quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

38° - "Os miseráveis"


"Os miseráveis" tem provocado em mim sentimentos controversos, já nos primeiros minutos do filme eu fiquei maravilhada, com a música, com a cena (sim, eu gostei da cena inicial dos escravos puxando um navio), com os personagens, mas o filme foi se desenvolvendo, desenvolvendo, desenvolvendo e lá na metade eu já tava de boa com tanta cantoria,  e cheguei a pensar que jamais o indicaria aqui, mas depois o filme foi acontecendo, acontecendo, acontecendo, e teve um final lindo, de arrasar. Quando saí do cinema já estava com outra sensação e hoje gosto do filme mais ainda, vou tentar colocar minha opinião e defendê-lo.
"Les Mis" não é pra qualquer um, primeiro porque é um musical, gênero que geralmente divide quem ama e quem odeia - eu confesso que não sou grande fã - além disso, o filme faz pouco para agradar gregos e troianos, ele é difícil de ver. Falo isso porque "Les Mis" tem quase três horas de cantorias ininterruptas, as frases que não são cantadas devem contabilizar uns 3% do filme, são pouquíssimas. Então fica difícil, para meu gosto o filme deveria ter, no máximo, 2 horas e pronto. É que chega uma hora que a gente cansa, a mocinha encontra o mocinho eles começam a cantar e eu pensei "tá bom, eu já sei que vocês se amam, blábláblá, próxima!". E eu não sei se a minha tolerância para musicais já estava pequena, mas eu gostei pouco da terceira parte do filme (a parte na qual Cosette já está crescida).
Mas a história de "Les Mis" é maravilhosa! Tudo bem que já vimos vários elementos presentes em outros enredos (e certamente baseados nele), e é uma história complexa, com vários personagens e várias outras histórias. Começa com Jean Valjean (Hugh Jackman) sendo libertado de uma prisão onde esteve 19 anos por roubar um pão para sua irmã e sobrinho que passavam fome, e Javert (Russel Crowe, gente o que é o final de Javert, putz, maravilha), um inspetor do governo francês percebe o ódio e revolta de Jean. Como ficou preso por 19 anos (5 pelo roubo do pão e os outros por tentar fugir), Jean é considerado perigoso e isso está escrito no seu papel (uma espécie de documento de identidade) e por isso ninguém quer lhe dar trabalho ou abrigo. Mas um padre, bondoso como só poderia ser na ficção (pensem na Igreja Católica do séc XIX) resolve dar abrigo, comida e uma nova chance a Jean, e quando ele tenta fugir com peças de prata da Igreja, é pego e o padre diz que o deu de presente (a cena é muito bonita, principalmente depois, de Jean conversando com Deus). Depois disso Jean resolve se tornar um homem de bem, passam-se anos, ele enriquece, tem uma fábrica na qual trabalha Fantine (Anne Hathaway) que precisa do dinheiro para sustentar uma filha que teve solteira e que mora com conhecidos. Mas Fantine é injustamente mandada embora e para arrumar o dinheiro da filha vende seu cabelo, seu dente e tem que se prostituir; quando ela quase está indo presa, Jean a encontra e, arrependido por não ter impedido sua demissão lhe promete que cuidará de sua filha, Cosette. Jean vai atrás de Cosette e a compra de seus "tutores", os trambiqueiros Thénardier e sua esposa (Sacha Baron e Helena Bonham Carter). Na terceira parte do filme se passaram mais nove anos, Jean ainda foge de Javert (que o reconheceu, mesmo ele rico e bem vestido), Cosette está crescida (agora interpretada por Amanda Seyfried), e se apaixona por Marius (Eddie Redmayne) que, apesar de pertencer a uma família rica, é um dos líderes dos revoltosos contra o sistema vigente.
Escrito por Victor Hugo e lançado em 1862, 30 anos após o início de sua escrita, “Les Miserables” é uma obra-prima que virou um musical famoso e já rendeu outros filmes. É impossível deixar de dizer que, ao final do filme, eu fiquei mesmo foi com vontade de ler o livro.
Li em algum site que Victor Hugo resolveu escrever o livro quando foi dar uma volta e percebeu o tamanho da desigualdade da França estampado na cara de um pobre vendo um rico descer de sua carruagem. Aliás, a gente fica chocado com o tamanho da injustiça e da desigualdade mostradas no filme. É claro que, infelizmente, ainda hoje vivemos num mundo, e num país, no qual as desigualdades sociais e econômicas são alarmantes, mas é triste de ver várias pessoas, na cidade, passando fome, sujas, doentes, miseráveis.
Mas no meu coraçãozinho “Os miseráveis” ganhou lugar graças – além do enredo - a algumas músicas e encenações que são ótimas, como a música do início (“Look down, look down...”), a música que as prostitutas cantam para apresentar seu lugar (a cena é linda) e, claro “I dreamed a dream” cantado por Fantine. Vamos combinar, a Anne Hathaway está incrível!! Ela fica pouco no filme, mas todas as cenas nas quais ela aparece são maravilhosas, ela cantando é lindo, ela atuando ainda mais. Vou dizer que ela me conquistou, eu chorei duas vezes vendo o filme e nas duas vezes foi quando ela apareceu (quando ela canta “I dreamed a dream” depois de se prostituir pela primeira vez e no fim, quando ela vem buscar Jean, cena linda, ele também reencontra o padre que lhe ajudou no passado que canta algo do tipo “quando ajudamos um irmão sentimos a face de Deus”).
O fim do filme é também maravilhoso, mas eu estava tão cansada de cantoria que eu não entendi ao certo se Jean foi pro céu ou pro inferno, já que encontrou seus colegas mortos e, claro, eles recomeçaram a cantar...
Mas a cena é bonita, é grande e estonteante, com muitos entulhos (que me lembraram “Feios, sujos e malvados”), muitas pessoas e, finalmente, a vitória do povo francês.
Muito da minha antipatia pelo filme, eu acho, que se deu pelo fato de eu não ir preparada para vê-lo. Como eu não sou fã de musicais (mas eu sabia que o filme era um musical) e na verdade nós fomos ao cinema para ver “Django Livre” (pasmem só tinha du-bla-do!), acho que não estávamos totalmente no clima. O filme talvez não seja tão fácil de ver (umas 4 pessoas desistiram no meio e foram embora do cinema), mas com certeza merece ser visto.
Os miseráveis (Les miserables, Reino Unido, 2012) ***

