terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

36° - "O labirinto do fauno"


Imagine uma criança, uma menina esperta e inteligente,  que mora no campo, mas com um padrasto despótico e uma mãe grávida e muito doente, acamada; sua vida é tão cruel que é preferível viver na imaginação, acreditar piamente nos contos de fadas. Ofélia (Ivana Banquero) encontra uma ruína do que já foi um labirinto e dentro dele ela encontra-se com fadas e com um fauno (tadinho, horroroso, mas com senso de humor), esse fauno a faz acreditar que Ofélia é, na verdade, uma princesa de um mundo subterrâneo, mas que decidiu ver a luz do sol e se esqueceu de seu verdadeiro lar. Para poder voltar para sua casa e seus pais, os reis, a menina terá que passar por três provas, todas elas envolvendo perigos que vão revelar seu caráter e coragem. Nessas provas, Ofélia encontra com verdadeiros monstros, horríveis, o monstro cujos olhos estão nas mãos é a coisa mais feia que eu já vi no cinema (tudo bem que eu não sou muito de filme de terror, mas vá, eu já vi o Allien, por exemplo, e esse o deixa 'no chinelo') e então, pense nessa menina que prefere conviver com esses monstros, com o medo, a ter que encarar sua realidade, que é muito mais feia e infeliz. As fantasias de Ofélia não demonstram a inocência de uma criança, mas um subterfúgio para conseguir sobreviver emocionalmente à sua realidade.
A época é 1944, na Espanha fascista, e o padrasto de Ofélia é o capitão Vidal (Sergi López), esqueça Darth Vader, capitão Vidal é uns dos vilões mais cruéis que já vi em filmes, é inacreditável, ele é brutal, misógino,  arrogante, desumano, “feladamãe” que mata crianças a sangue frio, tortura, assassina sem nenhum motivo com crueldade, affe, a lista dele é imensa e é por isso que a cena na qual Mercedes (Maribel Verdú) - a empregada que está do lado dos rebeldes - o esfaqueia e diz que está acostumada a abrir porco é um delírio.
"O labirinto do fauno" é também um filme tenso, seja nas cenas da fantasia de Ofélia, seja nas cenas da realidade, porque há um suspense reinando na casa, onde Carmen (Ariadna Gil) está grávida e doente, o médico e Mercedes tentam ajudar os revolucionários que estão no campo e prestes a atacar. Lançado em 2006 e dirigido por Guillermo del Toro (que eu bem confundia com Benicio Del Toro, há), "O labirinto" é certamente um dos filmes mais belos que eu já vi (tanto é que tenho uma cópia em casa, eu não sou de baixar filmes, gosto de comprar os DVDs, ter capa, essas coisas). O ambiente criado pelos produtores e pelo diretor é também belíssimo, os cenários e as cores, o filme é quase monocromático, é escuro, sem vida, a não ser na cena final.
Aliás, a cena final do filme é espetacular, e eu gosto muito de filmes que tem um quê de livro, que deixam a gente imaginar!! Será que Ofélia realmente viveu na fantasia ou apenas a idealizou para matizar sua vida tão sofrida? Não precisa de resposta, é tudo tão amarrado, belo e também triste que realmente mereceu os 3 Oscars que ganhou.
Eu sou uma sonhadora nesta vida e esse é um dos motivos pelo qual gosto tanto de filmes que abordam como a fantasia serve para tornar a vida mais leve, e nesse sentido "O labirinto" lembra muito "Peixe grande e suas histórias maravilhosas". Mas também, pasmem, me lembrou "Alice no país das maravilhas" (o do Tim Burton que pouca gente gosta, e eu sim) e também "Bastardos Inglórios", principalmente no fim, quando os rebeldes cercam o capitão com o filho nos braços, ele olha no relógio que foi do pai, entrega o filho e pede: "por favor, digam ao meu filho a hora em que morri" e ouve de volta "não, seu filho nem vai saber seu nome", há, é um júbilo.
Todos esses fatores constroem um filme realmente incrível, com cenas e personagens surreais e aterrorizantes. Apesar de ser um filme de fantasia e também classificado como filme de terror, mas acima de tudo é um filme criativo, com uma história diferente e encantadora. 
O labirinto do fauno (El laberinto Del fauno, Espanha e México, 2006) *****

