguidor!

O protagonista sofre tanto que a gente fica apreensivo mesmo, já que diferente dos filmes americanos, os filmes europeus não são tão comprometidos com finais felizes. Mas vale a torcida!
Li que o filme terá uma versão hollywoddiana em breve, assim como teve o tão bom quanto "Os homens que não amavam as mulheres" (que devo falar em breve).
 Para aqueles dias que você está a fim de um pouco de agito, sem choro e sem ter que pensar na vida e em sua existência, HedHunters (Hodejegerne, Noruega, 2011), ***