quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

45° - "Tudo sobre minha mãe"


"Tem gente que pensa que os filhos são coisa de um dia. Mas se demora muito, muito. Por isso é tão terrível ver o sangue de um filho derramado no chão. Uma fonte que corre durante um minuto e que a nós nos custou anos. Quando encontrei o meu filho estava jogado no meio da rua. Eu molhei as mãos de sangue e as lambi com a língua. Porque era meu sangue..." 
Este projeto tem 45 dias e até hoje eu não falei de nenhum filme do Almodóvar, um diretor que eu gosto tanto... Mas acho que vou estreá-lo aqui em grande estilo, falando de um dos meus preferidos; "Tudo sobre minha mãe" apresenta, em minha opinião, a mãe mais maternal do cinema, forte, generosa, dedicada, amiga e amorosa, sim, eu sou fã de Manuela (interpretada por Cecilia Roth). Ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro, "Tudo" conta a história sofrida de Manuela e outras tantas histórias que se entrelaçam à dela, como a de seu filho Esteban que morre na noite de seu 17° aniversário, atropelado quando vai pedir um autógrafo à Huma Rojo (Marisa Paredes), atriz principal da peça "Um bonde chamado desejo". Manuela, que é enfermeira e responsável pela parte de doação de órgãos se vê agora do outro lado, tendo que doar os órgãos do próprio filho, e é linda a cena da outra enfermeira, de outro hospital, que a conhecia por telefone, chorando pela morte do filho da colega (coisitas femininas que só uma alma como a do Almodóvar pode captar). Com a dificuldade de lidar com a dor pela morte do filho, Manuela resolve sair do hospital, sair de Madri para ir até Barcelona, onde está o pai de Esteban (que desconhece o fato de ter um filho) e contar a ele sobre o menino. Acontece que chegando em Barcelona Lola (uma travesti que é o pai de Esteban) está sumida, então Manuela se reencontra com sua amiga Agrado (também travesti, "porque sempre quis tornar a vida dos outros agradável"), com Huma e Nina (sua namorada) e conhece a freira Rosa (Penélope Cruz) que está grávida de Lola e dela também contraiu o vírus HIV. Pronto, são tantos temas polêmicos que facilmente viraria um filme piegas e exagerado (se fosse brasileiro...), mas não na mão de Almodóvar, que faz tudo isso funcionar em tanta harmonia que você se esquece o quão bizarro é.
O filme é tão delicado, e trata desses elementos polêmicos com tanta sensibilidade e humor... Em minha opinião é o papel mais carismático de Penélope Cruz, é um filme no qual um dos protagonistas é travesti, Agrado, responsável por cenas muito divertidas, e ainda há várias cenas dolorosas, como a da morte de Esteban, a cena de Manuela contando para Huma por que a procurou e a cena de Rosa se despedindo do pai (que está com Alzheimer e não a reconhece) e do cachorro dentro do táxi antes de ir para o hospital.
Manuela é a mãe mais mãe que eu me lembro de ter visto no cinema, ela é mãe do Esteban seu filho, Esteban filho de Rosa, de Agrado, de Huma, de Rosa, é dura e amorosa como deve ser, tem amor e dor que uma mulher mãe que perdeu o filho provavelmente sempre carregará.
No filme há também os elementos característicos de Almodóvar, suas cores, suas personagens; e o Almodóvar consegue, como ninguém no cinema, homenagear as mulheres, em “Tudo” os homens que aparecem (quando aparecem) são totalmente coadjuvantes, o filme é dominado por figuras femininas, o tempo todo, é uma grande homenagem às mulheres, às mães.
“A todas as atrizes que interpretam atrizes, a todas as mulheres que atuam, aos homens que atuam e se tornam mulheres, a todas as pessoas que querem ser mães. À minha mãe” Pedro Almodóvar.
Tudo sobre minha mãe (Todo sobre mi madre, Espanha, 1998) *****

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

44° - "Um evento feliz"


