terça-feira, 22 de janeiro de 2013

22° - "Morangos Silvestres"


"Nossa relação com pessoas consiste em discutir com elas e criticá-las. Foi isso que me afastou, por vontade própria, de toda minha vida social. Isso tornou minha velhice solitária" (Isak)
Coincidência demais eu ter visto "Morangos Silvestre" logo depois de "Confissões de Schmidt" porque eles são muito parecidos. Tudo bem que "Confissões" deve ter se baseado no clássico de Bergman, se bem que eu ainda não li nada sobre isso... Mas vejam se eu não tenho razão: "Morangos Silvestres" narra a história do professor de medicina Isak Borg, um senhor de 78 anos que receberá uma honraria em sua antiga universidade. Como Isak tem um sonho estranho, que mistura tempo e morte, ele resolve pensar em sua vida, e por isso ao invés de ir de avião resolve ir de carro à cidade onde receberá a homenagem.
Sua nora, Marianne, resolve ir com ele e é durante a viagem que ele recordará os momentos de sua juventude e seu passado que fizeram dele um homem egoísta e amargo. É claro que a viagem o transforma, aliás, desde que vi o filme ando pensando como o cinema usa a estrada como agente de transformação, como as viagens são ilustradas como libertação e por isso auxiliam no processo de descoberta do eu, do sentido da vida, e etc. E assim como Schmidt, Isak vai fundo em seus diálogos e em suas reflexões. Bergman meche com a gente, então ele faz pensar em morte e vida, em relacionamentos e em como coisas do passado podem ser carregadas pela vida. Há um diálogo forte e visceral, quando sua nora conta-lhe que saiu de casa porque engravidou do marido e ele não quer ter filhos, não tem esperanças na vida, apenas na morte, é doído. Sugere que a mulher aborte, já que não quer de modo algum trazer uma criança ao mundo.
Ambos os filmes falam sobre a solidão, Isak chega a dizer que está morto, apesar de vivo. E assim como "Confissões", "Morangos" é um road movie, onde no caminho percorrido, realidade, sonho e memória se entrelaçam. Neste caminho Isak dá carona a um trio de jovens e a um casal e todos o fazem recordar seu passado, ora como jovem desiludido no amor, ora como marido de um casamento infeliz.

E é neste caminho que Isak enfrenta seu passado e seu presente, suas memórias e sua realidade. Interessante como o filme lembrou-me meu avô, ele também tem esses rompantes de lembrar sua infância, tem conversas longas onde passa horas descrevendo seu passado, nos mínimos detalhes. Isak termina sua reflexão percebendo que sua paz está lá, em seu passado, e que seus momentos de tristeza e solidão são compensados com suas lembranças. 
Além de "Confissões", há outro filme muito próximo à "Morangos" que é "Desconstruindo Harry" do Woody Allen, mas esse fica pra amanhã...
Morangos Silvestres (Smultronstallet, Suécia, 1957) ****

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

21° - "As Confissões de Schmidt"


Eu já tive a oportunidade de dizer aqui que gosto muito do Jack Nicholson, ele é ótimo, tem carisma, faz filmes de vários gêneros e está em muitos dos meus filmes prediletos (mas também fez filmes que eu não gosto nem um pouco, como "Tratamento de Choque", ruim), portanto ele ainda aparecerá muito por aqui. "Confissões de Schimdt" é um filme fantástico, delicado, mas ao mesmo tempo é uma bofetada. É o segundo filme do tipo "road movie" que vi de Nicholson, o primeiro foi o clássico "Easy Rider", também excelente.
É engraçado porque eu revi o filme ontem, justamente no dia que estava pensando na vida, na ideia de ter ou não filhos e na importância desta decisão para a velhice. Schmidt acabou de se aposentar, é um cara medíocre em todos os sentidos, vive para o trabalho, mas não é feliz: não é feliz em casa, não tem lazer, não tem prazeres; e uma pessoa assim não dá conta de se aposentar, vamos combinar. Sem ter muito o que fazer, sendo facilmente substituído na empresa pela qual dedicou boa parte da vida, ele vê um comercial sobre apadrinhamento de crianças do 3° mundo, algo do tipo "doe $22,00 por mês e ajude uma criança a sair da miséria e da fome", só que junto com o dinheiro Schmidt precisa escrever uma carta, e ele a faz como um diário, como uma sessão de análise; sem conhecer pessoalmente o menino para quem escreve, ele se vê livre para realmente dizer o que sente (ou pelo menos dizer o que ele quer).
Ele é infeliz, vive há 42 anos com sua mulher e acha que detesta todas as suas manias, só que ela morre, logo no início, de um coágulo no cérebro, e a partir daí Schmidt vai reavaliar sua vida, mas sem ser piegas. O filme fala da solidão e tem cenas tristes e lindas, como a dele sentindo saudades da esposa e se lambuzando com o creme de rosto dela. Schmidt tem uma filha que mora longe, é fútil e fria, assim como o pai. Em sua solidão, Schmidt vai para o casamento dela com alguns dias de antecedência, mas ela não quer sua presença, então ele resolve ir aos lugares que já foram importantes pra ele um dia, passando em cidades, revendo sua vida, pensando em perdão e nos sentidos da vida...
No início do filme, na cena na qual a empresa faz uma festa de aposentadoria, um colega de Schmidt faz um discurso caloroso centrado na ideia de que "o que importa é saber que você se dedicou a algo importante na vida" e poxa deve ser uma pedrada olhar para traz e perceber que você foi mediano, que a coisa pela qual se dedicou mais você é facilmente substituído por um garoto que acaba de sair da faculdade. O próprio Schmidt fala que quando jovem tinha o desejo de fazer a diferença, de ser meio-importante, de criar uma empresa, mas a vida foi levando, foi acontecendo...