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

35° - "Obrigado por fumar"


Pelo que li - superficialmente - na internet, os espectadores tiveram uma impressão bem diferente da minha em "Obrigado por Fumar"; que é fantástico e certamente um dos meus preferidos. Tenho que admitir que, antes de vê-lo pela primeira vez, eu tinha um certo preconceito com o título, pois achava que era um documentário do tipo "Super size me" falando sobre os malefícios do cigarro, mas não, o filme não tem nada disso, nem chega perto; porque apesar de muita gente falar o contrário, o filme não é sobre o tabagismo (ele poderia, e o faz no fim do filme, estar defendendo qualquer outra coisa ou tema). "Obrigado por fumar" fala sobre a importância das palavras e, principalmente  o poder das palavras, o poder de quem tem o dom da fala (sinceramente me lembrou bem a conturbada entrevista do Silas Malafaia no "de frente com Gabi" exibido ontem).
Nick Naylor (Aaron Eckhart) é lobista da indústria do tabaco nos EUA e o filme mostra como ele desenvolve seu ponto de vista, "sou pago para falar. Não sou doutor, nem advogado. Sou bacharel em ofender e em ser xingado". Isso porque defender o cigarro numa sociedade cada vez neurótica com o politicamente correto e com a 'vida saudável' não é pra qualquer um, e também pudera, lá no início do filme Nick diz, "há Átila, Gengis e eu representante dos cigarros" que mata 1.200 pessoas por dia nos EUA. Pronto, chegamos num ponto fantástico do filme, ele não faz apologia a nada, não está a fim de levantar bandeira e blábláblá. Com relação ao cigarro (que é o pano de fundo da questão) Nick está certo e errado, assim como Ortolan Finistirre (William H. Macy, que está no também ótimo "Fargo") o senador, que aparentemente tem boas intenções em levantar a bandeira do anti-tabagismo (apesar de serem ideias ridículas), mas na verdade o faz para se promover como político.
O filme chega até a beirada do relativismo porque ele mostra que mesmo num assunto tão polêmico - e em princípio óbvio - há espaço para verdades e mentiras. Afinal, o que é verdade? O que é certo? Qual é a atitude verdadeiramente desinteressada? Nick Naylor defende então a beleza do argumento, se você argumentar corretamente nunca estará errado. Mas é o próprio Nick que fala ao filho que este tipo de trabalho não é pra qualquer um, porque é necessário certa "flexibilidade moral" que poucas pessoas têm. No processo de ganhar na fala, nem sempre atacar ao argumento do adversário é a melhor saída, mas simplesmente provar que está errado (como na cena na qual Nick e seu filho conversam num parque de diversões e ele pede para o filho defender o sorvete de chocolate enquanto ele defende o de baunilha).
O papel de Nick Naylor é ter o controle da mídia, é aparecer em situações diversas e tentar minimizar os efeitos negativos que a indústria do tabaco tem na sociedade (a cena inicial é ótima, ele consegue reverter a ideia do programa e ainda termina apertando a mão do rapaz com câncer, levado obviamente para demonstrar os malefícios do cigarro), e o cara é fantástico em seu poder de persuasão, na frieza com a qual ouve os outros argumentos (sempre, taticamente, com um sorriso no rosto) e na falta de paixão para defender seu ponto de vista (fundamental para não perder o equilíbrio numa discussão).
Há outra cena excelente, onde Nick é sequestrado e os bandidos enchem seu corpo com adesivos de nicotina e quando Nick acorda no hospital seu médico diz que os cigarros salvaram sua vida, pois nenhum não fumante aguentaria a quantidade de nicotina que tinha no sangue!
Eu poderia aqui citar todas as cenas do filme, porque são excelentes, com ótima edição e apresentação dos personagens, bonitas de ver e, claro com diálogos afiados. Gosto também dos “Mercadores da Morte”, outros dois lobistas e amigos de Nick (uma defende o álcool e o outro as armas), os três se reúnem uma vez por semana para comer juntos e conversar; tem uma cena ótima na qual os três discutem sobre qual tema é mais polêmico e qual dos três tem mais risco de ser sequestrado por conta do número de morte que as indústrias que representam proporcionam na sociedade.
“Obrigado” ainda tem uma sacada excelente, nenhum cigarro foi aceso ou fumado durante o filme que fala sobre a importância de cigarros em filmes como propaganda para a indústria. Foi dirigido por Jason Reitman o mesmo de "Juno" e "Amor sem escalas", outros filmes também ótimos; e é uma comédia irônica, inteligente, com piadas sagazes e muito, muito divertida.
“Michael Jordan joga bola. Charles Manson mata pessoas. Eu falo. Todos têm um talento”.
Obrigado por fumar (Thank you for smoking, EUA, 2005) *****