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

37° - "As horas"


Acho difícil construir um texto sobre "As horas", um filme que eu nem consegui compreendê-lo em sua plenitude, e nas cenas são tantos detalhes, tantas sutilezas, eu pensei e senti tantas coisas, que é bem possível que não consiga traduzir em palavras, mas tentarei. 
Posso começar dizendo que "As horas" é um filme maravilhoso sobre mulheres e também sobre tristeza (me lembrou - levemente - "Melancolia"). Ele tem uma abordagem diferente e três histórias são apresentadas de três momentos históricos diferentes. O primeiro deles é Virgínia Wolf (Nicole Kidman) escrevendo seu livro, em 1923, "Mrs. Daloway” no processo de uma doença depressiva muito sofrida para ela e seu marido; outro momento, em 1951, é sobre a história de Laura Brown (Juliane Moore) que é uma dona de casa com uma vida que tem tudo para ser feliz (a felicidade é praticamente uma obrigação ali), um marido amoroso e trabalhador, uma casa, um filho bonito, esperto e saudável e ainda está grávida - numa época na qual a realização da mulher estava na maternidade – está lendo o livro citado de Woolf e deseja se matar; e por fim, em 2001, Clarissa Vaughan (Meryl [diva] Streep) é um editora novaiorquina, que tem um relacionamento com Sally, tem uma filha e um amigo poeta (que também foi amante há tempos) que ela cuida, pois está muito doente (AIDS).
Essas três histórias aparentemente tão distantes são bem próximas e o que as une é, além do livro, o fato de que o filme narra um dia na vida de cada uma delas, mas o dia no qual elas tomam consciência da sua própria vida.
E o que é a vida? O que é felicidade? Clarissa a define como o dia no qual, ao acordar, sentiu que havia possibilidades... Mas chega o momento que a vida se torna compreensível e até trivial. O filme não narra apenas grandes acontecimentos na vida dessas mulheres, mas que assim como a felicidade, também a tristeza, a infelicidade e a melancolia estão próximas, e às vezes aparecem sem sentido, nas pequenas coisas, em se sentir desajustado (gosto da cena na qual Virgínia está na rua, sentada, pensando nas possibilidades de sua heroína e define que ela se matará por algum motivo pequeno, que não a afetava antes)...
E o filme é uma grande homenagem à Virgínia Woolf, mostra como seu livro “Mrs. Dalloway” é atemporal, e isso é apresentado de maneira muito inteligente na narrativa, enquanto Virgínia escreve o livro, muitos de seus detalhes, idealizados lá em 1927, são executados no futuro; também existe uma identificação grande entre o livro e as três protagonistas: a primeira o escreve, a segunda o lê e a terceira é a própria personificação de Mrs. Dalloway, inclusive esse é seu apelido dado por seu amigo Richard (Ed Harris). É Richard também o elo entre Laura e Clarissa e mostra como uma doença triste como a depressão pode influenciar tantas pessoas em volta.
O título do filme não poderia ser melhor, além de ser uma referência ao nome provisório de Mrs. Dalaway, tem uma ligação com as horas do dia que é descrito no filme e acima de tudo, é uma referência à própria depressão. Quando Richard diz à Clarissa algo do tipo, nós vamos à festa, nos divertiremos e depois? E as horas depois da festa? E as hora de amanhã? É difícil pensar no depois se não há esperança.
E o filme ainda tem as atuações primorosas das três protagonistas, Nicole (que ganhou o Oscar por sua atuação), Juliane e Meryl. Gosto muito da cena que começa e também termina o filme, baseada no suicídio de Virgínia, é uma cena belíssima, com ela lendo, ao fundo, a carta de despedida que escreveu ao marido.
Mas “As horas” não é um dramalhão, filme de chorar, ao contrário, é um filme de reflexão, que te faz pensar nas nuances do ser humano e nosso objetivo no mundo.
As horas (The hours, EUA, 2001) *****

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

36° - "O labirinto do fauno"