Hoje em dia há um discurso muito forte de que você deve ser produtivo para se sentir vivo, e vejo aí uma legião de workholics sendo construída, pessoas que falam com orgulho que trabalharam o fim de semana inteiro, que ficaram a madrugada estudando ou trabalhando. Não estou fazendo aqui apologia à preguiça do trabalho, ao contrário. Eu gosto muito de trabalhar, mas o meu trabalho não me define, não me resume. É apenas mais uma parte de mim, longe de ser a única e a preponderante. Eu tenho minha vida, meu lazer, minhas horas de ócio produtivo, minha família, e tudo isso é importante também. Se no trabalho nós somos facilmente substituídos, não podemos dizer o mesmo da família, dos amigos e é neles que devemos nos centrar na vida, porque o resto te abandona, o trabalho, o dinheiro, o prestígio, mas não o amor, a amizade, o companheirismo.
E voltando ao filme, ele tem um final incrível, porque pequenas atitudes podem causar grandes diferenças e que o amor e o afeto pode vir de onde menos esperamos. 
As Confissões de Schmidt (About Schmidt, EUA, 2002) ****

domingo, 20 de janeiro de 2013

20º - "Jackie Brown"

"Black is good" (Max)
Eu não sei por que, mas eu jurava que "Jackie Brown" era o primeiro filme de sucesso do Tarantino, antes mesmo de "Cães de Aluguel". Deve ser pelo fato do filme ser pouco falado e comentado na história do diretor e eu não entendo o motivo. Tudo bem que o filme vem depois de "Pulp Fiction", clássico do diretor, escritor e produtor, mas o filme é muito bom e tem os elementos característicos do Taranta. Gosto muito dele e de todos seus filmes que vi, gosto do seu estilo e também o acho muito educado (pelo menos é que parece nas entrevistas e falas que eu já vi), enfim é um prato cheio. O Tarantino consegue fazer um cinema que mistura estilos, com figuras bizarras, falas e takes loooongos - e muitas vezes em momentos triviais do filme -, e juntando todos esses elementos ele consegue fazer algo diferente, principalmente se tratando do cinema americano. E também é possível perceber em seus filmes o cuidado com o todo, com a cena, com as personagens, com o diálogo, com a história, com o figurino... E o que falar de suas trilhas sonoras? O CD de "Pulp Fiction" é maravilhoso, todas as músicas são ótimas, me lembro que foi um CD que habitou meu aparelho durante muito tempo.
E assim, talvez em termos de Tarantino, "Jackie Brown" é um filme mais previsível, mas nem por isso deixa de ser bom. Neste filme ele resgata alguns atores que estavam fora do circuito há algum tempo, como Pam Grier (Jackie Brown) e Robert Forster (Max Cherry) e é bem interessante a cena na qual eles conversam na cozinha dela e falam sobre envelhecer e suas consequências... Em "Jackie Brown" Tarantino faz um tributo a filmes do tipo blaxploitation, os protagonistas são negros e a única personagem burrinha e sem graça é uma loirinha do tipo surfista (vivida por Briget Fonda). Jackie (Pam Grier) é uma personagem forte, é uma mulher que está numa situação complicada, praticamente sem saída, e consegue dar a volta em todos os homens ao seu redor (incluindo os policiais e o traficante, todos durões e machistas).
É difícil comentar sobre o filme sem apresentar spoiler, mas a história é mais ou menos a seguinte: Jackie é uma aeromoça (comissária de bordo) que depois de um infortúnio no passado agora trabalha na pior companhia aérea. Para complementar sua renda, ela contrabandeia dinheiro para Ordell (Samuel L. Jackson, que está uma figura com cabelos e cavanhaque longos) do México, mas a polícia recebe uma denúncia e encontra a grana, junto com pó, então Jackie está num beco: ou se dá mal com a polícia e é presa ou se dá mal com Ordell e é morta. Então ela trama uma saída arriscada, cheia de detalhes, mas é a chance dela se dar bem. E essa história rende um ótimo filme, que vale a pena ser visto. O filme ainda tem a participação de Robert de Niro que vive um colega fracassado de Ordell.
Tarantino é sempre Tarantino, o cara é f** e tem um estilo que é dele, maravilhoso e até certo ponto previsível, você meio que sabe o que vai encontrar quando senta pra ver um filme dele. Sabe que ele não é politicamente correto, que pode inverter as coisas e a ordem, que pode beirar o paspalhão, que pode ter sangue jorrando, cenas esdrúxulas e falas compridas em momentos sem sentido, mas principalmente você sabe, ou melhor, tem certeza, que vai ser bom, que você vai se deleitar e que, incrivelmente, ainda vai se surpreender. 
Jackie Brown (Jackie Brown, EUA, 1997) ***** 