domingo, 3 de fevereiro de 2013

34° - "Era uma vez na América"


"Era uma vez na América" tem nome de filme de faroeste, dizem por aí que é filme sobre a máfia, e por conta dessas impressões eu não tinha visto, apesar da insistência do Digo, pois faroeste e/ou máfia não estão no topo da minha preferência. Mas acontece que não é nada disso, e o filme, apesar de ter a máfia como fundo, fala mesmo sobre as complexidades do ser humano centradas na amizade e na traição. 
Os personagens são tão humanos e, por isso, tão complexos que eu torci por eles em algum momento, depois torci contra, depois voltei a torcer a favor, enfim, eles não são retos, tem seus desvios. E tudo bem que eu estou longe de ser um Noodle da vida (que é um cara companheiro, que honra seus amigos, que ama, mas também que estupra, que mata), mas eu também não posso atirar a minha pedra.
“Era uma vez” fala sobre a amizade de 5 rapazes que cresceram juntos, aprenderam a malandragem juntos, mas por um infortúnio um deles Aaronson (Robert de Niro) acaba preso. Depois de alguns anos, quando é solto, seu grande amigo Maximilian Bercouicz (James Woods) lhe apresenta como o grupo cresceu e se beneficiou da proibição das bebidas alcoólicas (lei seca) e outros crimes ligados à máfia judaica. Mas por imbróglios ocorridos a própria amizade deles é posta a prova e depois de 35 anos eles vão reviver um acontecimento único na vida de todos.
No filme a gente consegue ficar íntimo de todos os personagens, conhecer suas histórias e se emocionar com elas, e sabe por quê? Porque o filme tem 4 horas de duração. É isso mesmo, ninguém está lendo errado. Então você pensa que "O Poderoso Chefão" é famoso pela história e por ser uma trilogia, mas perae, "Era uma vez" tem quase a mesma duração num filme só. O filme tem intervalo, isso mesmo, lá pelas tantas sobe numa tela preta a palavra "intervalo", que penso, sei lá, que no cinema era a brecha para as pessoas darem uma volta, esticarem a perna, irem ao banheiro. É muita raça de filme, e por isso mesmo é o ideal para um fim de semana chuvoso.
Mas assim, o filme não é cansativo, ele é todo cuidadoso. Com a história, com as imagens, com os sons. Eu quase chorei em várias cenas, como a do Robert De Niro em close com uma música de fundo (tem até Beatles), aliás, o De Niro tem uma feição triste, no filme cai muito bem e é de cortar o coração.
E o filme, muito mais que a máfia, que os tiros, que a violência, trata sobre a memória, sobre as lembranças, sobre a saudade... Sobre a vida que nem sempre a gente tem controle, sobre pequenas atitudes que mudam um futuro. E tudo isso é mostrado com muita delicadeza.
“Era uma vez” tem cenas lindíssimas e emocionantes e um final de tirar o fôlego (apesar de um tanto previsível, se bem que talvez nem tão previsível quando foi lançado, em 1984). Um filme lindo de ver, realmente um clássico imperdível!
Era uma vez na América (Once Upon a Time in America, EUA, 1984) ****

sábado, 2 de fevereiro de 2013

33° - "Bonequinha de Luxo"