Imagine uma criança, uma menina esperta e inteligente,  que mora no campo, mas com um padrasto despótico e uma mãe grávida e muito doente, acamada; sua vida é tão cruel que é preferível viver na imaginação, acreditar piamente nos contos de fadas. Ofélia (Ivana Banquero) encontra uma ruína do que já foi um labirinto e dentro dele ela encontra-se com fadas e com um fauno (tadinho, horroroso, mas com senso de humor), esse fauno a faz acreditar que Ofélia é, na verdade, uma princesa de um mundo subterrâneo, mas que decidiu ver a luz do sol e se esqueceu de seu verdadeiro lar. Para poder voltar para sua casa e seus pais, os reis, a menina terá que passar por três provas, todas elas envolvendo perigos que vão revelar seu caráter e coragem. Nessas provas, Ofélia encontra com verdadeiros monstros, horríveis, o monstro cujos olhos estão nas mãos é a coisa mais feia que eu já vi no cinema (tudo bem que eu não sou muito de filme de terror, mas vá, eu já vi o Allien, por exemplo, e esse o deixa 'no chinelo') e então, pense nessa menina que prefere conviver com esses monstros, com o medo, a ter que encarar sua realidade, que é muito mais feia e infeliz. As fantasias de Ofélia não demonstram a inocência de uma criança, mas um subterfúgio para conseguir sobreviver emocionalmente à sua realidade.
A época é 1944, na Espanha fascista, e o padrasto de Ofélia é o capitão Vidal (Sergi López), esqueça Darth Vader, capitão Vidal é uns dos vilões mais cruéis que já vi em filmes, é inacreditável, ele é brutal, misógino,  arrogante, desumano, “feladamãe” que mata crianças a sangue frio, tortura, assassina sem nenhum motivo com crueldade, affe, a lista dele é imensa e é por isso que a cena na qual Mercedes (Maribel Verdú) - a empregada que está do lado dos rebeldes - o esfaqueia e diz que está acostumada a abrir porco é um delírio.
"O labirinto do fauno" é também um filme tenso, seja nas cenas da fantasia de Ofélia, seja nas cenas da realidade, porque há um suspense reinando na casa, onde Carmen (Ariadna Gil) está grávida e doente, o médico e Mercedes tentam ajudar os revolucionários que estão no campo e prestes a atacar. Lançado em 2006 e dirigido por Guillermo del Toro (que eu bem confundia com Benicio Del Toro, há), "O labirinto" é certamente um dos filmes mais belos que eu já vi (tanto é que tenho uma cópia em casa, eu não sou de baixar filmes, gosto de comprar os DVDs, ter capa, essas coisas). O ambiente criado pelos produtores e pelo diretor é também belíssimo, os cenários e as cores, o filme é quase monocromático, é escuro, sem vida, a não ser na cena final.
Aliás, a cena final do filme é espetacular, e eu gosto muito de filmes que tem um quê de livro, que deixam a gente imaginar!! Será que Ofélia realmente viveu na fantasia ou apenas a idealizou para matizar sua vida tão sofrida? Não precisa de resposta, é tudo tão amarrado, belo e também triste que realmente mereceu os 3 Oscars que ganhou.
Eu sou uma sonhadora nesta vida e esse é um dos motivos pelo qual gosto tanto de filmes que abordam como a fantasia serve para tornar a vida mais leve, e nesse sentido "O labirinto" lembra muito "Peixe grande e suas histórias maravilhosas". Mas também, pasmem, me lembrou "Alice no país das maravilhas" (o do Tim Burton que pouca gente gosta, e eu sim) e também "Bastardos Inglórios", principalmente no fim, quando os rebeldes cercam o capitão com o filho nos braços, ele olha no relógio que foi do pai, entrega o filho e pede: "por favor, digam ao meu filho a hora em que morri" e ouve de volta "não, seu filho nem vai saber seu nome", há, é um júbilo.
Todos esses fatores constroem um filme realmente incrível, com cenas e personagens surreais e aterrorizantes. Apesar de ser um filme de fantasia e também classificado como filme de terror, mas acima de tudo é um filme criativo, com uma história diferente e encantadora. 
O labirinto do fauno (El laberinto Del fauno, Espanha e México, 2006) *****