Hoje é quarta-feira de cinzas, acabei de voltar de viagem e estou cansada... Não que eu seja uma foliã de raça, mas os 4 dias de folia esgotam minha disposição física, há o tumulto dos blocos, o cansaço do calor excessivo, mas tudo isso é pouco perto da alegria que é o carnaval, e no Rio é tudo muito diferente, as pessoas têm uma disposição incomum, desde bebês de colo até gente bem velhinha, tá todo mundo fantasiado na rua, confraternizando, se divertindo, é um clima único, que eu acho que as pessoas não deveriam abrir mão. É bonito ver como a sociedade se mobiliza, que nestes poucos dias do ano você tem licença pra ser ridículo, e quanto mais ridículo mais popular. O Rio é enorme, mas nos lugares que frequento e já frequentei em outros carnavais eu nunca vi uma briga, uma confusão, todos são felizes, alegres, estão dispostos a brincar. Enfim, por mais que eu não tenha disposição física para pular o carnaval como eu gostaria, sempre vale a pena, existe um momento, mágico, que você olha pra centenas de pessoas com a mesma energia e este momento é único, salve o carnaval!
À parte do meu testemunho, que deveria ter durado apenas algumas linhas, e apesar de estar cansada, não posso parar com meu projeto e resolvi continuar meu tema que durou alguns posts atrás: a maternidade. "Um evento feliz" foi um filme que eu vi super despretensiosamente com uma amiga no “Festival Varilux de Cinema Francês” ano passado e o filme é bem bacana, inclusive o vi em algumas listas sobre os melhores de 2012. 
Além disso, há alguns elementos que me fizeram identificar com "Um evento" que conta a história de um casal, ela (Barbara, vivida por Louise Bourgoin) escrevendo sua tese e ele (Nicolas, Pio Marmai) atendente de uma locadora começam uma história de amor, e no auge da paixão resolvem ter um filho, que vem mais rápido do que eles imaginaram. Eu gostei da cena de Nicolas tentando conquistar Barbara através dos nomes de filmes quando ela visitava a locadora, ele sugere filmes como “Um homem, uma mulher” e “Leis da atração” e ela aluga “Amor à flor da pele” e “Prenda-me se for capaz”.
"Um evento" não é um filme muito fácil, desses hollywoodianos que fazem graça com todas as atrapalhadas de pais de primeira viagem; ao contrário, ele mostra, de maneira difícil, mas que me parece bem real, como um filho muda a vida dos pais. É lógico que há alegria e esperança, mas também há cansaço, falta de sono, falta de tempo, bagunça, enfim, mostra como um casal tem que estar preparado psicologicamente e financeiramente para que as mudanças que um filho gera não estrague a relação amorosa. 
Muita gente fala por aí que filho segura casamento, mas eu acho que é contrário. O filho deve vir se o casal estiver bem na relação e se ambos desejarem, caso contrário as mudanças afastam. Neste sentido o filme é sofrido porque mostra como a relação muda da paixão para o estranhamento por conta da rotina, apesar de ter um final surpreendente.
Gosto muito da maneira como a tese de Barbara vai evoluindo, ela que em princípio pretende escrever sobre o outro na filosofia, vai mudando sua maneira de pensar depois do filho, abandona sua compreensão niilista e vazia para outra mais generosa, compreensiva, maternal. Isso mostra como um filho muda a percepção dos pais sobre a vida, sobre a esperança com relação ao futuro e de uma maneira delicada, bonita.
E também tem o fato de Barbara ter uma mãe que não é maternal, que sempre disse às filhas para pensar antes de engravidar e o filme mostra como a gente aprende a ser mãe (ou pai) a partir de nossas referências.
"Um evento" apresenta de maneira crua o que a maternidade/paternidade pode oferecer, e é bem interessante em seu intento, tanto como drama, romance e comédia, de mostrar os impactos que uma gravidez e um filho têm na vida de um casal.
Um evento feliz (Um heureux événement, França, 2011) ***

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

43° - "Apocalypse Now" (guest post)


Hoje é o dia dele, Digulim, meu parceiro da vida, meu amor. Eu pedi a ele que homenageasse este blog escrevendo sobre seu filme preferido, aqui vai:

Tenho acompanhado com muito orgulho este projeto da minha esposa de comentar um filme por dia, neste ano de 2013. E como hoje é meu “compleaño” ela me deu a honra de participar deste hercúleo, mas prazeroso intento. Vamos lá, resolvi que vou falar daquele que desde a primeira vez me causou grande impressão: “APOCALYPSE NOW”, do Coppola, uma adaptação de um livro de Joseph Conrad, intitulado “No Coração das Trevas”, filmado em 1979.
Sou um pouco exagerado sobre este filme, pois cada um de nós tem uma leitura acerca de uma obra de arte, e este filme merece tal título.
A história começa com um capitão Willard (Martin Sheen), já um tanto perturbado pela Guerra do Vietnam, e por um momento de inatividade aguardando ordens em um quarto de hotel recebendo a missão estritamente confidencial de matar um coronel Americano (Marlon Brando) que enlouquecera em um posto avançado no Camboja, lançando os habitantes locais em uma escalada de barbárie inaceitável, mesmo para os padrões éticos de uma guerra.
A missão deve ser cumprida de forma discreta, pois qualquer vazamento de informações acerca do Coronel Kurtz e seu império do terror poderia ser a última gota no esforço de guerra americano, que já contava com grande antipatia de parte da população ianque.
O Cap. Willard então, parte de barco subindo o rio em direção ao posto do Cel. Kurtz, escoltado por quatro soldados que desconhecem os motivos da missão.
À medida que sobem o rio, o absurdo das situações criadas pelo conflito aumenta em níveis indigestos, como numa parábola, em que o rio seria a mente humana submetida a tais ambientes, perdendo, a cada dia, o contato com a civilidade.
Ao finalmente se deparar com Cel. Kurtz, mesmo após vislumbrar o ambiente bizarro de matança e violência criado pelo mesmo, ficamos chocados por percebê-lo, não com um louco, mas alguém que de forma sã, quase cerebral, adaptou-se para sobreviver, física e mentalmente em um ambiente de guerra desumano, no qual seu país não tinha tão bem delineado seu papel de defensor da liberdade.
Não espere um filme fácil, ou de ação, é um filme psicológico que trabalha como poucos a verdadeira face da guerra, do conflito humano e suas consequências para quem deles participa.
Mais que isso, como em outras obras primas, como “Ensaio Sobre a Cegueira”, mostra o quanto nossa civilidade é frágil e podemos nos tornar selvagens, se assim for necessário.
A atuação de Marlon Brando é, em minha opinião, a melhor de sua extensa carreira, dado ao impacto causado por seu personagem.
Caso você tenha estômago forte, opte pela versão Redux, reeditada pelo próprio Francis Ford Coppola.
Apocalypse  Now, EUA, 1979 *****

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

42° - "A primeira coisa bela"


Se Eva, a mãe de Kevin, teve que pagar duramente por não ter um espírito maternal tão desenvolvido, Anna Nigiotti a mãe de "A primeira coisa bela" é praticamente a mamma do nosso estereótipo de mãe italiana, ela ama os filhos e em meio a toda sua vida, imprevistos e pelejas, ela sempre lutou para ter os filhos embaixo da sua asa.