sábado, 19 de janeiro de 2013

19º - "O Concerto"



Eu vi "O Concerto" e confesso que ele me ganhou só no fim... A história é até bacana, Andrei Simoniovich Filipov, um ex-maestro do Bolshoi que foi humilhado por se negar a despedir os músicos judeus há 30 anos e agora vive como faxineiro do mesmo teatro, encontra uma oportunidade de ir à Paris no lugar da atual orquestra, como maestro, reunindo seus antigos músicos - que agora trabalham com outras coisas, não música. A única imposição de Andrei é a presença da solista de violino Anne-Marie Jacquet porque, é claro, ela tem a ver com o passado deles. 
O filme tem duas horas e em sua primeira hora eu não tava dando nada por ele... acho que o filme pega um pouco pesado ao retratar a Rússia e os russos, fazendo uma caricatura de um lugar extremamente pobre, com pessoas sem educação e sem modos para a Europa (só uma cena já é capaz de ilustrar: eles chegando no hotel e deixando o recepcionista sem ação). Outra coisa, infelizmente não entendo de música clássica, tampouco de orquestras, mas me parece muito inverossímil que o conjunto consiga tocar maravilhosamente bem, com apenas poucos tropeços no início, depois de 30 anos e sem nenhum ensaio... 
Massssss nos 20 minutos finais do filme (que tem 2 horas) ele se redime e é justamente quando a orquestra começa a tocar, é lindo de ver. Durante a peça, o filme vai passando imagens que vão justificando algumas atitudes e também mostrando qual foi o futuro da orquestra, tudo ao som de Tchaikovsky, emocionante. O final também é uma redenção, o choro, o alívio e o perdão, as rosas e o teatro inteiro aplaudindo de pé. E assim “O Concerto” mostra como a música é algo que supera os infortúnios, cura as dores, é alento pra alma e une as pessoas (muito melhor que “O Som do Coração”). E essa transformação foi pra mim o motivo de gostar do filme, quando eles começam a tocar estão perdidos, com rancor, raiva, tristeza, mas a medida que a música desenvolve ela também transforma, se transforma em perdão, em amizade, em gratidão, em alegria. 
O Concerto (Le Concert, França, Bélgica, Rússia, Itália e Romênia, 2009) ***

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

18° - "Up - Altas Aventuras"