Para fechar o pacotão "Truman Capote", "Bonequinha de Luxo". Nos dois filmes de Truman "Bonequinha" é muito citado, pois pelo que entendi, além do filme ser inspirado num conto de Capote, ele ainda esteve nas filmagens ou na montagem, auxiliando na produção do filme. E é um clássico, né?! Tudo bem que, para variar, eu já tinha visto e só percebi lá pelo meio do filme (o que me diz alguma coisa sobre o filme ser um clássico no cinema, mas não na minha vida). Ver o filme depois dessa grande sessão de Truman Capote deu também outro sentido.
"Bonequinha" tem um dos inícios mais bonitos de filme que eu já vi, é linda a cena de New York vazia, o táxi para e Holly Golightly (Andrey Hepburn) desce para tomar café em frente à Tiffany (em pé mesmo, enquanto olha as vitrines). E taí uma beleza, o nome em português é muito melhor do que o original, "Bonequinha de Luxo" é bem melhor que "Breakfast at Tiffany's", vamos combinar!
O filme é sobre os sonhos de Holly, que é uma garota de programa de luxo cujo sonho é casar-se com um milionário que lhe dê uma casa na qual se sinta tão bem como na Tiffany (hein?!). Para seu prédio muda-se Paul Varjac ou Fred (George Peppard) que é também teúdo e manteúdo de uma senhora rica, e escritor nas horas vagas. Aliás, que cena é aquela na qual Holly e Paulo (ou Fred) entram na Tiffany com 10 dólares, não conseguem comprar nada, e o vendedor na maior boa vontade do mundo resolve gravar o nome do casal num anel achado num pacote de biscoito, e em seguida eles vão a uma biblioteca pública, fazem barulho, escrevem no livro, a atendente reclama e Holly diz algo do tipo, por isso que a Tiffany é melhor que uma biblioteca (hein?!).
O sonho de Holly é tão presente e apresentado tão delicadamente que a gente quase se esquece o quão fútil é. Aliás, é impressão minha, ou existe uma semelhança grande entre Holly e a mãe de Capote, cujo sonho era morar em Manhattan, conseguiu um marido que lhe proporcionou isso, mas não conseguiu manter o padrão de vida com o tempo, então sua mãe bebeu até morrer (porque, ahh, pra quê viver se não for em Manhattan!).
A Audrey Hepburn eternizou a "Bonequinha de Luxo", sua personagem transcendeu o filme, não é a toa que é o pôster mais vendido, e ainda estampa camisetas, almofadas, quadros, etc. Não é difícil entender o por quê, ela é e está no filme simplesmente deslumbrante (apesar de magra demaaaais), além de linda, tem um figurino de arrebentar, mas permitam-me uma heresia, até hoje vi dois filmes de Hepburn, esse sobre o qual escrevo e "My fair lady" e gente, as personagens dela são muito chatas, mas ainda não estou totalmente convencida se era ela ou talvez um tipo de comportamento de época, sei lá.
"Bonequinha" se salva - pra mim - porque tem cenas muito bonitas, como a festa psicodélica na casa de Holly, muito bonita e entrosada, e também a cena de Holly tocando e cantando na janela de seu apartamento, lindíssimo (aqui).
Mas a história em si não entusiasma muito, e o fim, não gostei; além de ter a cena triste dela jogando o gatinho na chuva (chiuf! e eu vi nos extras o diretor dizendo que o 'gato fedia muito', chiuf outra vez) eu não curti muito o fato da Holly ficar com 'Fred' apenas no final, quando não lhe restava mais nenhuma opção, não sei, acho que eu optaria por um final mais romântico e desinteressado.
Ainda assim, apesar dos meus pesares, "Bonequinha" é um clássico que deve ser visto, além das cenas bonitas, dos figurinos fantásticos, ainda tem diálogos afiados, como o do final, na cena do carro. (“uma garota não pode ler uma coisa dessa sem batom”), e Holly, tem um otimismo encantador, na sinopse diz que é uma moça inocente, mas acho que não, creio que ela escolhe fingir que não entende para fingir viver parte de seu sonho.
Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany’s, EUA, 1961) ***