Sabe que pensando com cuidado as duas mães não estão tão longe assim, primeiro porque são mães, e depois porque elas não se encaixam nos padrões esperados de uma mulher (até hoje, sim...). Se Eva teve que sofrer porque não queria o filho, não se sentia maternal, Anna é uma mãe bonita, desejada por outros homens e nada disso citado acima está no script da vida esperada de uma mulher (e mãe). Nós podemos estudar, trabalhar, ter nossa independência material e emocional, mas em algum momento a sociedade espera de nós que procriemos e, procriando, que amemos nossos filhos como nunca amamos nada nem ninguém; após nos tornarmos mãe, esse será nosso principal papel, de protagonista, praticamente nos definindo... Grande parte das mulheres se encaixa nessa rotina, mas aquelas que não certamente sofrem algum tipo de pressão, pior do que serem solteiras, serem casadas e optarem por não ter filhos, e tendo filhos cuidarem dele como parte da família, não como rei ou rainha (como diria Mafalda, vivendo em cooperativa, sem chefes de família, risos). 
Não estou fazendo com isso apologia a não ter filhos ou a não amar os filhos, nada disso. Só estou querendo provocar um pouco pelo fato de que o que a sociedade espera de nós é muito limitador e por isso, muitas vezes, frustrante...
Anna Nigiotti (vivida por Micaela Ramazzotti mais nova e por Stefania Sandrelli mais velha) é esposa, mãe de um casal e bonita, extremamente sexy para uma mãe dos anos 1970, pronto este é seu fardo e seu pecado. O filme inicia-se mostrando Anna ganhando o concurso de "miss mamma" (ela não se inscreveu, estava no meio da plateia e foi convidada, por sua beleza) e isso gera um ciúme excessivo do marido, que fica agressivo com ela e com os filhos; é o suficiente para Anna sair de casa no meio da noite, mas levando os filhos, claro. Na casa do pai, sua irmã não a aceita e ela tem que ir pra um hotel, e depois disso vai passando uma dificuldade atrás da outra para sobreviver e oferecer um lar e certo conforto aos filhos; mas sempre há carinho e afeto. Na verdade esses acontecimentos são mostrados em flashbacks, porque o filme é apresentado na atualidade, com Anna no hospital, já no fim da vida. Seus filhos estão crescidos, Valéria (Claudia Pandolfi) cuida da mãe, mas seu irmão Bruno (Valério Mastandrea) que é professor e um homem frustrado (apesar de ter uma namorada que é uma fofa) mora em outra cidade e não visita a mãe. Valéria, então, vai buscá-lo para que possa se despedir e passar alguns dias (os últimos) com a mãe. Nesses encontros o filme vai mostrando histórias passadas, a frustração de Bruno em ter uma mãe solteira e bonita (e cobiçada pelos amigos adolescentes, que fazem piada sobre ela) e como os filhos, embora com a mesma criação, a veem e lidam com a mãe de maneira bem diferente.
No presente Anna ainda continua bonita e de bem com a vida, apesar de estar muito doente, ainda se casa, na cena final – e mais bonita – do filme. Confesso que “A primeira coisa bela”, apesar de ser muito comentado, não me surpreendeu muito e o filme se desenrolou de forma muito parecida com tantos outros. Mas qualquer filme, por ruim que seja (não péssimo, ou será que até os péssimos?) ainda tem uma última chance, de redenção, que é o final, e o final de “A primeira coisa” é muito bonito e emocionante (no mesmo fim de semana vi também o ótimo “Drive”, que faz um caminho inverso, é ótimo durante e tem um final a desejar... e por incrível que pareça, com o tempo, os filmes que têm um final primoroso – não digo necessariamente feliz, mas que combine com o desenrolar da trama – são os que ficam).
A primeira coisa bela (La prima cosa bella, Itália, 2010) ***