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

35° - "Obrigado por fumar"


Pelo que li - superficialmente - na internet, os espectadores tiveram uma impressão bem diferente da minha em "Obrigado por Fumar"; que é fantástico e certamente um dos meus preferidos. Tenho que admitir que, antes de vê-lo pela primeira vez, eu tinha um certo preconceito com o título, pois achava que era um documentário do tipo "Super size me" falando sobre os malefícios do cigarro, mas não, o filme não tem nada disso, nem chega perto; porque apesar de muita gente falar o contrário, o filme não é sobre o tabagismo (ele poderia, e o faz no fim do filme, estar defendendo qualquer outra coisa ou tema). "Obrigado por fumar" fala sobre a importância das palavras e, principalmente  o poder das palavras, o poder de quem tem o dom da fala (sinceramente me lembrou bem a conturbada entrevista do Silas Malafaia no "de frente com Gabi" exibido ontem).
Nick Naylor (Aaron Eckhart) é lobista da indústria do tabaco nos EUA e o filme mostra como ele desenvolve seu ponto de vista, "sou pago para falar. Não sou doutor, nem advogado. Sou bacharel em ofender e em ser xingado". Isso porque defender o cigarro numa sociedade cada vez neurótica com o politicamente correto e com a 'vida saudável' não é pra qualquer um, e também pudera, lá no início do filme Nick diz, "há Átila, Gengis e eu representante dos cigarros" que mata 1.200 pessoas por dia nos EUA. Pronto, chegamos num ponto fantástico do filme, ele não faz apologia a nada, não está a fim de levantar bandeira e blábláblá. Com relação ao cigarro (que é o pano de fundo da questão) Nick está certo e errado, assim como Ortolan Finistirre (William H. Macy, que está no também ótimo "Fargo") o senador, que aparentemente tem boas intenções em levantar a bandeira do anti-tabagismo (apesar de serem ideias ridículas), mas na verdade o faz para se promover como político.
O filme chega até a beirada do relativismo porque ele mostra que mesmo num assunto tão polêmico - e em princípio óbvio - há espaço para verdades e mentiras. Afinal, o que é verdade? O que é certo? Qual é a atitude verdadeiramente desinteressada? Nick Naylor defende então a beleza do argumento, se você argumentar corretamente nunca estará errado. Mas é o próprio Nick que fala ao filho que este tipo de trabalho não é pra qualquer um, porque é necessário certa "flexibilidade moral" que poucas pessoas têm. No processo de ganhar na fala, nem sempre atacar ao argumento do adversário é a melhor saída, mas simplesmente provar que está errado (como na cena na qual Nick e seu filho conversam num parque de diversões e ele pede para o filho defender o sorvete de chocolate enquanto ele defende o de baunilha).
O papel de Nick Naylor é ter o controle da mídia, é aparecer em situações diversas e tentar minimizar os efeitos negativos que a indústria do tabaco tem na sociedade (a cena inicial é ótima, ele consegue reverter a ideia do programa e ainda termina apertando a mão do rapaz com câncer, levado obviamente para demonstrar os malefícios do cigarro), e o cara é fantástico em seu poder de persuasão, na frieza com a qual ouve os outros argumentos (sempre, taticamente, com um sorriso no rosto) e na falta de paixão para defender seu ponto de vista (fundamental para não perder o equilíbrio numa discussão).
Há outra cena excelente, onde Nick é sequestrado e os bandidos enchem seu corpo com adesivos de nicotina e quando Nick acorda no hospital seu médico diz que os cigarros salvaram sua vida, pois nenhum não fumante aguentaria a quantidade de nicotina que tinha no sangue!