Hoje estou tão cansada que um filme bem levinho e divertido caí muito bem. Eu adoro as animações da Pixar, tem como não gostar de "Wall-E", "Procurando Nemo", "Monstros S.A.", "Os Incríveis", "Ratatouille"? Ahh, lindezas... Em "Up - Altas Aventuras" temos dois protagonistas inusitados, um velho e um menino asiático, diferente para protagonistas de animação, não?! O começo do filme descreve uma história que representa o que deseja grande parte da população: encontrar um parceiro pra vida, ser feliz no casamento, envelhecer juntos e com amor, é lindo de ver, e também emocionante. 
Carl, o velhinho até então rabugento, sem lugar (em todos os sentidos da palavra) resolve amarrar vários balões e voar até a América do Sul, num lugar que ele e Ellie (sua mulher) sempre sonharam conhecer. Essa mensagem do sonho é também emocionante, eles juntaram dinheiro a vida inteira, mas não realizam, dá pra pensar um pouco nesta história de dinheiro X vida, apesar de ser tão batida. Mas acho que a gente que é adulto sempre vive esse conflito: juntar (mais) dinheiro ou viajar? ou passear? ou decorar a casa? a resposta parece óbvia, mas não é, o dinheiro é também necessário pra dar segurança na vida e na velhice... Enfim, eu tento ir pela linha do equilíbrio, mas nem sempre é fácil. No filme, quando Carl tem que se livrar dos móveis da casa para que ela flutue a mensagem é clara, que para voar a gente precisa se livrar das coisas - isso mesmo coisas - materiais.
Mas o filme tem Russell, o menininho asiático que por acaso está na casa quando ela começa a flutuar e vai viver a aventura junto com Carl, e ahh, ele é uma fofura, e eu me diverti muito com ele, todas as vezes que vi o filme - tem uma cena muito engraçada do GPS que cai na janela - e olha que Russell rendeu muitas cenas emocionantes, como o final. E ainda tem mais fofuras, tem a pássara colorida, tem o cachorro fofo e carente. Enfim, uma coleção de motivos para fazer seu dia mais leve, pra te levantar.
Up - Altas Aventuras (Up, EUA, 2009) ***

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

17° - "Intocáveis"



"Minha maior deficiência não é viver nesta cadeira de rodas. É viver sem ela." (Philippe)

Pronto, este é "Intocáveis", fenômeno do cinema em 2012, e por aí já entendemos o motivo.  Eu fiquei encantada com o filme e vou dizer que era difícil me encantar, já que todos falaram e falam de "Intocáveis" e é comentário geral que o filme é muito bacana, lindo, sensacional e etc... Para falar a verdade euzinha já estava até com um cadim de preguiça de assistir, porque assim, depois de tanta recomendação, achei mesmo que o filme não me surpreenderia, e positivamente me enganei.
A sinopse, vamos combinar, não indica nada de muito diferente, um tetraplégico ricaço precisa de um cuidador, um desajustado chega, sem experiência, sem técnica e sem vontade de trabalhar, mas ainda assim, apesar das diferenças, eles estabelecem uma amizade. Tenho que admitir que o enredo é previsível, mas a história é empolgante (principalmente quando sabemos ser baseada numa história real), não é a toa que se tornou a segunda maior bilheteria da França. E também é um retrato de sua realidade, da França branca, hermética em sua cultura e valores e da França imigrante, marginalizada.
Mas o filme ainda tem outros trunfos, seus personagens principais são maravilhosos, tanto Omar Sy (Driss) quanto François Cluzet (Philippe). E eles constroem uma relação baseada na completude, o que há em um falta noutro e vice-versa; enquanto um é a cabeça, é erudito, inteligente, sábio, vivido; o outro são braços e pernas, juventude, imaturidade, mas também sorrisos e ingenuidade.
Enquanto eu via o filme algo não saia da minha cabeça, a importância do bom-humor para a vida. Acho que Philippe gosta de Driss porque ele negligencia seu estado de saúde, mas na verdade ele negligencia tudo, ele não leva a vida a sério. Ele faz rir. E acho que levar a vida com bom-humor é um dom, muito raro. Neste quesito acho que a escolha do ator foi fantástica, Omar Sy (Driss) é um cara que quando ri sua cara ri junto, sabe este tipo? É contagiante. Tenho pensado cada vez mais que grande parte da vida não deve ser levada a sério, na risada é mais fácil, tanto que minha filosofia de vida para 2013 é tentar, cada vez mais, não ter medo do ridículo, já que “a única pessoa livre, realmente livre, é a que não tem medo do ridículo”, Veríssimo. É bem difícil ver “Intocáveis” sem tirar o sorriso do rosto, eu chorei de rir na cena dos bigodes, mas também me emocionei muito nas cenas dramáticas.
E sabe, na minha opinião “Intocáveis” é um filme sutil, tem tudo pra ser piegas, mas não é. Seu foco não está na doença (durante o filme me lembrei de “Mar Adentro”, este sim um filme denso sobre a tetraplegia), não está na desigualdade social, nem na violência, nem na pobreza ou riqueza. Ele passa por todos esses temas com sutileza. Ele tem tudo para virar um drama, mas opta pela comédia. Um filme que sonda tantos assuntos duros, mas consegue ser leve, como Driss e Philippe querem levar a vida, apesar de tudo.
Intocáveis (Intouchables, França, 2012) ****