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

32° - "A sangue frio"


Bem, hoje este bloguinho faz um mês, quem diria! Um mês com publicações diárias e acho que seria interessante tecer algumas considerações: 
1) o número de visitas (de comentários nem se fala) do blog é proporcional à minha divulgação; eu falei sobre o blog com pouquíssimas pessoas, só com aquelas que eu sei que gostam de cinema e que gostam de mim (risos). Isso porque o objetivo de eu ter criado este blog está muito longe de ganhar popularidade. Escrever aqui é um projeto pessoal, e que até agora tem me deixado muito feliz. Eu me imagino daqui a vários anos lendo o que escrevi, o que pensava, ou então, se tiver um filho quem sabe, que ele me leia, não é uma ideia bacana? Enfim, sonhos de uma pisciana;
2) Eu descobri, jogando no google o nome do blog, que este meu projeto está bem longe de ser original, várias pessoas, vários blogueiros já se propuseram a fazer sua lista dos 365 filmes, um por dia, humpf, mas pelo que vi, apenas um concluiu com êxito sua jornada, muitos ficaram pelo meio do caminho. No início eu colocava no google '365 filmes em 2013' e ele nem aparecia, agora está na terceira página!;
3) Escrever diariamente, claro, está mais difícil do que eu imaginava. Isto porque tem dia que eu não estou com vontade, estou cansada, trabalhei muito ou estudei muito e ainda tenho que vir aqui, pesquisar sobre o filme, escrever, revisar, inserir fotos e etc, o que me toma, pelo menos, uma hora por dia (que antes era dedicada à minha malhação e terei que pensar como resolver isso em breve);
4) Minha proposta é escrever sobre filmes que eu gosto e que eu indicaria, e eu tenho uma lista enorme de filmes para citar aqui, só que, eu fui percebendo no decorrer dos dias, que para escrever eu teria que rever os filmes, contar somente com minha memória (que já não é lá grande coisas) não seria suficiente, e isso tem tomado ainda mais tempo. Eu procuro ver os filmes no fim de semana, mas também vejo durante a semana, é tranquilo, é só cortar as novelas e seriados que dá;
5) Escrever era penoso no início, mas tem se tornado mais fácil. Isso porque, como tudo na vida, a gente vai pegando jeito com a prática. Se no início eu demorava bastante para pensar sobre o que escrever, agora, sem esforço, enquanto eu vejo um filme as frases e o que escrever já estão na minha cabeça. Eu sempre falei isso para meus alunos, escrever é hábito, quanto mais se lê e se escreve mais fácil fica (não necessariamente melhor, mas é a tendência);