Eu poderia aqui citar todas as cenas do filme, porque são excelentes, com ótima edição e apresentação dos personagens, bonitas de ver e, claro com diálogos afiados. Gosto também dos “Mercadores da Morte”, outros dois lobistas e amigos de Nick (uma defende o álcool e o outro as armas), os três se reúnem uma vez por semana para comer juntos e conversar; tem uma cena ótima na qual os três discutem sobre qual tema é mais polêmico e qual dos três tem mais risco de ser sequestrado por conta do número de morte que as indústrias que representam proporcionam na sociedade.
“Obrigado” ainda tem uma sacada excelente, nenhum cigarro foi aceso ou fumado durante o filme que fala sobre a importância de cigarros em filmes como propaganda para a indústria. Foi dirigido por Jason Reitman o mesmo de "Juno" e "Amor sem escalas", outros filmes também ótimos; e é uma comédia irônica, inteligente, com piadas sagazes e muito, muito divertida.
“Michael Jordan joga bola. Charles Manson mata pessoas. Eu falo. Todos têm um talento”.
Obrigado por fumar (Thank you for smoking, EUA, 2005) *****

domingo, 3 de fevereiro de 2013

34° - "Era uma vez na América"


"Era uma vez na América" tem nome de filme de faroeste, dizem por aí que é filme sobre a máfia, e por conta dessas impressões eu não tinha visto, apesar da insistência do Digo, pois faroeste e/ou máfia não estão no topo da minha preferência. Mas acontece que não é nada disso, e o filme, apesar de ter a máfia como fundo, fala mesmo sobre as complexidades do ser humano centradas na amizade e na traição. 
Os personagens são tão humanos e, por isso, tão complexos que eu torci por eles em algum momento, depois torci contra, depois voltei a torcer a favor, enfim, eles não são retos, tem seus desvios. E tudo bem que eu estou longe de ser um Noodle da vida (que é um cara companheiro, que honra seus amigos, que ama, mas também que estupra, que mata), mas eu também não posso atirar a minha pedra.
“Era uma vez” fala sobre a amizade de 5 rapazes que cresceram juntos, aprenderam a malandragem juntos, mas por um infortúnio um deles Aaronson (Robert de Niro) acaba preso. Depois de alguns anos, quando é solto, seu grande amigo Maximilian Bercouicz (James Woods) lhe apresenta como o grupo cresceu e se beneficiou da proibição das bebidas alcoólicas (lei seca) e outros crimes ligados à máfia judaica. Mas por imbróglios ocorridos a própria amizade deles é posta a prova e depois de 35 anos eles vão reviver um acontecimento único na vida de todos.
No filme a gente consegue ficar íntimo de todos os personagens, conhecer suas histórias e se emocionar com elas, e sabe por quê? Porque o filme tem 4 horas de duração. É isso mesmo, ninguém está lendo errado. Então você pensa que "O Poderoso Chefão" é famoso pela história e por ser uma trilogia, mas perae, "Era uma vez" tem quase a mesma duração num filme só. O filme tem intervalo, isso mesmo, lá pelas tantas sobe numa tela preta a palavra "intervalo", que penso, sei lá, que no cinema era a brecha para as pessoas darem uma volta, esticarem a perna, irem ao banheiro. É muita raça de filme, e por isso mesmo é o ideal para um fim de semana chuvoso.
Mas assim, o filme não é cansativo, ele é todo cuidadoso. Com a história, com as imagens, com os sons. Eu quase chorei em várias cenas, como a do Robert De Niro em close com uma música de fundo (tem até Beatles), aliás, o De Niro tem uma feição triste, no filme cai muito bem e é de cortar o coração.
E o filme, muito mais que a máfia, que os tiros, que a violência, trata sobre a memória, sobre as lembranças, sobre a saudade... Sobre a vida que nem sempre a gente tem controle, sobre pequenas atitudes que mudam um futuro. E tudo isso é mostrado com muita delicadeza.
“Era uma vez” tem cenas lindíssimas e emocionantes e um final de tirar o fôlego (apesar de um tanto previsível, se bem que talvez nem tão previsível quando foi lançado, em 1984). Um filme lindo de ver, realmente um clássico imperdível!
Era uma vez na América (Once Upon a Time in America, EUA, 1984) ****