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

16° - "Zelig"



Bem, como ontem eu falei sobre a minha paixão por Woody Allen - ele é meu diretor favorito - nada mais justo que comentar hoje um filme dele. Eu gosto muito do Woody, mas não me lembro como minha predileção por ele começou. Embora eu seja fanzoca dele, tem filmes que amo, outros gosto muito e outros simplesmente gosto. Todos dizem que ele inaugurou uma nova fase a partir de Match Point, e eu acho incrível nele essa capacidade de mudança, mas eu gosto de seus filmes antigos e gosto de seus filmes que são considerados sua pior fase (de 2000 até 2005), eu adoro "Trapaceiros", "O Escorpião de Jade", "Dirigindo no Escuro" e "Melinda e Melinda".
Woody não é bom ator, pois sempre interpreta ele mesmo em seus filmes, e isso pode parecer repetitivo, mas incrivelmente não é. Eu gosto muito do seu tipo, um nova-iorquino neurótico, frustrado, um judeu quase ateu, é hilário! Por curiosidade fiz umas contas por aqui e percebi que, dos seus 50 filmes eu vi quase 40, o que me permite comentar um por semana neste projeto do blog. O que eu mais gosto em seus filmes é que ele consegue pegar uma característica da sociedade e colocá-la em close up. Dificilmente você será convencido a ver seus filmes pela sinopse, porque muitas vezes eles não estão preocupados com finais surpreendentes e tramas muito bem amarradas, mas sim com diálogos interessantes, inteligentes, e são nestas sutilezas que ele sempre me ganha.
O filme que gostaria de falar hoje está, certamente, no topo dos meus preferidos. Em "Zelig" Woody coloca em evidência a construção de identidades culturais, apresentando a história do camaleão humano. O filme - de 1983, ano do meu nascimento - é apresentado como se fosse um documentário da vida de Leonard Zelig (Woody Allen), um homem que tem a capacidade de se transformar - psicologicamente e fisicamente - de acordo com quem estiver interagindo. Sendo assim, Zelig pode ser irlandês, negro, gordo, médico, indío, soldado (é ótimo, um judeu que vira soldado nazista, ao lado de Hitler), piloto de avião, para citar algumas das personalidades que assume durante o filme. 
Passado em preto e branco, Zelig se torna um caso clínico, depois um freak show, mas sempre uma personalidade nos EUA. Todos querem conhecer o camaleão humano, que pode ser qualquer um, mas quando está só não é ninguém... Woody entrelaça takes reais, com personalidades reais, inserindo a figura de Zelig.
E assim, me lembro que quando vi o filme a primeira vez eu me apaixonei de cara, porque eu me considero um pouco Zelig, e na verdade quem não seria? Nossa identidade é construída de maneira interativa, somos de acordo com quem convivemos. É difícil engolir a história de que somos verdadeiros e únicos, porque na verdade somos múltiplos, somos filho, pai ou mãe, tios, amigos, amantes, profissionais e em cada um desses locais nos adequamos, nos adaptamos como um camaleão...
Mas é óbvio que há um limite e para Zelig a explicação para sua situação não é patológica, mas psicológica (apesar da junta de médicos discordar totalmente). Quem o cura é a Dra. Eudora Fletcher (Mia Farrow) uma psicanalista. Zelig tem esse distúrbio porque quer agradar a todos, porque quer ser aceito... E atire a primeira pedra quem nunca na vida fingiu ter lido Moby Dick para fazer parte de um grupo... Então Zelig fala de inseguranças e aí, poxa, ele vai fundo. Engraçado que senti uma diferença grande da primeira vez que vi o filme e agora, quando o revi para poder escrever aqui. A primeira vez que vi me identifiquei totalmente, eu era o Zelig em sua versão light feminina. Mas agora, um pouco mais velha, ainda enxergo as semelhanças, mas vejo com mais facilidade o quanto é inútil e frustrante tentar agradar a todos, como este caminho é curto para a infelicidade. Creio que o fato de ser professora ajuda muito neste processo, porque não há exposição maior para a necessidade de aceitação do que ser docente, não é verdade?! Não dá para agradar a todos. Mas ainda acho que de médico, louco e Zelig todo mundo tem um pouco, afinal de contas vivemos em sociedade e interagir é preciso. 
Zelig (Zelig, EUA, 1983) *****