Já que estou comemorando hoje eu deveria falar aqui de algum filme que figure na minha lista de prediletos (tipo top 20 ou algo do tipo), mas acontece que estou engajada no projeto "Truman Capote" e não faz sentido interrompê-lo agora. O filme que vou falar hoje, se não fosse o projeto, é bem provável que não estaria neste blog porque o filme, em si, não é bom. Eu fico pensando no tamanho da influência do Capote, que pegou uma história (terrível, mas que provavelmente ficaria reclusa aos jornais e reportagens policiais) e a transformou em um dos maiores casos de assassinato dos EUA. A história da história – Capote escrevendo sobre a história dos assassinatos dos Cuttlers em seu livro “A sangue frio” – rendeu dois filmes, e pelo que pesquisei seu livro rendeu mais dois filmes com o mesmo nome do livro. O primeiro filme data de 1967 (apenas dois anos depois do livro), mas não o encontrei nas locadoras de Juiz de Fora, apenas no youtube sem legenda, eu vi umas partes e parece bem melhor do que o filme que falarei aqui. O segundo “A sangue frio” é de 1996, e como diz o Digo, a gente nunca deve confiar num filme que tem o Eric Roberts como chamariz.
Vejo só “convite irrecusável para os fãs de um policial de qualidade, este filme traz atores e diretor consagrados. [...] As cenas não poupam o espectador de muita ação e tensão. Pedida certa para quem acha que já viu tudo no gênero. Este irá surpreendê-lo”. Isto é a informação que está na contra-capa do filme (junto com uma foto de Eric Roberts com dor de barriga, não resisti), meio pretensioso, não?! Ontem eu falei sobre “O Sol é para todos” e como o filme é longo, certo? Esqueça isso, colega, “A sangue” tem 3 horas de duração, dá pra dividir em 3 partes (eu vi em pedaços, não deu pra ver direto).
Mas o que mais me chamou atenção, e foi por isso que eu vi partes do primeiro “A sangue” (não tive tempo de vê-lo todo), é como Capote resolveu contar o primeiro “romance de não-ficção”; é claro que o mais satisfatório aqui seria ler o livro (ele está na lista), mas este blog é sobre filmes. Como os livros são baseados na obra de Truman Capote e isto fica claro no início de ambos os filmes, eu acho que posso tirar algumas conclusões.
A primeira delas é que o Perry Smith de Capote é um homem perturbado, fica claro que o enfoque está nele. Ele oscila tendo momentos de tranqüilidade, sendo um homem cortês, educado e amável, com outros de pura loucura, no qual lembra momentos de seu passado e se torna muito violento, enfim, não é uma personalidade fácil de decifrar e nem de julgar, ao contrário de Dick que é um babaca e pronto. E apesar de cuidar da família Clutter para que eles fiquem confortavelmente amarrados (?!) e não permite que Dick violente a meninas, é Perry que mata toda a família (inclusive corta a garganta do pai), se bem que a gente não sabe se isso é verdade ou se Perry assume a culpa para consolar a mãe de Dick...
Passar a primeira das 3 horas do filme entendendo como a família Clutter vivia é uma boa saída (apesar de muito longa), porque a gente realmente entende o estrago de um crime tão sem sentido. Os Cuttler eram amados na pequena sociedade que viviam (e Capote deixa claro, em Confidencial, que seu objetivo é escrever sobre como um crime bárbaro afeta a confiança da pequena população), o pai seria indicado a metodista do ano, a menina era referência para outras meninas, mas tinham uma mãe perturbada (será que ela já pressentia os acontecimentos traumáticos?! ). E acho que tudo isso funciona no filme, pois quando os bandidos entram na casa a procura de um cofre que não existe e por isso matam toda a família, a gente sente o absurdo deste crime.
Outra coisa que achei muito interessante é que, como Capote não está no filme, e vendo os outros dois, fica claro que o detetive Dewey é o próprio Capote, é ele que se compadece de Perry e o visita até o fim. É para ele que Perry fala, na hora do enforcamento, o final que Capote gostaria, pede perdão pelo que fez.
Assim como em “O Sol é para todos” assistir “A sangue frio” só me deixou foi com vontade de ler o livro e de entender realmente como Capote (sem outros filtros) percebeu toda história e a escreveu.
A sangue frio (In Cold Blood, EUA, 1996) **

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

31° - " O Sol é para todos"