sábado, 2 de fevereiro de 2013

33° - "Bonequinha de Luxo"


Para fechar o pacotão "Truman Capote", "Bonequinha de Luxo". Nos dois filmes de Truman "Bonequinha" é muito citado, pois pelo que entendi, além do filme ser inspirado num conto de Capote, ele ainda esteve nas filmagens ou na montagem, auxiliando na produção do filme. E é um clássico, né?! Tudo bem que, para variar, eu já tinha visto e só percebi lá pelo meio do filme (o que me diz alguma coisa sobre o filme ser um clássico no cinema, mas não na minha vida). Ver o filme depois dessa grande sessão de Truman Capote deu também outro sentido.
"Bonequinha" tem um dos inícios mais bonitos de filme que eu já vi, é linda a cena de New York vazia, o táxi para e Holly Golightly (Andrey Hepburn) desce para tomar café em frente à Tiffany (em pé mesmo, enquanto olha as vitrines). E taí uma beleza, o nome em português é muito melhor do que o original, "Bonequinha de Luxo" é bem melhor que "Breakfast at Tiffany's", vamos combinar!
O filme é sobre os sonhos de Holly, que é uma garota de programa de luxo cujo sonho é casar-se com um milionário que lhe dê uma casa na qual se sinta tão bem como na Tiffany (hein?!). Para seu prédio muda-se Paul Varjac ou Fred (George Peppard) que é também teúdo e manteúdo de uma senhora rica, e escritor nas horas vagas. Aliás, que cena é aquela na qual Holly e Paulo (ou Fred) entram na Tiffany com 10 dólares, não conseguem comprar nada, e o vendedor na maior boa vontade do mundo resolve gravar o nome do casal num anel achado num pacote de biscoito, e em seguida eles vão a uma biblioteca pública, fazem barulho, escrevem no livro, a atendente reclama e Holly diz algo do tipo, por isso que a Tiffany é melhor que uma biblioteca (hein?!).
O sonho de Holly é tão presente e apresentado tão delicadamente que a gente quase se esquece o quão fútil é. Aliás, é impressão minha, ou existe uma semelhança grande entre Holly e a mãe de Capote, cujo sonho era morar em Manhattan, conseguiu um marido que lhe proporcionou isso, mas não conseguiu manter o padrão de vida com o tempo, então sua mãe bebeu até morrer (porque, ahh, pra quê viver se não for em Manhattan!).
A Audrey Hepburn eternizou a "Bonequinha de Luxo", sua personagem transcendeu o filme, não é a toa que é o pôster mais vendido, e ainda estampa camisetas, almofadas, quadros, etc. Não é difícil entender o por quê, ela é e está no filme simplesmente deslumbrante (apesar de magra demaaaais), além de linda, tem um figurino de arrebentar, mas permitam-me uma heresia, até hoje vi dois filmes de Hepburn, esse sobre o qual escrevo e "My fair lady" e gente, as personagens dela são muito chatas, mas ainda não estou totalmente convencida se era ela ou talvez um tipo de comportamento de época, sei lá.
"Bonequinha" se salva - pra mim - porque tem cenas muito bonitas, como a festa psicodélica na casa de Holly, muito bonita e entrosada, e também a cena de Holly tocando e cantando na janela de seu apartamento, lindíssimo (aqui).
Mas a história em si não entusiasma muito, e o fim, não gostei; além de ter a cena triste dela jogando o gatinho na chuva (chiuf! e eu vi nos extras o diretor dizendo que o 'gato fedia muito', chiuf outra vez) eu não curti muito o fato da Holly ficar com 'Fred' apenas no final, quando não lhe restava mais nenhuma opção, não sei, acho que eu optaria por um final mais romântico e desinteressado.
Ainda assim, apesar dos meus pesares, "Bonequinha" é um clássico que deve ser visto, além das cenas bonitas, dos figurinos fantásticos, ainda tem diálogos afiados, como o do final, na cena do carro. (“uma garota não pode ler uma coisa dessa sem batom”), e Holly, tem um otimismo encantador, na sinopse diz que é uma moça inocente, mas acho que não, creio que ela escolhe fingir que não entende para fingir viver parte de seu sonho.
Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany’s, EUA, 1961) ***