domingo, 10 de fevereiro de 2013

41° - "Precisamos falar sobre Kevin"


"Precisamos falar sobre Kevin" é uma porrada, dessas assim no meio da cara. O filme foi tão chocante pra mim que ao final estava tão irritada e me perguntando: por que alguém faz um filme (ou escreve um livro) assim? Fiquei nervosa mesmo, porque o filme te deixa tão desconfortável que você se pergunta: pra quê?
Mas depois o tempo vai passando, você vai se acalmando e as coisas vão fazendo sentido, não o filme e sua história, mas as maravilhas que o cinema pode proporcionar, viver tantas histórias, descobrir tantas possibilidades, pensar sobre elas, aprender a relativizar, a tolerar. Isso pra mim é a magia mais bonita de um filme, e que é bem próxima a de um livro. Por falar em livro, por mais que eu entenda melhor a história de Kevin, eu ainda acho que não teria estômago para lê-la, uma coisa é passar, sei lá, duas horas, outra são horas e dias, remoendo, se entristecendo... E claro que existe beleza na tristeza, mas não, essa eu passo, obrigada. Quem sabe algum dia...
Isso tudo porque "Precisamos" é um filme pesado, denso e tenso. Tem violência, mas ela não é do tipo que estamos acostumados com Bruce Lee, ela é emocional, doída. Se me permitem uma piada, deveria ser utilizada em campanhas de controle de natalidade. Se você tem dúvidas se quer ter filhos não deveria assisti-lo (ou sim), porque o filme trata de um assunto difícil que é: você não tem controle sobre seu filho. É óbvio que há a educação, mas boa parte do que ele é ou vai ser depende da personalidade dele. E se seu filho nascer psicopata? Mais uma vez endosso que a educação e o carinho resolvem muita coisa, mas não tudo, coitado dos pais, muitas vezes carregam um fardo pesado demais, se sentem responsáveis demais pelo ser humano que @ filh@ resolveu ser...
"Precisamos" começa com um vermelho em excesso, numa festa, na casa e no carro de Eva (Tilda Swinton).  Realizado em flashbacks, mais tarde vamos entendendo o motivo de Eva ser tão rejeitada pela comunidade: seu filho Kevin. Mostrando presente e passado, percebemos que Eva era uma mulher feliz e tinha um relacionamento feliz com Franklin (John C. Reilly, que faz um marido muito parecido com o que fez em "As horas"), só que ela engravida sem desejar e Franklin quer ter o bebê. Ela não se sente feliz grávida, não se sente feliz com o filho pequeno e Kevin não gosta dela desde sempre. Aqui muita gente pode alegar que Kevin já se sentia rejeitado por ela, mas perae, Eva tentou, ela se sente culpada por não ser maternal (como na cena da hidroginástica, ou algo assim, quando está grávida, no vestiário, cheio de mulheres grávida - e lindas - exibindo suas barrigas e ela se sentindo um ET), em nenhum momento ela destrata o filho (pensem aqui na mãe de “Preciosa”, isso sim é um mãe má e cruel com a filha), não se sente a vontade no papel de mãe, mas não pode ser culpada pela personalidade e pelas atitudes do filho; mas se sente, e prova disso é que aceita com resignação a hostilidade da comunidade frente à atitude de seu filho.
Estou enfatizando aqui meu ponto de vista porque lembro exatamente de quando fui pegar o filme na locadora e a atendente me disse que só uma pessoa – “que era meio doida” – defendeu a mãe... Gente! O carinho, amor, afeto são fundamentais para a criação de um ser humano saudável emocionalmente, mas a falta disso não gera, necessariamente, o contrário: um ser humano despido de sentimentos como é Kevin, isso é ônus demais para os pais carregarem.
Então Eva se sente totalmente desajustada no papel de mãe, mas ela insiste, não desiste, não passa pra ninguém sua responsabilidade. Há uma cena ótima, quando ela passeia com Kevin ainda bebê e ele não para de chorar, e Eva para ao lado de uma construção ao som de britadeiras e, enfim, relaxa... Pensem no sofrimento desta mulher... O pai tem afinidade com o filho desde pequeno, mas trabalha fora e convive bem menos com ele do que a mãe.
Kevin vai crescendo e a gente vai percebendo como ele é verdadeiramente ruim. A única atitude realmente condenável da mãe é dizer, na frente de Kevin quando ele era criança, que a vida dela seria mais feliz sem ele. Gente e o menino é ruim mesmo, faz tudo para desagradá-la, não fala, usa fraldas até mais velho, rabisca o quarto que ela decorou com carinho e, principalmente, faz um jogo psicológico muito forte com a mãe, e ela se sente culpada, como se sente. Kevin sabe disso e usa essa culpa o tempo todo, como na cena na qual a mãe o vai visitar na cadeia (quando está mais velho), ela fala algo e ele põe o dedo na cicatriz que ele tem graças a uma queda por conta de um acesso de raiva da mãe, e isso é o suficiente para que ela mude de assunto.
Kevin cresce, deve ter uns 16 anos e ainda continua ruim. Eva tem outra filha, que é um doce e a mãe a aceita muito melhor, como uma mãe deve ser. Mas Kevin continua a fazer suas maldades, mata o coelhinho (ou algum bichinho que a irmã ganhou de natal) e ainda colabora no acidente em que a irmã perde um olho (tadinha...).
Sabe o que me irritou ainda mais? O pai. Franklin é um bocó (mais uma vez, muito parecido com “As horas”), não percebe nada e ainda não acredita na mulher, e Kevin se faz de bom moço na frente dele, o que irrita ainda mais Eva (ou a mim que estava assistindo).
O final do filme é esperado, já sabemos que Kevin está preso e que a sociedade condena não só o filho, mas também a mãe e por isso podemos ter alguma ideia do crime cometido, mas não, é pior, Kevin faz seu último ato, de uma maldade sem limites com a mãe, a deixa viva, mais culpada ainda.
Para viver ela, que antes tinha um emprego respeitável, tem que trabalhar como uma assistente numa agência de viagens, tirando xerox e fazendo pequenas coisas, e ainda tem que ouvir desaforos e ofensas dos colegas.
Bem, “Precisamos” não é pra qualquer um, não é pra qualquer dia, mas é um filme intrigante, que te põe pra pensar sobre a vida, sobre as pessoas e é por isso que merece ser visto.
Precisamos falar sobre Kevin (We need to talk about Kevin, EUA, 2011) ***

sábado, 9 de fevereiro de 2013

40° - "Inconscientes"