Depois de ver dois filmes sobre Truman Capote eu fiquei com muita vontade de ver outros filmes que são citados. Sendo assim, ontem eu tive a oportunidade de ver "O Sol é para todos" baseado no livro famoso e premiado de Harper Lee, amiga de Capote, que em "Capote" aparece, mas no início eu até achei que fosse sua empresária, mas em "Confidencial" é interpretada por Sandra Bullock e tem um papel com maior destaque. Ambas são ótimas, mas a Harper de Bullock é uma graça, afetuosa e inteligente, não é fútil como as outras amigas de Truman e fica claro que eles têm uma amizade duradoura, de muitos anos. Em "Capote", há a cena do lançamento de "O Sol é para todos", inclusive é uma cena na qual o Truman de Philip Seymour Hoffman já está abatido e dramático, e foi esse filme que aparece no lançamento que eu tive a oportunidade de ver.
"O Sol", vencedor do Oscar, é de 1962, é preto e branco, e como de costume para filmes antigos é longo, eu não sei se é nossa cultura "fast-food", mas é perceptível que algo ligado ao time (vou chamar assim por falta de conhecimento de algum termo técnico) do filme mudou muito, por mais que o filme nem seja tão longo assim (são 2 horas e 10 minutos) eu cortaria facilmente uma meia hora. A primeira hora do filme é meio arrastada, procurando mostrar a relação das crianças numa cidade que é também sem atrativos (como a própria narradora fala no início).
Mas vamos à sinopse: aqui também há outro engano, na capa do filme e até na internet a sinopse é sobre um negro que foi condenado injustamente por estuprar uma branca e Atticus Finch (Gregory Peck) é o único advogado disposto a ajudá-lo. Lendo isso a impressão que dá é que "O Sol" é um daqueles filmes de tribunais no qual há um sofrimento e angústia e depois o júbilo pela vitória, certo? Não, errado. É claro que há toda essa história do preconceito horroroso de uma cidadezinha do sul dos EUA nos anos 1930, mas essa história é triste, é injusta, ver ser condenado um homem apenas por ser negro (não há provas nenhuma, apenas uma palavra contra outra) é de doer o coração. 
Acontece que "O Sol" está mais focado nas crianças do que na história do julgamento em si. O filme mostra a vida de Jem e Spout, filhos de Atticus, além de seu amigo Dill (parece que ele foi inspirado em Truman) e como as crianças se relacionam na cidade, com seu vizinho aparentemente maluco, com a história de injustiça, entre eles, com seu pai. Aliás, que pai, viu?! Quem não gostaria de ter um pai como Atticus (Gregory Peck inclusive ganhou o Oscar por sua atuação), um homem honesto, reto (gostei na cena, ao final do julgamento, no qual todos os negros - que estavam segregados, isolados na parte de cima do tribunal - se levantam e Atticus é incapaz de olhar, de se vangloriar), pai solteiro e ao mesmo tempo afetuoso, amoroso e carinhoso com os filhos.
E é interessante perceber a relação dos filhos com a situação empregada, as crianças não são racistas (mais uma vez lembro da cena do tribunal, onde os negros, separados dos brancos que sentam em local privilegiado, e os únicos brancos são as crianças), seja pelo exemplo do pai, seja simplesmente porque o racismo, como qualquer tipo de preconceito, é algo cultural, que é aprendido, não é nato. E o filme é bonito porque mostra essas delicadezas típicas das relações humanas.  
Eu gosto também do título em português “O Sol é para todos”, acho que a ideia é boa, apesar de tão diferente do título em inglês (To kill a Mockingbird). Entretanto, apesar de bacana, em vários momentos do filme eu fiquei com vontade mesmo é de ler o livro, e pela importância histórica do filme e do livro na descrição de um momento histórico tão delicado, é o filme que eu indico hoje.
O Sol é para todos (To kill a Mockingbird, EUA, 1962) ***

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

30° - "Confidencial"