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

32° - "A sangue frio"


Bem, hoje este bloguinho faz um mês, quem diria! Um mês com publicações diárias e acho que seria interessante tecer algumas considerações: 
1) o número de visitas (de comentários nem se fala) do blog é proporcional à minha divulgação; eu falei sobre o blog com pouquíssimas pessoas, só com aquelas que eu sei que gostam de cinema e que gostam de mim (risos). Isso porque o objetivo de eu ter criado este blog está muito longe de ganhar popularidade. Escrever aqui é um projeto pessoal, e que até agora tem me deixado muito feliz. Eu me imagino daqui a vários anos lendo o que escrevi, o que pensava, ou então, se tiver um filho quem sabe, que ele me leia, não é uma ideia bacana? Enfim, sonhos de uma pisciana;
2) Eu descobri, jogando no google o nome do blog, que este meu projeto está bem longe de ser original, várias pessoas, vários blogueiros já se propuseram a fazer sua lista dos 365 filmes, um por dia, humpf, mas pelo que vi, apenas um concluiu com êxito sua jornada, muitos ficaram pelo meio do caminho. No início eu colocava no google '365 filmes em 2013' e ele nem aparecia, agora está na terceira página!;
3) Escrever diariamente, claro, está mais difícil do que eu imaginava. Isto porque tem dia que eu não estou com vontade, estou cansada, trabalhei muito ou estudei muito e ainda tenho que vir aqui, pesquisar sobre o filme, escrever, revisar, inserir fotos e etc, o que me toma, pelo menos, uma hora por dia (que antes era dedicada à minha malhação e terei que pensar como resolver isso em breve);
4) Minha proposta é escrever sobre filmes que eu gosto e que eu indicaria, e eu tenho uma lista enorme de filmes para citar aqui, só que, eu fui percebendo no decorrer dos dias, que para escrever eu teria que rever os filmes, contar somente com minha memória (que já não é lá grande coisas) não seria suficiente, e isso tem tomado ainda mais tempo. Eu procuro ver os filmes no fim de semana, mas também vejo durante a semana, é tranquilo, é só cortar as novelas e seriados que dá;
5) Escrever era penoso no início, mas tem se tornado mais fácil. Isso porque, como tudo na vida, a gente vai pegando jeito com a prática. Se no início eu demorava bastante para pensar sobre o que escrever, agora, sem esforço, enquanto eu vejo um filme as frases e o que escrever já estão na minha cabeça. Eu sempre falei isso para meus alunos, escrever é hábito, quanto mais se lê e se escreve mais fácil fica (não necessariamente melhor, mas é a tendência);