“A mim ninguém deixa por algo tão prosaico como outra mulher” (Alma)
Ahh, Inconscientes é bom demais, é engraçado, tem bons diálogos, é bonito de ver e tem uma história ótima. Não lembro por que vi a primeira vez, já que este filme espanhol é tão pouco falado (pelo menos na minha roda de amigos). Eu não entendo nada de psicanálise na teoria e ao que me parece o filme é uma homenagem a eles, aos psicanalistas. Tudo bem que Leon quer matar Freud porque foi aplicar seu método nele mesmo e não deu conta da verdade e diz que está fazendo um favor à humanidade, pois o que Freud tem a apresentar é pesado demais, que a verdade não liberta, rs, enfim, tudo num tom de comédia. Quando ele chega armado para matar, Freud lhe pergunta: você é amigo de Jung? 
"Inconscientes" se passa em Barcelona, 1913, Alma (Leonor Watling) é mulher de Leon, que está desaparecido. Alma - que está grávida de 9 meses (ela tem uma frase ótima: “não duvide da minha intuição, estou grávida, tenho dois corações”!) - se une a Salvador (Luis Tosar), seu cunhado, para ajudar a procurar seu marido. Leon, Salvador e o pai de Alma são psiquiatras e Leon, mais moderno do grupo, foi no ano anterior fazer um estágio com Freud em Viena e voltou tentando aplicar suas teorias e trabalhos. Escreveu então uma tese, onde descreve 4 casos de histeria (uma mulher com mania de perseguição, uma psicótica que tenta matar o marido, uma mulher com problemas de sexo e gênero e uma última que descobriu um segredo de seu passado). Alma acredita que a pista do paradeiro de seu marido está na tese e então, junto com Salvador, vai investigar cada um dos casos. 
O filme tem várias sacadas bacanas, por exemplo, a irmã de Alma é uma mulher recalcada e frígida, mas depois ela se assume lésbica e então se torna uma mulher segura, feliz e bem resolvida no sexo. O filme fala ainda de tabu misturado ao sexo e mostra uma casa onde casais gostam de trocar de roupa e ir a um baile confraternizar (em 1913, 100 anos atrás). Alma tem várias frases bacanas durante o filme (como as que já coloquei acima) e quando ela e Salvador chegam neste baile, ela diz a ele que não se preocupe, isto é apenas mais uma faceta da alma humana. E eu acho essa mensagem bacana em "Inconscientes", que gente feliz é gente bem resolvido na vida (e no sexo).
Mas ainda há outros momentos engraçados, como a recepção de Alzeimer como palestrante no hospital dirigido pelo pai de Alma, ela traduz do alemão para o espanhol, mas Alzeimer tem dificuldades para lembrar seu discurso, o que rende uma cena divertida.
Um filme recomendado para se divertir e também para aproveitar um filme bonito e com boas falas. Tem um bom final no qual Alma, que é considerada uma mulher avançada para os padrões de sua época, no final de torna feminista e vai disseminar suas ideias em terras portenhas.
Inconscientes (Inconscientes, Espanha, Itália, Portugal, Alemanha, 2004) *****

P.S.: Estou indo hoje viajar para o Rio aproveitar o carnaval, mas prometo alimentar este blog e ir adiante com meu projeto, sem furos. Assim pretendo!

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

39º - "Django livre"