Nossa, e agora? Será que eu fiz bem em assistir a "Confidencial" logo em seguida de "Capote"? Eu fiquei pensando que "Confidencial" estaria em desvantagem, posto que eu já conhecia a história e é inevitável - já que os filmes têm a mesma sinopse - compará-los. Mas, assim, pensando melhor acho que eu tive uma sensação próxima da que teve o público que acompanhou os filmes quando foram lançados, ambos foram produzidos na mesma época, mas os produtores de "Confidencial" resolveram lançá-lo um ano depois e por mais que sejam filmes muito distintos é bem provável que seja essa uma das razões para a arrecadação pífia de "Confidencial" perto de "Capote", sei lá, as pessoas não quiseram conferir a mesma história. Mas elas perderam, pois o filme é sensacional, aliás os dois são fantásticos. 
Eu tinha a nítida impressão que escolheria um, e meu coraçãozinho apontava para "Confidencial", mas nada disso, os dois são ótimos, e são diferentes apesar de contar a mesma história, e isso é maravilhoso. Quando temos uma oportunidade como esta percebemos que: 1) não devemos acreditar tanto em filmes baseados em histórias reais, pois são, como está claro na frase, baseados, o que quer dizer que há grande dose de "licença poética" e 2) a beleza de poder enxergar a lindeza que é o cinema, que cada produtor/roteirista/diretor/ator vai apresentar uma história da sua maneira de ver aquilo e essa pessoalidade e humanidade é algo bonito de ver e que passa despercebido quando vemos filmes, não é mesmo? A não ser que você tenha essa experiência que estou descrevendo, de ver dois filmes com a mesma sinopse, mas que optam por caminhos bem diferentes e que por isso deixam a gente, no final das contas, com a impressão que não dá conta de compreender a personalidade e o episódio que foi Truman Capote.

Eu realmente achei que tomaria partido de um filme baseada na minha experiência com "Jornada da Alma" e "Um Método Perigoso", que apesar de mostrar pontos de vista diferentes (em "Jornada" o filme é centrado na Sabina e em "Método" em Jung), pra mim "Jornada" é muito melhor, em vários sentidos. Mas em "Confidencial" e "Capote" não, eles conseguiram fazer escolhas distintas e todas boas. Enquanto "Capote" é um drama, em certas cenas pesado e angustiante, "Confidencial" escolhe matizar o drama (que também existe, claro) com tons mais leves, entrelaçando a história da escrita de "A Sangue Frio" com cenas até fúteis de Truman Capote com as amigas de alta classe novaiorquina. Os Trumans dos filmes também são iguais mas diferentes, o de Phillip Seymour Hoffmann é um estilo mais intelectual e sofrido, o de Toby Jones é mais descontraído,  brincalhão e fútil (além de super fofoqueiro), mas ambos levam as características únicas de Capote, sua voz, seu estilo, seus trejeitos e o fazem de maneira magistral. 
Outra coisa bem interessante são as nuances que os filmes desenvolvem, enquanto que "Capote" desenvolve uma relação tensa entre Truman e Perry, que termina em drama para Capote, porque além do envolvimento com o livro e Perry ao final ele já desejava sua morte e este desejo transformou-se em angústia alucinante para Truman; em "Confidencial" Truman e Perry se relacionam, amorosamente, e a morte de Perry é também sofrimento e perda para Truman.
"Confidencial" ainda tem escolhas certas, entremeia a narrativa com falas das personagens (baseadas em pessoas reais) como se o filme fosse um documentário sobre Truman Capote, mas isso é feito em pinceladas, não torna o filme um pseudo-documentário (como Zelig). Além disso eu gostei bastante da edição, na qual vários assuntos são abordados por vários personagens, um começa contando e vai cortando para outras cenas, com outras pessoas (parecendo às vezes uma grande rede de fofoca, mas o efeito é muito bacana).
Li num site que "Confidencial" foi produzido por um estúdio independente (ta lá, no início, Warner Independent Pictures) enquanto “Capote” foi produzido pela Sony. Mas os outros números eu não consigo entender, enquanto “Capote” foi produzido por 7 milhões de dólares, "Confidencial" teve o orçamento de 13 milhões, e "Confidencial" tem em seu elenco muitos mais atores conhecidos do grande público. Por outro lado, enquanto que “Capote” arrecadou 4 vezes seu valor, "Confidencial" não conseguiu nem um terço (as informações estão aqui). Eu não entendo como isso acontece, como a indústria do cinema funciona, mas acho realmente uma pena – em termos de número - "Confidencial" ficar tão atrás de “Capote”, porque em termos de cinema, ambos são um deleite.
Confidencial (Infamous, EUA, 2006) ****