Já que estou comemorando hoje eu deveria falar aqui de algum filme que figure na minha lista de prediletos (tipo top 20 ou algo do tipo), mas acontece que estou engajada no projeto "Truman Capote" e não faz sentido interrompê-lo agora. O filme que vou falar hoje, se não fosse o projeto, é bem provável que não estaria neste blog porque o filme, em si, não é bom. Eu fico pensando no tamanho da influência do Capote, que pegou uma história (terrível, mas que provavelmente ficaria reclusa aos jornais e reportagens policiais) e a transformou em um dos maiores casos de assassinato dos EUA. A história da história – Capote escrevendo sobre a história dos assassinatos dos Cuttlers em seu livro “A sangue frio” – rendeu dois filmes, e pelo que pesquisei seu livro rendeu mais dois filmes com o mesmo nome do livro. O primeiro filme data de 1967 (apenas dois anos depois do livro), mas não o encontrei nas locadoras de Juiz de Fora, apenas no youtube sem legenda, eu vi umas partes e parece bem melhor do que o filme que falarei aqui. O segundo “A sangue frio” é de 1996, e como diz o Digo, a gente nunca deve confiar num filme que tem o Eric Roberts como chamariz.
Vejo só “convite irrecusável para os fãs de um policial de qualidade, este filme traz atores e diretor consagrados. [...] As cenas não poupam o espectador de muita ação e tensão. Pedida certa para quem acha que já viu tudo no gênero. Este irá surpreendê-lo”. Isto é a informação que está na contra-capa do filme (junto com uma foto de Eric Roberts com dor de barriga, não resisti), meio pretensioso, não?! Ontem eu falei sobre “O Sol é para todos” e como o filme é longo, certo? Esqueça isso, colega, “A sangue” tem 3 horas de duração, dá pra dividir em 3 partes (eu vi em pedaços, não deu pra ver direto).
Mas o que mais me chamou atenção, e foi por isso que eu vi partes do primeiro “A sangue” (não tive tempo de vê-lo todo), é como Capote resolveu contar o primeiro “romance de não-ficção”; é claro que o mais satisfatório aqui seria ler o livro (ele está na lista), mas este blog é sobre filmes. Como os livros são baseados na obra de Truman Capote e isto fica claro no início de ambos os filmes, eu acho que posso tirar algumas conclusões.
A primeira delas é que o Perry Smith de Capote é um homem perturbado, fica claro que o enfoque está nele. Ele oscila tendo momentos de tranqüilidade, sendo um homem cortês, educado e amável, com outros de pura loucura, no qual lembra momentos de seu passado e se torna muito violento, enfim, não é uma personalidade fácil de decifrar e nem de julgar, ao contrário de Dick que é um babaca e pronto. E apesar de cuidar da família Clutter para que eles fiquem confortavelmente amarrados (?!) e não permite que Dick violente a meninas, é Perry que mata toda a família (inclusive corta a garganta do pai), se bem que a gente não sabe se isso é verdade ou se Perry assume a culpa para consolar a mãe de Dick...
Passar a primeira das 3 horas do filme entendendo como a família Clutter vivia é uma boa saída (apesar de muito longa), porque a gente realmente entende o estrago de um crime tão sem sentido. Os Cuttler eram amados na pequena sociedade que viviam (e Capote deixa claro, em Confidencial, que seu objetivo é escrever sobre como um crime bárbaro afeta a confiança da pequena população), o pai seria indicado a metodista do ano, a menina era referência para outras meninas, mas tinham uma mãe perturbada (será que ela já pressentia os acontecimentos traumáticos?! ). E acho que tudo isso funciona no filme, pois quando os bandidos entram na casa a procura de um cofre que não existe e por isso matam toda a família, a gente sente o absurdo deste crime.
Outra coisa que achei muito interessante é que, como Capote não está no filme, e vendo os outros dois, fica claro que o detetive Dewey é o próprio Capote, é ele que se compadece de Perry e o visita até o fim. É para ele que Perry fala, na hora do enforcamento, o final que Capote gostaria, pede perdão pelo que fez.
Assim como em “O Sol é para todos” assistir “A sangue frio” só me deixou foi com vontade de ler o livro e de entender realmente como Capote (sem outros filtros) percebeu toda história e a escreveu.
A sangue frio (In Cold Blood, EUA, 1996) **