Finalmente, ontem, consegui assistir a "Django livre", o novo filme do Tarantino e minhas expectativas estavam lá nas alturas, porque "Django" é unanimidade entre meus amigos e conhecidos. É bem difícil para o Tarantino fazer um filme ruim, ele vai ter que se esforçar muito, mas eu acho mesmo que em toda sua doidera ele anda muito previsível... Eu já assisti a 7 filmes dele, e são todos ótimos, bom enredo, boas histórias, bons personagens e diálogos, mas a dinâmica não muda muito.
"Django" tem todos os elementos do diretor, suas referências, diálogos, trilha sonora, tudo muito bom, como sempre, e agora o Tarantino resolveu assumir uma característica de justiceiro do cinema, fez isso em "Bastardos Inglórios" e novamente em "Django", se no primeiro filme ele se vingou dos judeus, ciganos, homossexuais e todos que têm asco dos campos de concentração matando Hitler sem dó nem piedade (até desfigurar sem rosto, morto com tiros e fogo), agora em "Django" ele se vinga dos senhores de escravos negros, literalmente acabando com a Casa Grande, e isso é um deleite. Aliás, eu achei "Django" muito parecido com "Bastardos", que além da temática da vingança ainda têm em comum Christoph Waltz. Se eu já me simpatizava com o coronel Hans Landa de Christoph em "Bastardos", um nazista irônico e cruel, imagine agora, que ele vive o dr. King Schultz, um caçador de recompensas contra o regime de escravatura, gente fina, amigo e correto, enfim ele tem carisma e uma expressão irônica que funciona muito bem (e está presente nos dois filmes, e também em outro que eu vi, não do mesmo diretor: “Deus da carnificina”). Além disso, ambos os filmes você assiste tenso, o tempo todo com aquela sensação de "agora vai dar m***rda".
"Django" é sobre a história sofrida dos negros nos EUA em 1858. O dr. King Schultz compra Django (Jamie Foxx) de mercadores de negros (essa cena, que é a inicial, é ótima) porque é caçador de recompensas (seu papel é ir atrás de pessoas procuradas por crimes, vivas ou mortas, matá-las e pegar o dinheiro) e está atrás dos irmãos Brittle, que Django conhece. Depois de encontrar os irmãos, Schultz convida Django a permanecer com ele durante o inverno e fazer algum dinheiro, depois promete lhe ajudar a comprar Broomhilda (Kerry Washington), esposa de Django que foi vendida separadamente do marido. Os dois localizam Broomhilda em Candyland, fazenda de Calvin Candie, que possui muitos negros, muitos deles para briga (como galos ou cachorros de briga, tudo horrível) e têm que bolar um plano para tentar resgatá-la.
Eu já reparei que cito muito por aqui a duração dos filmes, então nem vou ficar me alongando sobre a duração de "Django" (2 horas e 45 minutos), mas acho que o filme flui muito bem (só acho que o final poderia ser encurtado) e o Taranta consegue muito bem pegar uma história triste e cruel, apresentar toda a crueldade dela (gente, as cenas da briga entre os negros, só por diversão dos senhores, e outra do negro fraco que tentou fugir e foi devorado por cães é triste demais, eu não consegui ver, fiquei me contorcendo na cadeira e tapei os olhos) e ainda assim contrabalanceá-la com personagens divertidos e cenas engraçadas (as pessoas que enchiam a sala do cinema em que estive riram muito, eu também). E ele manda bem nas escolhas dos atores, além de Christoph Waltz (se eu fosse o Tarantino jamais faria um filme sem ele, rs) e Samuel L. Jackson (muso do Taranta há tantos anos e ele está incrível, que raiva que eu tive dele, aff), ainda tem o Leonardo Di Caprio, que é fantástico e fez um vilão tão carismático quanto Hans Landa.
Por falar no Di Caprio estava eu, assistindo ao filme e pensando “engraçado, até agora ainda não vi nenhum diálogo comprido e típico do Tarantino” e eis que surge, já para o final, a cena na qual Calvin Candie (Di Caprio) desmascara King Schultz e Django graças ao ‘feladamãe’ do Stephen (Samuel L. Jackson), que cena incrível! Além das atuações, há diálogos primorosos, como Candie tentando explicar – com um crânio de um ex-escravo na mão – a teoria naturalista dos escravos, que os negros já nasceram com uma capacidade inata para obedecer sem questionar, a cena é pesada e triste, mas real, e nesta mesma fala há algo interessante, quando ele exemplifica: o escravo que cuidou do meu pai fez sua barba por 45 anos, e por 45 anos, todos os dias, esteve com uma navalha afiada em sua garganta e nada fez... É doidera pensar que existe algum apego, como o do próprio Stephen por Candie (quando ele morre, Stephen realmente sofre).
Além de tudo isso, o resto é bem previsível (tirando que neste filme ele faz uma ponta - uma pontona - atuando como um caubói que leva os negros, numa participação a la Hitchcock), sangue jorrando para todos os lados, uma trilha sonora sempre boa, enquadramento da câmera, enfim, eu fiquei com a sensação que o Tarantino gosta mesmo de imprimir sua marca, mas acho que ele poderia ousar mais, está usando uma fórmula que obviamente dá certo, mas que é batida...
Afora minhas implicâncias assistir a “Django” é um prazer, é um filme que você torce, se diverte, sofre e se deleita com um final de glória, vale a pena para lavar a alma.
Django livre (Django Unchained, EUA, 2012) ****